UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::

Setembro/2009– Ano XXII – nº 248   ::   Suplemento

 
:: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS::

Zoologia
Bico regula temperatura em tucanos
Com o fluxo sanguíneo, região do corpo da ave altera quantidade de calor trocada com ambiente

Há alguns séculos, os cientistas levantam hipóteses sobre a utilidade do grande bico dos tucanos. Finalmente, o enigma pode estar resolvido: o bico funciona como um eficiente radiador, que controla o calor do corpo do animal, conforme suas necessidades. A descoberta foi realizada por cientistas da Unesp e da Universidade Brock, no Canadá, em estudo publicado na edição do dia 24 de julho da revista Science.

Os cientistas monitoraram tucanos da espécie Ramphastos toco em um equipamento de termografia infravermelha. Conforme o ambiente esquentava ou esfriava, a temperatura da superfície do bico mudava rapidamente. O estudo foi feito por Glenn Tattersall, da Universidade Brock, e Denis Andrade e Augusto Abe, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências (IB), câmpus de Rio Claro.

Abe é coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas em Fisiologia Comparada, um projeto temático financiado pela Fapesp em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Segundo Andrade, o tucano utiliza o bico para regular a quantidade de calor trocada com o ambiente. Essa função, no entanto, nunca havia sido proposta até agora. “Em uma situação de frio, o tucano pode diminuir o fluxo sanguíneo para o bico e conservar o calor no corpo”, afirma. “Em uma situação de calor, o fluxo é aumentado e o bico fica mais quente, facilitando a perda de calor do corpo do animal para o ambiente.”

O experimento foi relativamente simples. “Os animais foram colocados em uma câmara climática cuja temperatura pode ser manipulada. Para monitorar a variação de temperatura, usamos uma câmera de infravermelho, que permite detectar a temperatura superficial do objeto em seu interior, fornecendo uma imagem térmica com riqueza de detalhes muito grande”, disse Andrade.

No estudo, os pesquisadores observaram que a temperatura da superfície do bico mudava rapidamente, conforme o ambiente esquentava ou esfriava. Durante o pôr-do-sol, enquanto os pássaros preparavam-se para dormir, os bicos esfriavam cerca de 10°C em questão de minutos. Foram utilizados na pesquisa quatro animais adultos e dois filhotes com dois meses de idade. Um total de 110 horas de dados de vídeo foram coletados para a análise.

Janela térmica – O bico do tucano, segundo o estudo, tem características singulares no mundo animal, formando cerca de um terço do comprimento total do corpo do pássaro.

É o bico mais comprido em relação ao tamanho do corpo entre todas as aves.

Diversas hipóteses sobre a utilização do bico já haviam sido levantadas, como o uso para atrair companheiros ou para comer determinadas frutas. “O bico tem todas as características de uma janela térmica, como a grande superfície, a boa vascularização e a ausência de isolamento térmico”, disse Andrade.

Outros exemplos de janelas térmicas, segundo ele, são as barrigas de cães e as orelhas de elefantes e lebres. “Há evidências de que três espécies de patos e marrecos utilizem o bico para regular o calor”, assinala Andrade. “Mas o tamanho do bico do tucano faz com que esse procedimento seja muito eficiente para ele.”

Os pássaros não suam, segundo o pesquisador. Como os cães, eles ofegam quando a temperatura aumenta demais. “Quando a temperatura sobe, o tucano começa a jogar o calor fora pelo bico”, relata Andrade. “Se aumentar acima de certo ponto, ele abre o bico e começa a ofegar.”

Fábio de Castro, Agência Fapesp

 
  ACI