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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
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Jornal UNESP :::

Agosto/2009– Ano XXII – nº 247   ::   Suplemento

 
:: REPORTAGEM DE CAPA ::

Tecnologia da Informação
Inovação para o agronegócio
Softwares, sites e vários dispositivos eletrônicos podem ajudar produtores rurais a ampliar os horizontes de suas atividades

A presença da tecnologia da informação não se limita a escritórios e fábricas. As inovações dessa área também ajudam o proprietário rural a melhorar sua produtividade, com menor impacto ambiental. Nesse setor fundamental para o País, a Unesp tem desenvolvido diversos projetos, como softwares e sites voltados para o controle de doenças em plantações, além
de sistemas de identifi cação de pragas e circuitos que automatizam a aplicação de agrotóxicos e o monitoramento de animais.

Uma das iniciativas mais consolidadas nessa área é a do agrônomo Modesto Barreto, docente da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), câmpus de Jaboticabal: o projeto Agroalerta, que envolve um sistema de prevenção e combate a doenças, principalmente das culturas de tomate, batata e amendoim. O sistema funciona com o auxílio de uma estação meteorológica móvel, cujas informações alimentam um software instalado no site www.agroalerta.com.br. Nesse endereço, também estão armazenadas características das três principais pragas do tomate para uso industrial provocadas por fungo: requeima, pinta-preta e septoriose. O cruzamento desses dados transforma-se em orientações sobre os períodos propícios às epidemias e à aplicação de defensivos.

“Antes desse trabalho, o agricultor usava defensivo agrícola sem saber se a doença estava ou não presente na plantação”, esclarece o professor, responsável pelo monitoramento de 1,2 mil hectares de tomateindustrial em propriedades nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Com a racionalização da aplicação, segundo Barreto, é possível reduzir em até 50% a quantidade aplicada de agrotóxicos, diminuindo-se também os riscos para o ambiente e para a saúde do profi ssional que lida com os produtos.

Software combate fungo – Professor da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), câmpus de Botucatu, o agrônomo Edson Luiz Furtado foi um dos orientadores (com o professor Nilton Luiz de Souza, já falecido) de uma tese de doutorado que resultou
em um software para a prevenção da chamada podridão floral de citros, doença causada por um fungo e também conhecida como “estrelinha”.


Durante a floração dos laranjais, que coincide com temperaturas mais baixas e alta umidade, pode ocorrer o surgimento da doença, que provoca lesões nas flores e impede o desenvolvimento do fruto. A autora do estudo, Natália Aparecida rodrigues Peres, atualmente pesquisadora da Universidade da Flórida (EUA), explica que o micro-organismo sobrevive entre as floradas abrigado na ponta da haste do fruto (na “estrelinha”) e nas folhas, voltando a se desenvolver na safra seguinte.

Este software está disponível, em língua portuguesa, no portal da Universidade da Flórida (http://pfd.fas.ufl .edu/). O internauta deve informar o estágio da florada e as condições climáticas, entre outros detalhes, e o sistema calcula a necessidade de pulverização. “Agricultores que testaram o software economizaram cerca de r$ 200,00 por hectare em fungicidas”, destaca Natália. O projeto foi fi nanciado pela Fapesp, em parceria com a Universidade da Flórida e a Citrovita, empresa do Grupo Votorantim.


Redes neurais – As bananeiras sofrem constantes quedas de produção com a doença sigatoka-negra, que provoca a queda precoce das folhas, reduzindo a quantidade e a qualidade dos frutos. Os professores Wilson da Silva Moraes e Silvia Helena Modenese Gorla da Silva, docentes do câmpus de registro, uniram esforços para controlar essa praga. Para defi nir o momento correto da aplicação de fungicidas, Moraes aplicou um método de observação semanal da severidade da doença, com o exame da infestação nas folhas mais novas, em até 50 hectares da plantação.

Silvia fotografou o desenvolvimento das lesões nas
folhas. As imagens foram processadas digitalmente por meio de redes neurais artifi ciais, que trabalham as informações de forma semelhante ao cérebro humano e, por isso, são capazes de reconhecer e diferenciar as lesões de sigatoka-negra das de outras doenças. Esse trabalho resultou de seu doutorado, orientado pelo docente Carlos roberto Padovani, do instituto
de Biociências (iB) de Botucatu. “Desenvolvemos um sistema que poderá fazer automaticamente e de forma precisa o controle da enfermidade”, destaca Silvia. “Agora, buscamos parceiros para transformá-lo em um dispositivo eletrônico para ser colocado em uso.”


Avaliação de agrotóxicos – Mesmo observando as normas de aplicação, os defensivos podem atingir cursos de água superfi ciais ou subterrâneos, provocando danos ambientais. Em razão disso, há normas para o registro de novos agrotóxicos e renovação de licenças já concedidas, a cargo dos Ministérios da Saúde (Anvisa), do Meio Ambiente (ibama) e da Agricultura (Coordenadoria de Agrotóxico). Para auxiliar a avaliação do risco ambiental de defensivos a serem lançados no mercado, foi desenvolvido um software para verifi car a concentração do principal componente químico dos produtos.

A proposta envolveu os docentes Adriano Wagner Ballarin, à época diretor do Serviço Técnico de informática da FCA, em Botucatu; Roberto Antonio Colenci, da Faculdade de Tecnologia (Fatec), vinculada ao Centro Paula Souza; e Cláudio Spadotto, da Embrapa Meio Ambiente, de Jaguariúna (SP), e professor do programa de pós-graduação da FCA. ParaSpadotto, essa ferramenta torna mais ágil o processo de registro, “mas, se a fórmula proposta não for ambientalmente segura, ela não será licenciada”.

