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Literatura
Um escritor no centro das atenções
Especialistas de vários países
discutem em São Paulo a importância do
maior autor brasileiro
A obra de Machado de
Assis, pela erudição e amplitude das influências
que demonstra, inovações formais dos textos,
visão crítica e caráter universal
dos temas que aborda, coloca o autor brasileiro entre
os grandes nomes da literatura universal. A discussão
do trabalho do escritor brasileiro reuniu especialistas
de vários países, durante o Simpósio
Internacional Caminhos Cruzados: Machado de Assis
pela Crítica Mundial. O evento, realizado
pela Unesp e a Fundação Editora da Unesp
(FEU), com apoio do Ministério da Cultura (Minc),
aconteceu no auditório do Masp, em São
Paulo, entre 25 e 29 de agosto.
Integrado às comemorações pelo
centenário da morte do escritor, o simpósio
buscou dar visibilidade a novas abordagens sobre Machado.
A organização desse evento teve
seu início há mais de dois anos, com a
preocupação sobre qual contribuição
a Universidade poderia oferecer para o avanço
do conhecimento sobre o maior escritor brasileiro,
disse o reitor Marcos Macari. O reitor participou da
mesa de abertura com Jeferson Assunção,
coordenador-geral do Livro e da Leitura do Minc, José
Castilho Marques Neto e Jézio Hernani Bomfim
Gutierre, diretor-presidente e editor-executivo da FEU,
respectivamente.
Universal Na conferência de abertura,
o professor Roberto Schwarz, da Unicamp, analisou a
crônica O punhal de Martinha, na qual Machado
compara a arma de Martinha, acusada de matar um homem
na cidade baiana de Cachoeira, e a usada no suicídio
de Lucrécia, na narrativa do romano Tito Lívio.
Apresentando diversas citações, como a
história do assassino francês François
Ravaillac (1578-1610), Schwarz assinala que a crônica
critica as aspirações progressistas da
ex-colônia e também a condição
humana de considerar o que foi imaginado mais belo que
o real. Dessa forma, o cronista universaliza uma
história local, sentenciou.
A presença da Divina comédia, de Dante
Alighieri, cujo Sexto Canto foi traduzido por Machado,
é perceptível nos textos do brasileiro,
segundo Amina di Munno, da Universidade de Gênova,
na Itália. De acordo com a professora, a influência
italiana na obra machadiana se evidencia no uso de aforismos,
paradoxos, redundâncias, estranhamentos, ironia
e até sarcasmo características
presentes, por exemplo, nas crônicas de Giacomo
Leopardi e nos contos de Giovanni Boccaccio.
Entretanto, as influências literárias
nem sempre são evidentes, e podem nem ser conscientes,
como explicou Elide Valarini Oliver, da Universidade
da Califórnia (EUA). Temos também
uma biblioteca imaginária, restos
de livros, poemas, trechos memorizados ou não,
palavras, cenas, enfim, tudo o que guardamos bem ou
mal em nossa memória consciente e inconsciente.
No caso de Machado, ou de qualquer escritor ou poeta
dignos desse título, sabemos que essa biblioteca
imaginária é imensa, tão incomensurável
como a biblioteca de Babel, diz.
O que se destaca no autor de Helena é a capacidade
de dar significados irônicos ou satíricos
às citações. Elide apontou uma
fala de Hamlet, de William Shakespeare, citada textualmente
pelo narrador-protagonista em Memórias Póstumas
de Brás Cubas.
Para o professor Todd Garth, da Academia Naval dos
Estados Unidos, é em Shakespeare e Miguel de
Cervantes que Machado encontra formas para criticar
a prosa realista de Eça de Queirós e a
ética do filósofo Arthur Schopenhauer.
O Realismo intensificava a confusão da
realidade com a fantasia. Schopenhauer e seus antecessores
nos ajudam a ver tudo isto, mas o mesmo filósofo
sofre pela dependência da fé no gênio
artístico e na mimese, argumentou.
Ao não optar pela narrativa dos romances realistas
clássicos, Machado pôde abordar temas como
a loucura e criticar a crença nas ciências,
segundo o escritor Milton Hatoum. Ele antecipou
tendências, desmascarou as contradições
da belle époque e, com ironias finas e sutis,
fez duras críticas à autocracia brasileira,
salientou.
