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Agosto/2009 – Ano XXII – nº 247   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: Produção literária em tempos difíceis ::

Novos rumos para a velha crise da literatura
Marcos Siscar

Reavaliação da lógica do consumo deveria recolocar aspecto político como parâmetro de ações na área

Pensar nos rumos da literatura é envolver-se de imediato no campo da profecia. E não deixa de ser significativo que a profecia esteja ligada, tradicionalmente, à desgraça trágica, ao apocalipse, à visão do fim do mundo. Ora, várias publicações de crítica, hoje, ao falar da situação da literatura, insistem na ideia de sua “crise” que, aliás, é tão velha quanto a própria literatura. Por isso, o assunto me parece importante quando se discutem os rumos da literatura no Brasil e o papel que têm diante dela os profissionais da área.

O páthos da falência, da crise, não é estranho à literatura. Baudelaire dizia ironicamente: “O mundo vai acabar”, referindo-se à pobreza da cultura de seu presente. A modernidade, aliás, fez dessa constatação de fracasso o seu projeto: e é assim – apontando o desajuste que coloca em risco sua permanência – que a literatura tem alcançado seus momentos mais altos e de brilho mais nítido. Apontando o mal-estar da cultura, ela coloca em proximidade (etimológica, inclusive) a crise e a crítica.

Mas se a literatura fez da crise, ou seja, da perspectiva crítica, um modo de situar-se diante das coisas, a ideia de seu “anacronismo” cultural, martelada pela mídia e mesmo pela universidade, nos últimos anos, é bastante preocupante. Tal ideia expressa claramente, em muitos casos, um desejo de substituir a visão crítica do desajuste pela ilusão de um ajuste ao dispositivo do entretenimento, da autoajuda, do pluralismo sem discernimento. Não espanta que certos responsáveis pelo ensino, diante diante da dificuldade da questão, prefiram evocar o desgastado “elitismo” da literatura ou apoiar-se na suposta “competição” das mídias como pretexto para sua exclusão ostensiva das ementas, das aulas, das provas de vestibular.

Ou seja, pensar criticamente os rumos da literatura no século XXI, de modo geral, mas também no Brasil (onde o mercado se relaciona com a cultura de modo extremamente predatório), depende de nossa capacidade de distinguir entre os vários tipos de discurso sobre o desajuste ou sobre a crise da literatura. Há aquele geralmente ligado à própria realização artística ou à radicalidade política de alguns campos da crítica literária, frequentemente disfóricos em relação à situação contemporânea, e que funciona como uma espécie de denúncia da violência circundante. E há, por outro lado, aquele que, ao contrário, constata a crise da literatura para minimizar as suas exigências, a sua incômoda clareza, muitas vezes em nome da “democracia”, tristemente manipulada para assentar autoritariamente as ilusões de bem-estar e de inclusão social vendidas pelo marketing.

Pelo mesmo motivo que podemos desconfiar da euforia do artista com a profissionalização e aproliferação de veículos, precisamos ficar atentos ao tom apocalíptico sobre o fim da literatura ou a decadência da leitura. Dirigido aos próprios leitores, aos futuros educadores, se às vezes pro-picia a compreensão do desajuste, em geral, ao contrário, o eufemiza, o atenua, o oculta. Não raro, vem acompanhado de pesquisas numéricas que claramente recusam as dificuldades dos dados objetivos, bastante variados: venda de livros, produção editorial ao longo da história, fluxo de traduções, uso de bibliotecas, circulação de livros usados, variedade de suportes do texto (livros, revistas especializadas, imprensa escrita), tipos de uso da literatura (na educação, no lazer, em espetáculos), além do fenômeno da Internet, essa gigantesca biblioteca, que é também um laboratório para a criação literária. Como medir a “decadência da leitura”, como fez recentemente uma pesquisa, levando em conta apenas a quantidade de dólares gastos em livrarias por famílias americanas? A quem interessa a confusão explícita entre circulação da obra artística e circulação empresarial do dinheiro?

É nítido o movimento oportunista que guia a interpretação de mão única das relações entre a circulação do livro e a política de publicação das editoras; entre a vida intelectual e os suplementos de jornais; entre o peso social da literatura e as transformações sofridas pelas políticas educacionais. Como se as instituições que interagem com a literatura fossem apenas receptoras passivas de um fenômeno supostamente definido e quantitativo que, no fundo, elas mesmas ajudam a criar ou a reproduzir. Dizendo de modo mais enfático, parece que, da visão algo paternalista que, no passado, pretendia educar o público ignorante na obediência de valores elitistas, passamos diretamente para o cinismo (também chamado “realismo”) mercadológico da obediência ao gosto do “público alvo”, público cuja natureza e abrangência, a rigor, são definidas por publicitários e gerentes invisíveis e, nesse sentido, irresponsáveis do ponto de vista das políticas culturais.

Para os profissionais da edição e da comunicação e, sobretudo, para os educadores da área, uma reavaliação dessa lógica do consumo (baseada na anulação da diferença pela assimilação linear de todas as diferenças) deveria recolocar o aspecto político (no sentido da diferença crítica, da valorização de um espaço de dissensão) como parâmetro para suas ações em relação aos rumos da literatura.


Marcos Siscar é docente do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, câmpus de São José do Rio Preto

Este artigo está disponível no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereço
http://www.unesp.br/aci/debate/marcos_siscar.php

 
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