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Julho/2009– Ano XXII – nº 246   ::   Suplemento

 
:: RESENHAS ::

História
A França desembarca no Brasil
Ensaios apresentam as experiências e a influência de imigrantes no País, entre os séculos XIX e XX

Como parte das comemorações do Ano da França no Brasil, foi lançado no início de junho o livro Franceses no Brasil: séculos XIX-XX. O lançamento, promovido durante o “Simpósio franco-brasileiro: a imigração francesa para o Brasil em perspectiva Atlântica”, que aconteceu nos dias 3 e 4 do mês passado na Livraria Unesp, objetiva incentivar pesquisas que propiciem um melhor conhecimento dessa questão.

O livro estuda projetos, desejos, vida cotidiana e modalidades de integração, assim como os insucessos, retornos e decepções desses imigrantes. Os organizadores, os historiadores Tânia Regina de Luca, da Unesp de Assis, e Laurent Vidal, da Universidade de La Rochelle, estimulam o aprofundamento de reflexões sobre um tema pouco abordado, já que a presença maciça de outras etnias levou a uma certa “invisibilidade” dos franceses.

Os artigos focalizam, por exemplo, a emigração pelo porto de Bordeaux. Há, também, um ensaio de Mônica Leite Lessa e Hugo Rogelio Suppo, ambos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, sobre o período entre 1875 e 1908, quando a França proibiu a emigração para o Brasil, sob a alegação de que a situação dos imigrantes europeus nos trópicos era péssima.

Em contrapartida, por ser considerado a terra da utopia, o Brasil foi escolhido como refúgio para grupos diversos, como bonapartistas, socialistas e judeus franceses. Estes últimos têm parte de sua história contada por Fania Fridman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Uma reavaliação da imigração para centros urbanos evidencia que as atividades dos franceses não se restringiam às de modistas, professores ou cozinheiros. Os imigrantes em São Paulo são motivo de ensaios instigantes, um de Heloisa Barbuy, curadora do Museu Paulista da USP, e outro de Vanessa dos Santos Bodstein Vivar, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e Eni de Mesquita Samara, do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina.

Há ainda a discussão de experiências agrícolas em províncias como Pará e Minas Gerais e textos que analisam percursos como o de Hercule Florence (1804-1879), inventor, desenhista, polígrafo e pioneiro da fotografia.

A reunião de artigos traz uma importante reflexão sobre os imigrantes franceses no Brasil e busca incentivar novas pesquisas, inclusive sobre a visão que os escritores brasileiros têm da França, bem diversa, como apontam, por exemplo, o poeta romântico Castro Alves (“O francês – predestinado – / Canta os louros do passado / E os loureiros do porvir...”) e o sempre irônico Luis Fernando Veríssimo (“Nenhum povo que cozinha tão bem pode ser totalmente mau”).

Franceses legaram visão mercadológica do livro

Uma das heranças deixadas pelos imigrantes franceses pode ser percebida na evolução do mercado editorial brasileiro. Em sua palestra no simpósio “A imigração francesa no Brasil”, promovido pela Editora Unesp, a historiadora Marisa Deaecto, da USP, ressaltou que a primeira livraria do Rio de Janeiro foi criada, no final do século XVIII, por um descendente de franceses, Paulo Martins. Mas coube ao tipógrafo e livreiro Pierre Plancher, em 1824, montar o primeiro jornal de grande porte impresso no País, O spectador brasileiro, que depois de tornou o Jornal do Comércio.

Marisa destacou a importância de dois grandes livreiros franceses, que por questões políticas acabaram se instalando no Brasil. No Rio de Janeiro, ficou Baptiste Louis Garnier, que trouxe em sua bagagem exemplares de publicações porno-eróticas, e promoveu a profissionalização dos escritores no País, estabelecendo vínculos contratuais com autores como Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar, Olavo Bilac e Machado de Assis.

Em São Paulo, estabeleceu-se o seu ex-empregado Anatole Louis Garraux. Em 1865, ele instalou no largo da Sé sua livraria, a Casa Garraux, que, em 1876, já era um dos estabelecimentos comerciais mais luxuosos da cidade. “Eles foram os pioneiros na visão mercadológica, com a preocupação de massificar a venda de livros por meio de catálogos e até em tornar os lançamentos um acontecimento social”, relatou Marisa.

Autores – O editor-executivo da Editora Unesp, Jézio Gutierre, enfatizou a posição privilegiada de intelectuais da França na produção de obras relevantes no panorama cultural brasileiro. “Os autores franceses são constantes da vida acadêmica nacional e, por extensão, ocupam lugar de destaque nos catálogos de editoras preocupadas com a preservação da dinâmica intelectual e com o livre debate universal de ideias”, afirmou.

Julio Zanella

 

Franceses no Brasil: séculos XIX-XX – Laurent Vidal e Tania Regina de Luca (organizadores); 486 páginas; R$ 54,00. Informações: www.editoraunesp.com.br ou telefone (11) 3242-7171

Oscar D'Ambrosio

 

 
  ACI