UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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Junho/2009– Ano XXII – nº 245   ::   Suplemento

 
:: OPINIÃO ::

Uso de animais em experimentos científicos
Aureluce Demonte

Impossível negar a importância da experimentação animal para o desenvolvimento da Biologia. Desde os primeiros testemunhos históricos, que remontam a mais de 2 mil anos, com o relato de Hipócrates (450 a.C.) relacionando órgãos humanos doentes com os de animais para fins didáticos, até a atual e vasta utilização, entre outros exemplos, no controle de vacinas, nas pesquisas sobre células-tronco no campo da cardiologia, da neurologia e de moléstias pulmonares e renais, além das pesquisas atuais da neurociência que envolvem a comunicação entre o cérebro de primatas e próteses robóticas, a experimentação animal tem contribuído significativamente para a melhoria da qualidade de vida.

Animais são utilizados na experimentação científica por constituírem modelos, que poderíamos considerar como mapas de territórios não explorados que servem de base para encontrar o caminho de um destino. [...] Em especial, citamos o exemplo do Prêmio Nobel de Medicina de 2007, que contemplou três pesquisadores, Oliver Smith, Martin Evans e Mario Capechi, que há aproximadamente 20 anos iniciaram trabalhos pioneiros com deleção de genes específicos em camundongos, conhecidos como animais knock-out. Desde então mais de 300 tipos diferentes de camundongos knock-out foram gerados com o objetivo de se estudar a participação de genes específicos na gênese de várias patologias, tais como hipertensão, diabetes, doenças neurodegenerativas, dentre outras. [...]

No contexto atual, os animais transgênicos (ou geneticamente modificados) são poderosas ferramentas para as descobertas científicas, com benefícios diretos na agricultura, medicina e indústria. Animal transgênico é aquele com moléculas de DNA recombinante exógeno introduzidas em seu genoma por intervenção humana. [...] Os benefícios diretos e biotecnológicos do uso dos animais transgênicos têm repercussão na agricultura, medicina e indústria. Na agricultura, a transgenia permite a criação de animais de grande porte com características comercialmente interessantes, cuja produção por técnicas clássicas de cruzamentos e seleção são extremamente demoradas. [...]

As aplicações médicas são várias e incluem o polêmico xenotransplante, ou seja, o transplante de órgãos animais para os seres humanos. Sabemos que a demanda por órgãos não é atendida por doadores. Sendo assim, os xenotransplantes poderiam ser uma resolução na questão da disponibilidade de órgãos. A transgenia vem sendo utilizada para a criação de porcos imunocompatíveis com o ser humano. No entanto, vale lembrar que é grande a discussão sobre uma questão séria de biossegurança nessas técnicas, que podem criar o risco de transmissão de patógenos suínos para o ser humano. Além disso, a transgenia em animais de grande porte vem sendo utilizada para a produção de fármacos. Produtos como insulina, hormônio de crescimento e fator de coagulação podem ser obtidos do leite de vacas, cabras ou ovelhas transgênicas. A aplicação da transgenia na indústria visa à criação de biorreatores, animais transgênicos de grande porte produzindo uma proteína de interesse comercial em algum tecido de fácil purificação. Um exemplo é a cabra transgênica, que produz em seu leite uma proteína de teia de aranha. [...]

A evolução da ciência e os constantes questionamentos sobre o uso de animais em experimentação científica alteraram as relações entre o ser humano e os animais, transformando o bem-estar animal em uma importante área de estudo. A ciência de animais de laboratório considera o bem-estar animal como um dos principais fatores que podem influenciar o resultado de um experimento e valoriza o uso ético de animais retomando o princípio dos três Rs desenvolvido por Russell e Burch: refinamento, redução e substituição (do inglês replacement), no qual, embora a utilização seja permitida, deve ser reduzida ao mínimo e substituída sempre que possível por outras técnicas. [...] Hoje, a maior parte das experiências envolvem camundongos, ratos e cobaias, muito mais fáceis de manusear e baratos de manter, enquanto diminui o uso de cachorros e gatos. Cresce ainda a utilização do zebrafish, um peixinho de aquário conhecido como paulistinha, que se reproduz rapidamente e tem muitos genes semelhantes aos de seres humanos. A utilização de primatas, que sempre foi controversa, segue polêmica e difícil, ainda que os macacos sejam considerados indispensáveis em pesquisas como a de vacinas contra a Aids, pela semelhança com o organismo humano, além das pesquisas atuais da neurociência.

Para mensurar o bem-estar do animal envolvido na pesquisa é fundamental que o pesquisador entenda o universo artificial onde este está contido e compreenda aspectos da anatomia, fisiologia e manejo da espécie em questão, além de dedicar um espaço suficiente para a realização de movimentos corporais normais e livre acesso à água e alimento. [...] Ambientes mais estáveis, livres de odores indesejáveis, limpos, com luminosidade e temperatura ideais e isentos de microrganismos patogênicos são cientificamente mais aceitos e favorecem o bem-estar do animal. [...]

Apesar da comprovada importância dos modelos animais para a pesquisa científica, de tempos em tempos a comunidade científica é cobrada pela sociedade quanto ao uso de animais em experimentação. Historicamente, os questionamentos éticos apresentados pelo inglês Jeremy Bentham (1748-1832) acerca do sofrimento imposto aos animais podem ter dado início às primeiras ações com relação à proteção aos animais no século XIX. Uma justificativa veemente apresentada por Claude Bernard, em 1865, se apresenta em seu livro Uma introdução do estudo da medicina experimental: “... Seria estranho se reconhecêssemos o direito de usar animais para serviços caseiros, para comida, e proibíssemos o seu uso para a instrução em uma das ciências mais úteis para a humanidade [...]”. No entanto, a polarização entre os experimentalistas e aqueles que se contrapõem à sua utilização perdura. [...] Dentre as várias e profundas transformações sociais observadas durante o século passado destaca-se o surgimento, como movimento social organizado, do ativismo pró-bem-estar dos animais não humanos. E ele é importante no sentido de resgatar a discussão em torno de comportamentos e atitudes que aperfeiçoam conceitos significativos na questão, incluindo a ética. Diante dela se estabelecem múltiplas e diversas facetas, que devem ter como consequência o trato, consideração e respeito ao animal.

Como parte do equacionamento dessas questões foram criados os Comitês de Ética de Pesquisa em Animal em muitas Universidades Brasileiras e Centros de Pesquisa, a partir da Resolução 196/96 do CNS/MS. Eles têm trabalhado no sentido de aperfeiçoar os procedimentos do pesquisador na intervenção com os animais. Análise, avaliação e construção contínua de padrões e condutas legitimam a atividade dos pesquisadores que utilizam animais de laboratório.

Aureluce Demonte é docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp e coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa da Unidade.

A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/animais_demonte.php

Este texto não reflete necessariamente
a opinião do Jornal Unesp.


 
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