A forma shandyana Os estudos apresentados
durante o simpósio concentraram-se, em sua maioria,
na fase de maturidade do escritor, iniciada em 1881,
com a publicação de Memórias póstumas.
Nesse livro, ele emprega a forma narrativa próxima
ao estilo do britânico Laurence Sterne.
Para o embaixador Sérgio Paulo Rouanet, a forma
shandyana (por ter sido usada no romance A vida e as
opiniões do cavalheiro Tristram Shandy) apresenta
elementos que aproximam o brasileiro de outros autores
europeus, como a ênfase da subjetividade e a ausência
de ordem cronológica.
Outro recurso é a mistura do riso e da melancolia,
que expressam um momento difícil vivido por um
autor. No caso de Machado, quando escreveu Memórias
póstumas de Brás Cubas, ele estava vivendo
a crise dos 40 anos, a possibilidade de ficar cego e
o agravamento de sua epilepsia, explica Rouanet.
No entanto, para o embaixador, a relação
entre Machado e Sterne ocorre mais pela forma do que
pelo conteúdo propriamente dito.
O grande mérito da prosa machadiana, assim
como das de Sterne e do japonês Natsume Soseki,
está em criar situações ambíguas,
em que o leitor é levado a cometer enganos levado
pela sutileza e ironia da narrativa, assinalou
Dain Borges, professor da Universidade de Chicago (EUA).
Segundo Borges, os três se voltam para problemáticas
ideológicas cosmopolitas.
Professor na Universidade de Lisboa, Abel Barros Baptista
afirmou que Machado supera o mestre Sterne,
ao questionar a crença no cientificismo e no
progresso da humanidade, com uma visão irônica
e até cômica. Para o docente, a forma livre
adotada em Memórias póstumas e radicalizada
em Dom Casmurro é o que permite esse questionamento.
No primeiro romance, Brás Cubas dialoga com o
leitor e assume a responsabilidade pela não linearidade
da história. No segundo, Bentinho constrói
os capítulos como se fossem provisórios.
Em sua apresentação, Victor Mendes, da
Universidade de Massachusetts Dartmouth (EUA), enfatizou
que o narrador e o leitor criados por Machado são
personagens usados pelo brasileiro para manipular as
histórias, como ocorre também em Sterne
e Almeida Garret.
Os diferentes narradores dos textos machadianos assumem
atitudes controversas, ou adotam discursos diferentes
para abranger a fragmentada vida social do Rio de Janeiro
do final do século XIX, de acordo com o diplomata
chileno Jorge Edwards. Os narradores funcionam
como os heterônimos de Fernando Pessoa,
disse. Os dois escritores têm a capacidade
de assumir posições externas a si.
A dialética do tempo Para o professor
Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, o fundador
da Academia Brasileira de Letras (ABL) trabalhava na
prosa a dialética entre o tempo secular e uma
perspectiva universalista, perspectiva essa que
vê nas personagens no Rio de Janeiro durante o
Império apenas os casos nacionais da época
de uma humanidade milenar, que enfrenta os mistérios
seculares da existência.
O também norte-americano Paul Dixon, Universidade
de Purdue (EUA), aprofundou o tema, ao expor a contraposição
da consciência do moderno e a arqueologia das
culturas expressa no emplasto de Brás Cubas.
O emplasto carrega em si a modernidade do capitalismo
e, ao mesmo tempo, as lembranças das pajelanças
ritos de cura xamânicos.
Machado também não escapou dos vislumbres
causados pela invenção da fotografia,
segundo Thomas Sträeter, da Universidade de Heidelberg
(Alemanha). Próximo dos 25 anos, Machado de Assis,
escreveu uma peça de teatro onde o fotógrafo
exercia um papel central. Já em Memorial
de Aires, seu último romance, o invento francês
não respeitava mais as intimidades. Ele escreveu:
A fotografia hoje já está entrando
nos quartos dos moribundos, cita.
