UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
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Jornal UNESP :::

Abril/2009– Ano XXII – nº 243   ::   Suplemento

 
:: REPORTAGEM DE CAPA ::

Segurança Pública
Contra a violência, informação
Especialistas desenvolvem instrumentos como softwares e bancos de dados que ajudam os órgãos policiais a combater os delitos, além de realizar estudos e elaborar indicadores sociais que podem orientar adoção de medidas de prevenção dessa ameaça

Além de um aparato policial bem armado, treinado e com boa infra-esturutura, a luta contra o avanço da criminalidade exige informação. Pesquisadores de vários câmpus buscam melhorar a qualidade e aumentar o volume de dados disponíveis na batalha contra a delinqüência. Eles desenvolvem softwares e bancos de dados que auxiliam o setor de segurança pública em suas ações, além de indicadores sociais que podem colaborar na formulação de medidas que diminuam o risco de expansão dos delitos. Muitos estudos também mostram como a omissão da sociedade e de muitos profissionais interfere nas estatísticas e prejudica a análise e o enfrentamento da violência.

"A falta de dados fidedignos impede o entendimento de muitos crimes, compromete o desenvolvimento de pesquisas pela academia e o planejamento de ações dos órgãos de repressão", argumenta Sueli Andruccioli Felix, coordenadora do Grupo Urbano de Trabalho Organizado (Guto) e docente da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), câmpus de Marília.

Estatísticas - Em Rio Claro, um software criado pelo Grupo de Estudo e Análise dos Fenômenos Urbanos da Violência possibilita o registro pelas delegacias, em tempo real, dos homicídios ocorridos na cidade. "Ele permite o cruzamento dos dados de diferentes fontes e perfis das vítimas, dos agressores, o horário e o local das ocorrências, o que evita a discrepância das informações entre polícia, IML e cartórios", afirma o estatístico José Silvio Govone, integrante do grupo e docente do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE).

Em Marília, pesquisadores do Guto implantaram um sistema que atualiza e organiza qualquer tipo de ocorrência, com histórico, dados sobre as armas e veículos envolvidos, além do perfil dos criminosos e das vítimas. As informações enviadas pelas delegacias, interligadas em rede, formam um banco de dados utilizado pela polícia. "É uma ferramenta que auxilia a elaboração de mapas criminais, a prevenção, as estratégias de investigação e identificação dos criminosos", aponta Sueli.

Estatísticas, estudos, relatórios de governo e notícias sobre ações criminosas podem ser encontrados no portal Observatório de Segurança Pública (www.observatoriodeseguranca.org). "O objetivo é facilitar o acesso às informações e reflexões sobre a violência e segurança pública no Estado de São Paulo para pesquisadores e interessados", diz Luiz Antonio Francisco de Souza, docente da FFC e integrante do Grupo de Estudos de Segurança Pública (Gesp), câmpus de Marília.


Prevenção - Integrantes do Guto também acreditam que, por meio da análise das condições sociais das famílias, é possível identificar o risco do crescimento da violência em uma determinada área. Eles desenvolveram o Índice de Vulnerabilidade Familiar (IVF), que avalia itens como educação, emprego, habitação, saúde, recursos financeiros, além do risco familiar em conseqüência de fatores como ausência de cônjuge e presença de adolescente grávida, por exemplo.

Aplicado em 2,7 mil famílias de Araraquara, Marília e Assis, o IVF geral obtido nessas cidades foi considerado baixo, de 0,14 a 0,16. Ou seja, é pequeno o risco de ocorrência de situações de violência nesses locais. No entanto, em algumas regiões o resultado apontou números três vezes maiores nos indicadores emprego e educação.

"Diferentemente de outros dados que levam a ações de repressão pela polícia, a partir da identificação das áreas mais vulneráveis, os gestores públicos podem atuar nos aspectos com os piores desempenhos e contribuir na prevenção daquela violência que surge como fator social", observa Fernando Frei, estatístico e docente da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Assis. A equipe já enviou o levantamento do IVF para as prefeituras, com o objetivo de que seus dados se transformem em ações concretas no planejamento urbano.


Poucas denúncias - Em um levantamento com 1.200 pessoas de Marília, organizado pelo Guto em 2008, 40% dos entrevistados declararam ter vivenciado situações de agressão, mas 70% deles não denunciaram os crimes. Em relação aos maus-tratos e abusos sexuais, quase metade dos casos não foi registrada nas delegacias. "O descrédito na atuação policial e na Justiça, além do medo de retaliação, foram as justificativas mais citadas", afirma Sueli. "Cerca de 30% das pessoas não denunciaram por achar o ocorrido pouco importante, o que remete ao sentimento de banalização da violência."

A violência sexual é um dos crimes que mais aparecem nas estatísticas, mas, ao mesmo tempo, está entre os mais subnotificados. Ao analisar as denúncias em uma Delegacia da Família de Marília, entre 2004 e 2005, pesquisadores do Guto descobriram que 30% delas foram de abuso sexual dentro das residências das vítimas, sendo que mais da metade dos suspeitos eram pessoas próximas. "Os números podem ser ainda maiores pois, quando a agressão ocorre no próprio lar, as vítimas são coagidas a não denunciar", observa Ana Elisa Messias, autora da pesquisa.

