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Setembro/2009– Ano XXII – nº 248   ::   Suplemento

 
:: CIÊNCIAS HUMANAS::

História
Porta de entrada do Estado
Hospedaria de Imigrantes de São Paulo, por onde passaram 3,5 milhões de pessoas, é tema de livro

Entre 1887 e 1978, a Hospedaria de Imigrantes de São Paulo recebeu aproximadamente 3,5 milhões de pessoas de 75 nacionalidades e etnias, além de brasileiros de várias regiões do país. Trata-se de um rico universo de sonhos, angústias e expectativas que foram vividas em pátios, corredores, dormitórios e refeitórios da instituição.

Em Hospedaria de imigrantes de São Paulo (Coleção São Paulo no Bolso, Editora Paz e Terra, 102 páginas, R$ 24), os historiadores Odair da Cruz Paiva, da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), câmpus de Marília, e Soraya Moura, coordenadora de projetos do Memorial do Imigrante, mostram como os universos do café, da ferrovia, da urbanização e das guerras mundiais se fizeram presentes na história do local.

Inaugurada no bairro do Brás, a Hospedaria foi transformada, em 1998, no Memorial do Imigrante. Neste livro, ocorre um resgate dessa evolução histórica do alojamento, com detalhes sobre sua construção, estrutura e funcionamento, além de um breve estudo dos fluxos migratórios e suas conexões com questões sociais, econômicas e políticas. “A constituição do Memorial do Imigrante como lugar de preservação dessa memória também é enfocada”, afirma Paiva.

Os autores colocam a Hospedaria de São Paulo dentro de um conjunto de instituições semelhantes, como a da Ilha das Flores (1883-1966), no Rio de Janeiro, a de Buenos Aires (1911-1953), e a da Ilha de Ellis (1892-1954). “Excetuando a de São Paulo, elas se localizavam próximo a regiões portuárias ou mesmo em ilhas”, explica Soraya. “Isso facilitava os trabalhos de conferência de documentação, controle médico-sanitário e de alfândega.”

Peculiaridade – A Hospedaria de São Paulo possui, segundo os pesquisadores, uma especificidade. A topografia acidentada entre Santos e São Paulo tornava pouco viável a construção de uma hospedaria próximo ao porto, pois haveria a necessidade de erguer outra no planalto, para que houvesse a redistribuição dos imigrantes pelo Interior do Estado por meio da malha ferroviária.

“A construção da Hospedaria entre os anos 1886 e 1887 foi, portanto, a expressão concreta da política imigratória no período”, diz Paiva. “Ocorria a confluência entre os interesses do capital cafeicultor, a ação do poder público e o esgotamento do escravismo”, acrescenta Soraya.

Os historiadores explicam que recepção, triagem e encaminhamento determinavam a permanência de imigrantes e trabalhadores nacionais na Hospedaria e seu destino para as fazendas. Surge assim a memória de um cotidiano repleto de histórias de vida muito difíceis de serem recuperadas.

A Agência Oficial de Colonização e Trabalho, chamada, a partir de 1911, de Agência Oficial de Colocação, tinha, por exemplo, grandes quadrosnegros em que eram afixadas as ofertas de fazendeiros e os lugares onde se podia encontrar oportunidades. “Um mapa do Estado de São Paulo servia para esclarecer melhor a situação dos locais de trabalho”, conta Soraya.

Defesa da memória – O livro, que integra a Coleção São Paulo no Bolso, da Paz e Terra, coordenada por Palmira Petratti-Teixeira, da FFC, e Maria Izilda Matos, da PUC-SP, aponta ainda que, em 1993, foi criado o Museu da Imigração, que ocupava parte das instalações da antiga Hospedaria.

“Uma reestruturação ocorrida em 1998 deu origem ao Memorial do Imigrante. O objetivo foi preservar, catalogar, pesquisar e divulgar a História da Imigração e a memória dos imigrantes que vieram para o Estado”, comenta a coordenadora de projetos do espaço.

Hoje, o Memorial do Imigrante ocupa 30% da antiga Hospedaria de Imigrantes e desenvolve serviços de preservação da história dos que passaram por suas instalações. “A maior parte do edifício, que não é administrada pelo Memorial, continua com objetivos próximos aos da fundação da Hospedaria no século XIX”, conta Paiva.

Funciona no espaço a Associação Internacional conhecida como Arsenal da Esperança, que abriga homens sem moradia, migrantes carentes e refugiados políticos. “Entre todas as instituições similares, a Hospedaria de Imigrantes de São Paulo é única que congrega as funções de espaço de preservação da história da imigração e a acolhida de migrantes nacionais e estrangeiros”, ressalta o docente da FFC.

A obra aponta ainda que as hospedarias de Buenos Aires e da Ilha de Ellis, assim como a de São Paulo, foram transformadas em museus da imigração. “A Hospedaria de São Paulo mantém parte do passado da cidade. Elo entre tempos cada vez mais distantes, sua presença na paisagem de São Paulo propicia uma compreensão mais arguta sobre a história de uma cidade marcada pela diversidade de seus habitantes”, conclui Paiva.

Oscar D´Ambrosio


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