A menção ou omissão sobre as paisagens
do Rio de Janeiro são provas da intimidade do
autor com a cidade. Para o memorialista e diplomata
Alberto Costa e Silva, a natureza integra-se aos personagens,
como a ressaca do Flamengo se expressa nos olhos de
Capitu, de Dom Casmurro. Nos romances, não
havia descrições das ruas nem explicações
longas. Podemos dizer que ele era o anti-Eça
de Queirós, acentuou.
O homenageado também tinha suas ambições
de fama, como comentou Jean Michel Massa, professor
da Universidade de Rénnes (França). Em
seu estudo A década do teatro: 1859-1869, Massa
apresenta uma fase pouco estudada do autor, mostrando
seus desejos de se tornar um dramaturgo reconhecido,
e vê nas frustrações um motivo para
compreender as obras da maturidade.
A ausência de paternidade nos romances foi destacada
pelo poeta e ensaísta Antonio Carlos Sechin,
membro da ABL. A única paternidade, a de
Bentinho em Dom Casmurro, é posta em dúvida
pelo narrador, fala.
Apesar da importância que recebe nos estudos
literários mundo afora, a obra de Machado não
registra sucessos de venda, sobretudo nos Estados Unidos,
conforme pesquisa apresentada por Daphne Patai, da Universidade
de Massachusetts. A leitura de Machado se resume
a um nicho cada vez mais elitista, intelectualmente,
afirmou.
Diretor-presidente da Vunesp (Fundação
para o Vestibular da Unesp) e presidente da Comissão
Científica e Organizadora do simpósio,
Benedito Antunes comemorou o sucesso do evento. Como
nas comemorações do centenário
de nascimento, em 1939, e do cinqüentenário
do falecimento, em 1958, é natural que o centenário
de morte desse autor seja assinalado por conferências
e palestras, enfatizou.
No encerramento do simpósio, a FEU lançou
a publicação Novos ensaios sobre Machado
de Assis. Com a intenção de ampliar a
participação e visibilidade dos estudos
apresentados, o evento foi transmitido ao vivo pela
WebTV, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação
(Faac), do câmpus de Bauru. E, a partir de outubro,
os debates e conferências estarão disponíveis
no endereço: www.faac.unesp.br/webtv
| Pesquisadora
participa de publicação sobre
autor |
| Docente
do Instituto de Biociências, Letras
e Ciências Exatas, câmpus de São
José do Rio Preto, Lucia Granja participou
da edição especial sobre Machado
de Assis da publicação Cadernos
de literatura brasileira, editada pelo Instituto
Moreira Salles, com o ensaio Domínio
da boa prosa: narradores e leitores na obra
do cronista. Trata-se de uma edição
dupla que reúne ensaístas, escritores
e pesquisadores que se dedicam a decifrar
os enigmas do autor de Dom Casmurro. Lucia
também foi debatedora da mesa-redonda
Machado de Assis: tradução,
recepção, leituras críticas
fora do Brasil, no Simpósio Internacional
organizado pela Unesp,
O volume, de julho de 2008, números
23 e 24 (R$ 95,00, informações:
11 - 3825-2560), traz textos de Carlos Heitor
Cony, Antonio Candido e Marcelo Coelho,
ensaios de Alfredo Bosi, John Gledson, Jean-Michel
Massa, Cristóvão Tezza e Hélio
de Seixas Guimarães, além
de reprodução de manuscritos
do escritor.
Oscar DAmbrosio
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| Livreto
de contos é distribuído em SP |
| Durante
o simpósio, foram distribuídos
gratuitamente 50 mil exemplares do livro de
bolso Machado de Assis, dois contos. O volume
reúne os consagrados contos Missa
do Galo e Uns braços.
A entrega ocorreu no vão livre do Masp
e nas saídas das Estações
Brigadeiro, Trianon-Masp e Consolação
do metrô.
Esse material vai me permitir ter
uma visão melhor sobre o Machado.
A Unesp está de parabéns pela
iniciativa, afirmou Eliando Gomes
Oliveira, 33, assistente administrativo,
uma das pessoas que receberam o volume.
Sonia Andréa Moreira, 33 anos, atendente
de telemarketing, também aprovou
a distribuição. A leitura
é fundamental para aumentar a minha
capacidade na escrita e meu vocabulário,
comentou.
Renato Coelho
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Daniel Patire
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