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Agosto/2008 – Ano XXII – nº 236   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: CENTENÁRIO DE UM MESTRE ::

Literatura
Visão plural
Reunião de 17 ensaios oferece ampla discussão sobre as facetas machadianas

Para o conceituado crítico literário americano Harold Bloom, Machado de Assis, cujo centenário de falecimento é lembrado em 29 de setembro, é um dos 100 maiores escritores da literatura de todos os tempos. Tal afirmação dá uma dimensão de como o escritor carioca é um dos poucos autores nacionais a ultrapassar as fronteiras impostas pela língua portuguesa em termos de reconhecimento internacional.

Esse prestígio deve-se, em boa parte, ao resultado estético da sua segunda fase literária, vinculada ao realismo e iniciada justamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. A obra foi seguramente a mais radical experimentação da prosa brasileira até aquele momento e constitui um desafio permanente para leitores e críticos.

Uma significativa colaboração ocorre com a publicação, pela Editora Unesp, de Novos ensaios sobre Machado de Assis. O objetivo é oferecer uma visão plural, variada e representativa de um escritor que acompanhou de perto 50 anos da vida social, cultural e política no Brasil, gerando uma produção que permite inesgotáveis caminhos de interpretação.

Investigação – Especialistas na obra de Machado, Francine Fernandes Weiss Ricieri, da Unicamp/Unimep, Márcia Lígia Guidin e Lúcia Granja, docentes do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Unesp, câmpus de São José do Rio Preto, organizaram uma publicação que conta com textos especialmente criados para esta obra, geralmente sob uma ótica que foge ao tradicional.

Os assuntos são bem variados e incluem diversos exercícios de literatura comparada. Alcides Vilaça, da USP, por exemplo, enfoca o célebre conto “Teoria do Medalhão” a partir das ligações com O príncipe, de Maquiavel. Por sua vez, Gilberto Pinheiro Passos, da mesma universidade, em “Sob o signo do ciúme: Bentinho e Charles Swann”, examina Dom Casmurro e Um amor de Swann, obras que, a partir de fontes comuns, abordam a temática do ciúme masculino.

Vale destacar o texto de Hélio de Seixas Guimarães, USP, que investiga a presença de referências inglesas na obra de Machado de Assis. O docente verifica como elas teriam constituído um novo paradigma em relação às referências francesas na literatura machadiana e em sua época. Cabe a Paulo Franchetti, da Unicamp, redimensionar a célebre crítica de Machado a O primo Basílio, de Eça de Queirós.

Dramaturgia – Duas docentes da Unesp participam da coletânea. Lúcia Granja estuda um poema, encontrado em Portugal, que circulou pouco a partir do qual discute as relações entre Machado de Assis e os dramaturgos/atores de teatro, especificamente Antonio Moutinho de Sousa, jovem dramaturgo português que vivia no Brasil no início dos anos 1860, e sua esposa Ludovina (veja nesta página). A análise investiga ainda a atuação do escritor como censor do Conservatório Dramático Brasileiro. Docente da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Assis, Sílvia Maria Azevedo focaliza a atuação de Machado de Assis como colaborador da publicação Ilustração Brasileira.

Antônio Carlos Secchin, da UFRJ e da Academia Brasileira de Letras, faz um estudo comparativo entre “Cantiga de esponsais” e “Um homem célebre”, enquanto Márcia Lígia Guidin, no ensaio “Corrosão e convenção: duas festas machadianas”, para estudar a mudança de tom e estilo do imortal artista ao longo de sua vida, compara duas cenas de festas, uma de Memórias Póstumas de Brás Cubas e outra do diário do conselheiro Aires no Memorial de Aires, de 1908.

Enriquecido por cronologia da vida e da obra machadiana, tabela das séries de crônicas publicadas por Machado de Assis e bibliografia de e sobre Machado de Assis, o volume traz informações valiosas para mergulhar melhor na poética de Machado, conhecido como o Bruxo de Cosme Velho, justamente pelo seu mágico poder de lidar com as palavras.

Ao Casal Moutinho

Íris de par, estrela de esperança,
   Lyrio de ante-manhã, -
Tal desponta uma fronte de criança
   Entre labor e affan!

Tal, entre vós, a flor alva e primeira
   Do ósculo nupcial
Vai desabrochar-se à cabeceira
  Do leito conjugal.

Machado de Assis, 1860

 

Simpósio internacional

A Unesp, por meio da Fundação Editora da Unesp e com o apoio do Ministério da Cultura, realiza o Simpósio Internacional Caminhos cruzados: Machado de Assis pela crítica mundial, de 25 a 29 de agosto, no auditório do MASP, em São Paulo (SP).

O evento busca construir as bases para um contato mais amplo, sólido e constante entre os diversos pesquisadores da obra de Machado de Assis. Além de evocar temas fundamentais na agenda dos especialistas ao longo dos próximos anos, difunde a obra de Machado de Assis.

Participam pesquisadores internacionais como Abel Barros Baptista (Universidade Nova de Lisboa), Amina di Munno (Universidade de Gênova), Dain Borges (Universidade de Chicago), o ganhador do Prêmio Cervantes, Jorge Edwards (Chile), e expoentes do cenário brasileiro, como Roberto Schwarz, Alberto Costa e Silva, Antonio Carlos Secchin, Carlos Alberto Vogt, Gilberto Pinheiro Passos, Luiz Roncari, Sérgio Paulo Rouanet e Valentim Facioli. O escritor Milton Hatoum fará uma saudação em nome dos escritores brasileiros.

As inscrições estão abertas e são gratuitas. Informações:

www.machadodeassis.unesp.br/simposio, simposio@machadodeassis.unesp.br ou

Tel.: 11-3871-2339 (secretaria do evento).

 

Oscar D’Ambrosio

 
  ACI