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Economia
Agronegócio
reduz emprego no campo
Agricultura voltada para exportação e
produção de combustível em São
Paulo mudou perfil da mão-de-obra, com a redução
de quase 700 mil postos de trabalho em três décadas,
além de estimular concentração
de terras e diminuição da área
destinada a alimentos
Em pouco mais de três
décadas, a agricultura paulista perdeu quase
700 mil postos de trabalho. Em 1971, havia 1,72 milhão
de trabalhadores no setor. Em 2004, o número
caiu para 1,05 milhão - uma redução
de quase 40% -, de acordo com o Instituto de Economia
Agrícola (IEA), ligado à Secretaria da
Agricultura do Estado. Os dados fazem parte da tese
de doutorado do docente José Marangoni Camargo,
da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), câmpus
da Unesp de Marília.
O economista analisou o impacto das inovações
na produção agrícola sobre o emprego
e as condições socioeconômicas em
São Paulo. "O atrelamento da agricultura
à indústria processadora de alimentos,
ou seja, o agronegócio, levou a profundas transformações
nas técnicas e nas relações sociais
de produção", aponta. Além
do encolhimento da mão-de-obra, Marangoni detectou
alterações como a maior demanda por qualificação
técnica, vínculos empregatícios
mais estáveis - embora a média dos salários
continue baixa - e diminuição de trabalhadores
temporários.
De acordo com a tese, desenvolvida no Instituto de
Economia da Unicamp, a modernização no
campo foi motivada pelo avanço das exportações,
alta dos preços das commodities no mercado internacional
e estagnação da fronteira agrícola
no Estado. O recuo na oferta de empregos está
associado à mecanização e evolução
da tecnologia no campo e à concentração
fundiária, com predomínio das monoculturas.
Mecanização - A maior eliminação
de postos de trabalho ocorreu na década de 1990,
quando o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social) estimulou a compra de maquinário entre
os produtores rurais. O número de máquinas
agrícolas praticamente triplicou em São
Paulo, de 1970 a 2000, assim como a porcentagem de propriedades
rurais que utilizavam tratores, que passou de 14% para
42% do total. Associado a isso, na década de
1990, dobrou o número de operadores de máquinas
e tratoristas no Estado, que chegaram, no final do período,
a 8,6% do total dos residentes nas fazendas.
Como reflexo desse processo, no caso do algodão
e do feijão, em 2004, mais da metade da colheita
era mecanizada. Nesse ano, nos canaviais de regiões
como Ribeirão Preto, a mecanização
já chegava a 70% da área plantada. "A
colheitadeira de cana substitui o trabalho de 80 a 120
pessoas", observa o pesquisador.
A conseqüência foi a queda na contratação
de trabalhadores por hectare em culturas como batata
da seca (-92%), feijão das águas (-81,9%),
algodão (-80,9%), trigo (-67%), soja (-59,8%)
e laranja (-59%). O tempo de trabalho por hectare também
diminuiu: na safra do trigo, por exemplo, de 13 horas
para quatro horas e, na soja, de 22 para oito horas.
"O milho utiliza, hoje, 85% menos mão-de-obra
do que no início da década de 1990",
explica o economista.
Monoculturas - Outra causa da queda do número
de trabalhadores foi a redução de áreas
de culturas empregadoras de mão-de-obra, como
algodão, feijão e amendoim. Esse fenômeno
decorreu do forte processo de concentração
fundiária e avanço das monoculturas. Nos
últimos 30 anos, o número de proprietários
de terras no Estado caiu pela metade, de 470 mil para
233 mil. As regiões de Presidente Prudente e
Araçatuba, onde predominam as grandes propriedades,
foram as que mais reduziram postos de trabalho.
Além de terem diminuído o número
de proprietários da agricultura familiar em 28%,
entre 1990 e 2004, as monoculturas provocaram, ainda,
a concentração de renda na terra em poucas
culturas e regiões. Em 2000, apenas 10 culturas
renderam em reais 76% do valor bruto de produção
da agropecuária no Estado. Somente a cana-de-açúcar
foi responsável por 32% da renda gerada no campo
e, com a carne bovina e de frango, o milho e o leite,
somou 60% do total.
Impulsionada pelas cotações internacionais
do açúcar e crescente demanda pelo álcool
combustível, a cana-de-açúcar ocupava,
em 2004, quase a metade das terras de lavoura no Estado.
Em 1990, ela representava apenas 29%. "Embora a
cana empregue um contingente expressivo de trabalhadores
temporários, esta expansão foi insuficiente
para compensar os empregos perdidos com a acelerada
mecanização da colheita", assinala
o pesquisador.
Um estudo recente do geógrafo José Gilberto
de Souza, docente da Faculdade de Ciências Agrárias
e Veterinárias (FCAV), câmpus de Jaboticabal,
demonstrou que as monoculturas pouco contribuem para
a melhoria nas cidades em seu entorno (Jornal Unesp,
nº 228/novembro de 2007). "O desemprego no
campo reflete a trajetória da mecanização
em commodities como a soja, além das atividades
da pecuária, que expulsam moradores da área
rural", diz Souza.
Perfil - Todas essas transformações redefiniram
as relações de produção
e o perfil do homem do campo. As categorias de proprietários,
arrendatários, parceiros e colonos, que em 1971
representavam 57% do total ocupado, em 2004 eram apenas
43%. Já os assalariados, que englobam os mensalistas,
diaristas, administradores, técnicos agrícolas,
motoristas e tratoristas, passaram de 25% para 37%.