Chip contra ervas daninhas – Em São José do Rio Preto, os docentes Norian Marranghello e Aledir Silveira Pereira, ambos do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (ibilce), estão desenvolvendo um circuito integrado digital, ou chip, para combater ervas daninhas em plantações de soja. O chip será programado com as imagens das bordas das folhas da soja.

Essa inovação, segundo Marranghello, será acoplada a um veículo agrícola, em cuja parte dianteira serão instaladas três câmeras e, na traseira, um outro circuito para borrifar defensivos nas plantas indesejáveis. As câmeras fi lmarão as plantações, enviando as imagens ao chip, que, ao detectar alguma imagem diferente, enviará mensagem ao circuito que aciona o sistema borrifador. Ainda em desenvolvimento, esta pesquisa integra o Programa Brazil-IP, do Ministério da Ciência e Tecnologia.


Pecuária – Na pecuária, a administração de rebanhos ovinos e caprinos também pode contar com ferramentas computacionais produzidas na Unesp. Uma delas é o Programa de Controle Produtivo e reprodutivo de Caprinos (Procapri). Desenvolvido pelo zootecnista Kleber Tomas de resende, docente da FCAV, o software é utilizado por cerca de 300 produtores de caprinos de Minas Gerais, São Paulo e rio de Janeiro, além de um na Austrália e cinco na América Latina.

O aplicativo possibilita ao criador fazer o registro zootécnico dos animais, no endereço www3.fcav. unesp.br/procapri. O banco de dados que o acompanha é alimentado com informações de cada indivíduo – nascimento, doenças, cobertura, prenhez –, que permitem identificar animais com melhor rendimento e promover o melhoramento genético do rebanho. O banco de dados fi ca hospedado na FCAV e reúnereúne informações fornecidas pelos produtores. “Cada criador só tem acesso aos próprios dados”, assegura Resende. recentemente, uma dissertação do zootecnista Bruno Biagioli, orientada pelo docente, atualizou a linguagem de programação do sistema.

Já o Sistema de Gerenciamento de Ovinos (Sigo) é uma iniciativa do engenheiro agrônomo Cecílio Viega Soares Filho, professor do curso de Medicina Veterinária, da Faculdade de Odontologia (FO), câmpus de Araçatuba (www.foa.unesp.br/ovinos). Projetado em parceria com a analista de sistemas Katia Midori Yabuke Maeoka, também da FO, o aplicativo possibilita registros individuais dos animais, permitindo ao ovinocultor controlar características como sanidade,
produtividade e peso. “O controle do rebanho favorece a tomada de decisão”, destaca o docente. Desde seu lançamento em
2005, o Sigo já cadastrou 3.650 usuários de países da América do Sul, México, Estados Unidos e Portugal.

Avicultura – Está em fase de teste em granjas comerciais um software que visa estimar a condição de bem-estar de matrizes de frango de corte a partir do monitoramento, por imagem, do comportamentodas aves. Elaborado no câmpus de Tupã por alunos do curso de Administração, sob a orientação do engenheiro agrícola Danilo Pereira, o trabalho já recebeu dois prêmios em congressos de iniciação Científica.

Segundo Pereira, o aplicativo é baseado em lógica fuzzy, que possibilita transformar linguagens subjetivas em expressões matemáticas. A ferramenta fará a avaliação, em tempo real, da situação das aves a partir de variáveis ambientais – por exemplo, temperatura e concentração de amônia –, e comportamentais, como ciscar e limpar as penas, consideradas importantes nas análises estatísticas de experimentos em câmaras climáticas. “Esses dados alimentam o sistema fuzzy,
que estima o nível de bem-estar das aves.” Experiências como as apresentadas nesta reportagem estimulam João Perea Martins, docente da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru a destacar a importância de levar os avanços de tecnologia da informação para o setor rural. (Veja quadro.) “Existe uma grande carência de conhecimento tecnológico por parte do pessoal da área agrícola”, comenta. “E esse conhecimento pode ser aplicado na melhoria de sua condição de trabalho e qualidade de vida.”

GENIRA CHAGAS

(Colaborou Julio Zanella)

Atividade de extensão desmistifica GPS

O especialista em Ciência da Computação João Perea Martins, docente da Faculdade de
Ciências (FC), câmpus de Bauru, avalia que o pequeno agricultor tem muita difi culdade em
assimilar as novas tecnologias. Buscando levar a pequenos produtores as ferramentas da informática para o setor, há um ano Perea realiza o projeto de extensão Tecnologia no Campo.

Ele coordenou o desenvolvimento de um software de apoio ao ensino de GPS (Sistema de
Posicionamento Global), com o qual faz apresentações, em escolas agrícolas da região, sobre o uso do instrumento para gerenciar os recursos naturais, tais como localizar na lavoura áreas de menor produtividade. Apoiado pela Pró-Reitoria de Extensão Universitária (Proex), o Projeto mantém o site (www2.fc.unesp.br/~perea/gps.php), onde o agricultor pode adquirir cópias gratuitas do software. Desde 2008, o aplicativo já foi copiado
cerca de 800 vezes por usuários do Brasil e de sete outros países.

 

G.C.

 

 
  ACI