Para a docente e psicóloga Renata Libório, da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), câmpus de Presidente Prudente, a violência sexual pode trazer conseqüências graves, como lesões genitais, gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis e disfunções sexuais. "Além disso, esse tipo de agressão pode levar à depressão, ao suicídio, ao descontrole de peso e à agressividade", acrescenta a coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação, Desenvolvimento Humano em Situação de Risco e Indicadores de Proteção.


Omissão profissional - A violência doméstica poderia ser melhor combatida se profissionais como médicos, dentistas e professores denunciassem os casos às autoridades. Em sua pesquisa, a docente Sandra Aguiar, da Faculdade de Odontologia, câmpus de Araçatuba, descobriu que, embora 60% dos 100 profissionais entrevistados saibam identificar os sinais de agressão física em seus pacientes, 85% deles não tomam qualquer atitude. "Além do despreparo para abordar as vítimas e denunciar os casos à polícia, há também omissão", aponta a dentista.

Após ouvir 44 médicos das Unidades Básicas de Saúde e da Saúde da Família, em Botucatu, a socióloga Margareth Aparecida Santini de Almeida, docente da Faculdade de Medicina (FM), também verificou que eles não sabem como lidar com esses casos. "Quando as vítimas buscam atendimento, nem sempre são aconselhadas e orientadas por esses profissionais", ressalta Margareth. Entre as razões, ela aponta a falta de sensibilidade diante de situações de violência, a ausência de treinamento e o desejo de não intervir na vida das pacientes.

O mesmo despreparo foi confirmado no mestrado da assistente social Silvia Costa, desenvolvido na FCT, que avaliou as iniciativas dos educadores para identificar e denunciar casos de crianças submetidas a agressões físicas e psicológicas. Ela investigou o motivo do pequeno número de queixas registradas em escolas com crianças até doze anos, idade mais freqüente nas estatísticas sobre violência infantil. "Apesar de conhecerem as formas de acolher as vítimas, os educadores alegam que a questão deve ser abordada pelos familiares", comenta Silvia, que entrevistou professores, coordenadores pedagógicos e diretores de duas escolas do ensino fundamental de Campo Grande (MS). (Veja quadro.)


Banalização - Na cidade de São Paulo, o geógrafo André Luis André constatou que a população da periferia demonstra maior aceitação dos crimes cometidos por moradores de sua região quando eles ocorrem em outras áreas da capital. "A população tem uma visão limitada da cidade", argumenta o geógrafo, assinalando que essa percepção, associada à tolerância com as ações delituosas, facilita a propagação da criminalidade.

Nos depoimentos colhidos para seus trabalhos de mestrado e doutorado, orientados pela professora Eda Góes, da FCT, ele verificou como houve uma banalização dos homicídios. "Hoje, mata-se por motivo fútil em festas, brigas de vizinhos e entre familiares."

André também confirmou a visão positiva que os mais jovens costumam ter dos criminosos. "Destaco um diálogo com duas crianças de 10 e 11 anos, em que uma delas desejava ser bandido quando crescesse porque esse indivíduo não precisa estudar, tem carro e anda com meninas bonitas", conta. "Quando argumentei que ele poderia ser preso, a outra criança disse que o pai comentou que a prisão não era tão ruim assim."

Atenta a esses problemas, Sueli Felix argumenta que as iniciativas da Universidade apenas podem obter sucesso por meio da participação da sociedade. "Em nossos eventos e grupos de pesquisa temos a preocupação de integrar polícias civis, militares e líderes comunitários", afirma Sueli. "O melhor caminho no combate à violência é envolver a população."

As dificuldades na rede escolar
Um levantamento feito pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo aponta que 86% das 683 escolas pesquisadas em 2008 registraram algum tipo de violência, como depredações, furtos, maus-tratos, brigas e tráfico de drogas.

Para alguns pesquisadores da Unesp, a solução da violência escolar passa, principalmente, pela atuação de pais, professores e gestores. Por meio de dinâmicas de grupos com cerca de 400 alunos de 5.ª a 8.ª séries de duas escolas da periferia da cidade, as docentes Leila Maria Ferreira Salles e Joyce Mary Adam de Paula e Silva do Instituto de Biociências, em Rio Claro, identificaram as dificuldades dos educadores diante de casos de indisciplina, agressões e preconceitos no meio escolar

Uma das razões apontadas por Joyce é o despreparo dos professores para lidar com situações complexas, fruto da falta do comprometimento com o projeto pedagógico da instituição onde lecionam. "Para compensar os baixos salários, eles trabalham em duas ou três escolas", justifica a docente. Ela também não vê ações claras das Delegacias de Ensino e da Secretaria da Educação para combater e prevenir a violência na área de ensino.

Um tipo de violência escolar que também tem preocupado pais e professores é o bullying. Caracterizado pela perseguição e intimidação promovida pelos próprios alunos contra seus colegas, essa modalidade de agressão psicológica pode levar à evasão escolar, a problemas mentais e até ao suicídio. Dos 283 alunos de 5.ª a 8.ª séries do ensino fundamental de duas escolas de Presidente Prudente, 14% já foram vítimas dessa prática, segundo um estudo do professor de Educação Física Marcos Francisco, orientado pela docente Renata Libório. "Consideramos um índice altíssimo, visto que a escola deveria zelar por uma ambiente de aprendizagem", alerta o docente.

Julio Zanella

 
  ACI