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Agosto/2008 – Ano XXII – nº 236   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: CENTENÁRIO DE UM MESTRE ::

Lançamento
Encontro de mestres

Historiador lança livro sobre polêmica entre Machado de Assis e Eça de Queirós

A polêmica gerada pelo texto de Machado de Assis ao criticar O primo Basílio, de Eça de Queirós, publicado em 1878, despertou visões apaixonadas. As palavras do Bruxo do Cosme Velho geraram um tremendo abalo na relação entre os dois e, acima de tudo, tiveram uma imensa repercussão na imprensa da época.

Doutor em História da Cultura pela Universidade de Paris e livre-docente em História da Arte pelo Instituto de Artes, câmpus de São Paulo, onde leciona, José Leonardo do Nascimento retoma esse debate. Em O primo Basílio na imprensa brasileira do século XIX, ele discute a questão e ainda reúne 24 textos publicados em periódicos como Gazeta de Notícias, Revista Ilustrada, O Cruzeiro e Jornal do Commercio sobre o assunto.

A obra informa que Ramalho Ortigão foi o pioneiro no Brasil a divulgar o romance na Gazeta de Notícias, republicando texto que saíra na imprensa portuguesa em 22 de fevereiro. A crítica de Machado, divulgada no mês de abril de 1878, no diário O Cruzeiro, vinculava Eça ao naturalismo francês, levantando diversas objeções (veja quadro).

Brasil e Portugal – O importante é que José Leonardo não se ateve apenas aos dois mestres. Levantou outros debatedores do assunto, verificando como a opinião de Machado ergueu discussões sobre aquele momento da literatura em língua portuguesa tanto no Brasil como em Portugal.

Em síntese, o autor de Dom Casmurro via Luísa como uma personagem estereotipada. Faltaria nela traços de humanidade, já que ela fora criada dentro dos princípios naturalistas vinculados ao determinismo. Autores como Carlos de Laet, Luiz de Andrade, Ângelo Agostini e Afonso Celso Júnior participaram das discussões e, como aponta José Leonardo, a maioria dos textos levantados revela discordância com a crítica machadiana.

Para o escritor carioca, o grande erro de Eça é construir personagens nos quais a sensação de prazer físico é mais importante que o emocional. A crítica ao modo de construir a narrativa e ao tom erótico do autor português já provinha do ataque feito por Machado a O crime do padre Amaro, visto como um plágio de Faute de l’ abbé Mouret, de Émile Zola.

O escritor luso não só sentiu o baque como respondeu: “O crime do padre Amaro foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e publicado em 1874. O livro do sr. Zola, La faute de l’ abbé Mouret, foi escrito e publicado em 1875”. Na segunda edição do livro, menciona a “obtusidade córnea ou má fé cínica” na recepção de seu livro (veja quadro).

José Leonardo ordena os artigos sobre a polêmica em ordem cronológica, faz breves apresentações dos autores e polemistas e busca explicitar quem são os autores que estão sob o nome de pseudônimos. Seja ao falar de plágio, que estimulou os debatedores a buscar as fontes originais, ou ao criticar a capacidade de Eça contar a sua história de maneira verossímil, o docente do IA aponta que a questão de fundo nas diferenças entre o escritor português e o brasileiro era a própria literatura.

Dentro da concepção naturalista, havia um comprometimento com a mudança social e o entendimento das forças coletivas e externas ao indivíduo, como o meio físico, o social e as determinações biológicas, étnicas ou raciais. Nesse universo, a desvalorização das reações psíquicas e da vida interior dos heróis individuais, universo muito caro a Machado de Assis, deixava-o incomodado perante os rumos que a prosa brasileira poderia tomar.

Eça de Queiros

"Os críticos inteligentes que acusaram O crime do padre Amaro de ser apenas uma imitação da Faute de l’abbé Mouret não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do sr. Zola que foi talvez a origem de toda a sua glória. A semelhança casual dos dois títulos induziu-os em erro.

Com o conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má fé cínica poderia assemelhar esta bela alegórica idílica, a que está misturado o patético drama duma alma mística, ao Crime do padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa.”

Eça de Queirós, Nota da segunda edição de O crime do padre Amaro, 1880

 
Machado de Assis
"O próprio Crime do padre Amaro é imitação do romance de Zola, La faute de l’abbé Mouret. Situação análoga; iguais tendências; diferença no meio; diferença no desenlance; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título.”

“O Sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e completo; e daí vem o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do Sr. Eça de Queirós fosse verdadeira, ainda assim cumpre não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas; e quem o diz é o próprio chefe da escola, de quem li, há pouco, e não sem pasmo, que o perigo do movimento é haver quem suponha que o traço grosso é o traço exato.”

Machado de Assis, sob o pseudônimo Eleazar, O Cruzeiro, 16/4/1878

Oscar D’Ambrosio

 
  ACI