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Lançamento
Encontro de mestres
Historiador lança livro sobre polêmica
entre Machado de Assis e Eça de Queirós
A polêmica gerada
pelo texto de Machado de Assis ao criticar O primo Basílio,
de Eça de Queirós, publicado em 1878,
despertou visões apaixonadas. As palavras do
Bruxo do Cosme Velho geraram um tremendo abalo na relação
entre os dois e, acima de tudo, tiveram uma imensa repercussão
na imprensa da época.
Doutor em História da Cultura pela Universidade
de Paris e livre-docente em História da Arte
pelo Instituto de Artes, câmpus de São
Paulo, onde leciona, José Leonardo do Nascimento
retoma esse debate. Em O primo Basílio na imprensa
brasileira do século XIX, ele discute a questão
e ainda reúne 24 textos publicados em periódicos
como Gazeta de Notícias, Revista Ilustrada, O
Cruzeiro e Jornal do Commercio sobre o assunto.
A obra informa que Ramalho Ortigão foi o pioneiro
no Brasil a divulgar o romance na Gazeta de Notícias,
republicando texto que saíra na imprensa portuguesa
em 22 de fevereiro. A crítica de Machado, divulgada
no mês de abril de 1878, no diário O Cruzeiro,
vinculava Eça ao naturalismo francês, levantando
diversas objeções (veja quadro).
Brasil e Portugal O importante é que
José Leonardo não se ateve apenas aos
dois mestres. Levantou outros debatedores do assunto,
verificando como a opinião de Machado ergueu
discussões sobre aquele momento da literatura
em língua portuguesa tanto no Brasil como em
Portugal.
Em síntese, o autor de Dom Casmurro via Luísa
como uma personagem estereotipada. Faltaria nela traços
de humanidade, já que ela fora criada dentro
dos princípios naturalistas vinculados ao determinismo.
Autores como Carlos de Laet, Luiz de Andrade, Ângelo
Agostini e Afonso Celso Júnior participaram das
discussões e, como aponta José Leonardo,
a maioria dos textos levantados revela discordância
com a crítica machadiana.
Para o escritor carioca, o grande erro de Eça
é construir personagens nos quais a sensação
de prazer físico é mais importante que
o emocional. A crítica ao modo de construir a
narrativa e ao tom erótico do autor português
já provinha do ataque feito por Machado a O crime
do padre Amaro, visto como um plágio de Faute
de l abbé Mouret, de Émile Zola.
O escritor luso não só sentiu o baque
como respondeu: O crime do padre Amaro foi escrito
em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e publicado em
1874. O livro do sr. Zola, La faute de l abbé
Mouret, foi escrito e publicado em 1875. Na segunda
edição do livro, menciona a obtusidade
córnea ou má fé cínica
na recepção de seu livro (veja quadro).
José Leonardo ordena os artigos sobre a polêmica
em ordem cronológica, faz breves apresentações
dos autores e polemistas e busca explicitar quem são
os autores que estão sob o nome de pseudônimos.
Seja ao falar de plágio, que estimulou os debatedores
a buscar as fontes originais, ou ao criticar a capacidade
de Eça contar a sua história de maneira
verossímil, o docente do IA aponta que a questão
de fundo nas diferenças entre o escritor português
e o brasileiro era a própria literatura.
Dentro da concepção naturalista, havia
um comprometimento com a mudança social e o entendimento
das forças coletivas e externas ao indivíduo,
como o meio físico, o social e as determinações
biológicas, étnicas ou raciais. Nesse
universo, a desvalorização das reações
psíquicas e da vida interior dos heróis
individuais, universo muito caro a Machado de Assis,
deixava-o incomodado perante os rumos que a prosa brasileira
poderia tomar.
| Eça
de Queiros |
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"Os críticos inteligentes que
acusaram O crime do padre Amaro de ser apenas
uma imitação da Faute de labbé
Mouret não tinham infelizmente lido
o romance maravilhoso do sr. Zola que foi
talvez a origem de toda a sua glória.
A semelhança casual dos dois títulos
induziu-os em erro.
Com o conhecimento dos dois livros, só
uma obtusidade córnea ou má
fé cínica poderia assemelhar
esta bela alegórica idílica,
a que está misturado o patético
drama duma alma mística, ao Crime
do padre Amaro que, como podem ver neste
novo trabalho, é apenas, no fundo,
uma intriga de clérigos e de beatas
tramada e murmurada à sombra duma
velha Sé de província portuguesa.
Eça de Queirós, Nota da segunda
edição de O crime do padre
Amaro, 1880
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| Machado
de Assis |
| "O
próprio Crime do padre Amaro é
imitação do romance de Zola,
La faute de labbé Mouret. Situação
análoga; iguais tendências; diferença
no meio; diferença no desenlance; idêntico
estilo; algumas reminiscências, como
no capítulo da missa, e outras; enfim,
o mesmo título.
O Sr. Eça de Queirós
não quer ser realista mitigado, mas
intenso e completo; e daí vem o tom
carregado das tintas, que nos assusta, para
ele é simplesmente o tom próprio.
Dado, porém, que a doutrina do Sr.
Eça de Queirós fosse verdadeira,
ainda assim cumpre não acumular tanto
as cores, nem acentuar tanto as linhas;
e quem o diz é o próprio chefe
da escola, de quem li, há pouco,
e não sem pasmo, que o perigo do
movimento é haver quem suponha que
o traço grosso é o traço
exato.
Machado de Assis, sob o pseudônimo
Eleazar, O Cruzeiro, 16/4/1878
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Oscar DAmbrosio
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