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Extensão universitária
e superação da dicotomia teoria-prática
Loriza Lacerda de Almeida
A universidade contemporânea
é reconhecida por ser construtora de conhecimentos
e de ciência, porque desde o século
XIX, a universidade pretende ser o lugar por excelência
da produção de conhecimento científico.
Não admira, pois, que a sua reputação
seja tradicionalmente medida pela sua produtividade
no domínio da investigação,
que se tornou historicamente o fundamento e a razão
de ser da universidade (SANTOS, 1996, p. 199). Entretanto,
esta ideologia entra em colapso no pós-guerra
e nos anos 1960. Fortemente influenciada pelo movimento
estudantil, surge a reivindicação pelo
comprometimento
da universidade na resolução de problemas
econômicos e sociais. Assim, ela também
se sensibiliza com estas questões da sociedade,
da qual é parte integrante, e, desta forma, se
expande no cumprimento de tarefas pouco tratadas em
seu cotidiano.
Todavia, ao assumir os apelos pelo atendimento de demandas
sociais, explicitou a dicotomia teoria-prática,
porque se baseava na atenção a dois tipos
distintos de problemas: 1) os de exigência de
desenvolvimento tecnológico, usando a ciência
a favor das forças produtivas (vertente economicista);
e 2) exigências de cumprimento da responsabilidade
social da universidade perante os problemas do mundo
(vertente sociopolítica).
Na segunda perspectiva, a universidade inicia sua participação
em processos emancipadores da sociedade, propondo estratégias
possíveis de construção da cidadania
e de melhora da qualidade de vida da população,
através da extensão universitária,
muitas vezes sedimentada na teoria freireana, na qual
[...] os homens são seres do que-fazer
porque seu fazer é ação e reflexão.
É praxis. É transformação
do mundo (Freire, 1980a, p.145). Como resposta
à dicotomia teoria-prática, a extensão
universitária (assim nomeada em função
de sua capilaridade junto às comunidades) vem
se fortalecendo através de seu envolvimento com
diversos desafios, quer seja pela multiplicidade de
atores envolvidos, pelos distintos segmentos sociais
que demandam ações, quer seja pelas parcerias
estabelecidas com os setores públicos e empresariais.
Para o desenvolvimento das ações em tão
complexo campo de atuação, enfrenta a
necessidade de reconstruir a relação teoria-prática,
buscando diálogo entre os diferentes saberes,
que, segundo Freire, se traduz em um processo de caráter
eminentemente pedagógico e, por isso mesmo, transformador.
Atualmente, a existência da extensão na
universidade é substantiva, porque permite forjar
novos laços sociais que se constituem
a partir do envolvimento dos professores, alunos e comunidade,
e, nesta situação, novas teias de informação
são construídas a partir desta realidade
vivida, dando espaço ao que Freire sempre considerou
a verdadeira ação pedagógica, ou
seja, aquela que se materializa nas trocas entre diversos
saberes: o científico, o prático e o de
senso comum. Esta relação entre seres
imbuídos de diferentes experiências e portadores
de diferentes saberes, que se articulam e formam uma
nova consciência, só é possível
dentro da extensão universitária, cuja
natureza permite e facilita a aproximação
entre os sujeitos sociais. [...]
Apenas e tão-somente na extensão universitária
é possível desenvolver metodologias participativas,
criando espaços flexíveis e democráticos
de desenvolvimento dos saberes, contando com a efetiva
participação da comunidade, não
como coadjuvante, mas sim como elemento central do processo
de construção dos novos saberes Assim,
a socialização e a democratização
da ciência em favor das necessidades da comunidade
é uma exigência e ao mesmo tempo uma possibilidade
criada pela extensão. Certamente, esta é
apenas uma face da extensão universitária,
a que consideramos mais adequada aos propósitos
da transformação social. É nesta
abordagem que entendemos a necessária indissociabilidade
entre ensino, pesquisa e
extensão, ou seja, de forma associativa, estes
saberes interagem gerando um novo produto, que é
a síntese do processo articulador. [...]
Os projetos de extensão universitária
desenvolvidos por professores e estudantes universitários,
para serem caracterizados como um espaço de prática
acadêmica fundamental para a articulação
entre o ensino, a pesquisa e a extensão ,
devem atender a quesitos básicos, tais como:
realizar parcerias com setores da comunidade interna
e externa; gerar produções acadêmicas,
publicadas especialmente nos veículos reconhecidos
pela comunidade acadêmica, garantindo sua visibilidade;
apresentar propostas inovadoras para os problemas das
comunidades, gerando novas soluções para
velhos problemas; estabelecer articulação
entre teoria e prática, gerando novos saberes
e sistematizando metodologias de ação,
constituindo-se
em uma pedagogia problematizadora; apresentar relevância
social e forjar um conhecimento novo, com vistas a formular
respostas com e para a comunidade. Certamente, a extensão
universitária, para ocupar seu lugar de destaque,
deve oferecer ao conjunto das práticas universitárias
já bem estruturadas, como é o caso da
pesquisa e do ensino, a construção de
uma política pedagógica do conhecimento,
ou seja, deve fundar um campo de saber especializado
que, articulado com os demais
campos, se fortalecerá no conjunto da experiência
experiência pedagógica. Assim, poderá
romper fronteiras e preconceitos estabelecidos, talvez
pela falta de publicação de seus resultados
e de uma melhor sistematização de suas
ações.
O estabelecimento deste novo fazer pedagógico,
apropriado pela prática extensionista e fundado
na compreensão crítica do ato de ensinar-aprender,
pode construir um conhecimento específico, a
serviço da comunidade. A universidade, dessa
forma, viabiliza o compromisso de colocar a ciência
a serviço dos distintos segmentos sociais e,
através disso, se compromete
com uma concepção de ciência como
resultado de um efetivo processo de trocas entre a extensão,
a pesquisa e o ensino.
FREIR E, Paulo. Conscientização.
São Paulo: Cortez e Moraes, 1980a.
____________. Pedagogia da indignação.
Cartas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.
____________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1980b.
____________. Extensão ou comunicação?
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980c.
SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice
- O social e o político na pós-modernidade.
São Paulo: Cortez, 1997.
Loriza Lacerda de Almeida (loriza@faac.unesp.br)
é doutora em Sociologia e professora do Departamento
de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura,
Artes e Comunicação; foi vice-diretora
da Faac (2000-2004) e, desde 2005, é assessora
da Pró-Reitoria de Extensão Universitária.
Este texto não reflete necessariamente
a opinião do Jornal Unesp.
A íntegra deste artigo está no Debate
acadêmico do Portal Unesp, no endereço
http://www.unesp.br/aci/debate/dicotomia_loriza.php
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