UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::

Agosto/2009– Ano XXII – nº 247   ::   Suplemento

 
:: OPINIÃO ::

Extensão universitária e superação da dicotomia teoria-prática
Loriza Lacerda de Almeida


A universidade contemporânea é reconhecida por ser construtora de conhecimentos e de ciência, porque “desde o século XIX, a universidade pretende ser o lugar por excelência da produção de conhecimento científico. Não admira, pois, que a sua reputação seja tradicionalmente medida pela sua produtividade no domínio da investigação”, que se tornou historicamente o fundamento e a razão de ser da universidade (SANTOS, 1996, p. 199). Entretanto, esta ideologia entra em colapso no pós-guerra e nos anos 1960. Fortemente influenciada pelo movimento estudantil, surge a reivindicação pelo comprometimento
da universidade na resolução de problemas econômicos e sociais. Assim, ela também se sensibiliza com estas questões da sociedade, da qual é parte integrante, e, desta forma, se expande no cumprimento de tarefas pouco tratadas em seu cotidiano.
Todavia, ao assumir os apelos pelo atendimento de demandas sociais, explicitou a dicotomia teoria-prática, porque se baseava na atenção a dois tipos distintos de problemas: 1) os de exigência de desenvolvimento tecnológico, usando a ciência a favor das forças produtivas (vertente economicista); e 2) exigências de cumprimento da responsabilidade social da universidade perante os problemas do mundo (vertente sociopolítica).


Na segunda perspectiva, a universidade inicia sua participação em processos emancipadores da sociedade, propondo estratégias possíveis de construção da cidadania e de melhora da qualidade de vida da população, através da extensão universitária, muitas vezes sedimentada na teoria freireana, na qual “[...] os homens são seres do ‘que-fazer’ porque seu fazer é ação e reflexão. É praxis. É transformação do mundo” (Freire, 1980a, p.145). Como resposta à dicotomia teoria-prática, a extensão universitária (assim nomeada em função de sua capilaridade junto às comunidades) vem se fortalecendo através de seu envolvimento com diversos desafios, quer seja pela multiplicidade de atores envolvidos, pelos distintos segmentos sociais que demandam ações, quer seja pelas parcerias estabelecidas com os setores públicos e empresariais. Para o desenvolvimento das ações em tão complexo campo de atuação, enfrenta a necessidade de reconstruir a relação teoria-prática, buscando diálogo entre os diferentes saberes, que, segundo Freire, se traduz em um processo de caráter eminentemente pedagógico e, por isso mesmo, transformador.


Atualmente, a existência da extensão na universidade é substantiva, porque permite forjar novos laços sociais – que se constituem a partir do envolvimento dos professores, alunos e comunidade, e, nesta situação, novas teias de informação são construídas a partir desta realidade vivida, dando espaço ao que Freire sempre considerou a verdadeira ação pedagógica, ou seja, aquela que se materializa nas trocas entre diversos saberes: o científico, o prático e o de senso comum. Esta relação entre seres imbuídos de diferentes experiências e portadores de diferentes saberes, que se articulam e formam uma nova consciência, só é possível dentro da extensão universitária, cuja natureza permite e facilita a aproximação entre os sujeitos sociais. [...]


Apenas e tão-somente na extensão universitária é possível desenvolver metodologias participativas, criando espaços flexíveis e democráticos de desenvolvimento dos saberes, contando com a efetiva participação da comunidade, não como coadjuvante, mas sim como elemento central do processo de construção dos novos saberes Assim, a socialização e a democratização
da ciência em favor das necessidades da comunidade é uma exigência e ao mesmo tempo uma possibilidade criada pela extensão. Certamente, esta é apenas uma face da extensão universitária, a que consideramos mais adequada aos propósitos da transformação social. É nesta abordagem que entendemos a necessária indissociabilidade entre ensino, pesquisa e
extensão, ou seja, de forma associativa, estes saberes interagem gerando um novo produto, que é a síntese do processo articulador. [...]


Os projetos de extensão universitária desenvolvidos por professores e estudantes universitários, para serem caracterizados como um espaço de prática acadêmica – fundamental para a articulação entre o ensino, a pesquisa e a extensão –, devem atender a quesitos básicos, tais como: realizar parcerias com setores da comunidade interna e externa; gerar produções acadêmicas, publicadas especialmente nos veículos reconhecidos pela comunidade acadêmica, garantindo sua visibilidade; apresentar propostas inovadoras para os problemas das comunidades, gerando novas soluções para velhos problemas; estabelecer articulação entre teoria e prática, gerando novos saberes e sistematizando metodologias de ação, constituindo-se
em uma pedagogia problematizadora; apresentar relevância social e forjar um conhecimento novo, com vistas a formular respostas com e para a comunidade. Certamente, a extensão universitária, para ocupar seu lugar de destaque, deve oferecer ao conjunto das práticas universitárias já bem estruturadas, como é o caso da pesquisa e do ensino, a construção de uma política pedagógica do conhecimento, ou seja, deve fundar um campo de saber especializado que, articulado com os demais
campos, se fortalecerá no conjunto da experiência experiência pedagógica. Assim, poderá romper fronteiras e preconceitos estabelecidos, talvez pela falta de publicação de seus resultados e de uma melhor sistematização de suas ações.


O estabelecimento deste novo fazer pedagógico, apropriado pela prática extensionista e fundado na compreensão crítica do ato de ensinar-aprender, pode construir um conhecimento específico, a serviço da comunidade. A universidade, dessa forma, viabiliza o compromisso de colocar a ciência a serviço dos distintos segmentos sociais e, através disso, se compromete
com uma concepção de ciência como resultado de um efetivo processo de trocas entre a extensão, a pesquisa e o ensino.

FREIR E, Paulo. Conscientização. São Paulo: Cortez e Moraes, 1980a.
____________. Pedagogia da indignação. Cartas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.
____________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980b.
____________. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980c.
SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice - O social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1997.


Loriza Lacerda de Almeida (loriza@faac.unesp.br) é doutora em Sociologia e professora do Departamento
de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação; foi vice-diretora da Faac (2000-2004) e, desde 2005, é assessora da Pró-Reitoria de Extensão Universitária.

Este texto não reflete necessariamente
a opinião do Jornal Unesp.

A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/dicotomia_loriza.php


 
  ACI