O número de trabalhadores temporários
- ou volantes - registrou um pequeno aumento, de 17,5%
para 19,5%, mas com alto grau de informalidade.
De 1993 a 1999, o porcentual de temporários
com carteira assinada caiu de 46% para 21%, bem abaixo
dos 60% registrados entre os assalariados residentes.
Mais trabalhadores também passaram a morar fora
das propriedades. O grupo dos não-residentes,
em 1970, representava 24% do total da mão-de-obra,
enquanto, em 2004, já era quase 60%.
Marangoni destaca que, de 2000 a 2004, o avanço
da tecnificação na agricultura paulista
elevou em quase 62% a produtividade do trabalho, medida
pelo valor da produção anual e o total
médio de pessoas ocupadas. Porém, a ocupação
agrícola caiu 23% (veja gráfico). Mesmo
produzindo mais em menos tempo, os trabalhadores não
foram beneficiados. "Até entre os mais qualificados,
como tratoristas e capatazes, a média salarial
não alcança dois salários mínimos",
observa.
Na cultura de cana-de-açúcar, os ganhos
teriam até diminuído. Um estudo desenvolvido
pela agrônoma Ana Terra Reis, da FCAV, constata
que, na década de 1980, as usinas pagavam aos
cortadores de cana R$ 9,00 por tonelada cortada. Em
2004, o valor não passava de R$ 2,50. Ao comparar
a evolução dos preços do produto
e os salários dos cortadores, no período,
ela aponta uma redução de poder aquisitivo
dessa categoria em torno de 60%.
Marangoni prevê uma queda ainda maior na criação
de emprego no campo, com a diminuição
das queimadas na colheita da cana e o incentivo em algumas
culturas ao plantio direto, que não utiliza o
sistema de mudas e elimina operações de
preparo do solo.
O principal destino da mão-de-obra eliminada
no campo têm sido os grandes centros urbanos,
exercendo atividades de baixo rendimento. "Como
a indústria não absorveu essa massa de
trabalhadores, muitos engrossaram as estatísticas
de desemprego, o que ampliou a desigualdade social e
de renda nas cidades", constata o docente.
Especialistas defendem medidas compensatórias
Para frear a queda de empregos no campo, o docente
José Marangoni Camargo, da Faculdade de Filosofia
e Ciências (FFC), câmpus de Marília,
propõe maior investimento governamental em programas
de qualificação de trabalhadores rurais,
na reforma agrária, em linhas de crédito
rural e assistência técnica para agricultura
familiar. Ele sugere, ainda, a extensão dos direitos
previdenciários aos trabalhadores rurais. "Além
disso, são necessárias políticas
de desenvolvimento rural mais inclusivas e eqüitativas",
acrescenta.
O docente José Gilberto Souza, da Faculdade
de Ciências Agrárias e Veterinárias
(FCAV), câmpus de Jaboticabal, defende a aplicação
do Plano Diretor Municipal Rural pelos municípios,
o que determinaria uma visão estratégica
de desenvolvimento rural e facilitaria a criação
de emprego no longo prazo. Ele sugere também
a utilização do controle e recuperação
de áreas de preservação permanente
e de reserva legal do Estado na implantação
de processos de trabalho mais dignos. "A partir
do novo padrão de uso e ocupação
do solo, atividades agroflorestais que demandam trabalho
não mecanizado se fortaleceriam", justifica.
Pesquisadora do trabalho entre cortadores de cana da
região de Ribeirão Preto, a professora
Maria Aparecida de Moraes e Silva aponta o combate à
acumulação de capitais pelos usineiros
como uma das soluções para a melhoria
do emprego e condições de vida do trabalhador
rural. Ela denuncia a falta de aplicação
da Lei nº 4870/1965, que prevê a destinação
de 4% dos recursos da atividade canavieira ao PAS (Programa
de Assistência Social), a fim de beneficiar os
trabalhadores do setor. "A fiscalização
caberia às instituições jurídicas",
diz ela, docente do Programa de Pós-graduação
de Geografia da Faculdade de Ciências Tecnológicas
(FCT), câmpus de Presidente Prudente.
Agricultura familiar - A docente Mirian Claudia Lourenção
Simonetti, do Centro de Pesquisas e Estudos Agrários
e Ambientais da FFC, considera a pesquisa de Marangoni
de extrema importância. "A expansão
do agronegócio canavieiro reduz o espaço
de florestas e da agricultura familiar, fortemente associada
à produção de alimentos básicos
e com maior utilização de mão-de-obra",
argumenta.
O economista e docente da Unicamp Pedro Ramos também
aponta os riscos da concentração de terra
e avanço das monoculturas para a oferta de trabalho
e produção de alimentos no campo. "Se
a produção agropecuária com fins
energéticos e à exportação
continuar crescendo, a oferta de alimentos poderá
se agravar", aponta o especialista, que participou
da banca na defesa da tese de Marangoni.
Para o professor da FCAV Roberto Rodrigues, a relação
entre o crescimento da cana, a alta dos preços
dos alimentos e a redução dos postos de
trabalho tem que ser feita com cuidado e clareza. "No
ano passado, o Brasil bateu o recorde de produção
de alimentos", adverte. O ex-ministro da Agricultura
assinala que já propôs a reserva de 5%
a 7% nas áreas de cana para a fruticultura, com
o objetivo de absorver a mão-de-obra dispensada.
"Conjuntamente, é preciso treinamento e
readequação desses trabalhadores",
assinala.
| PRINCIPAIS
MUDANÇAS NO SETOR RURAL PAULISTA (1970
a 2004) |
| MÃO-DE-OBRA
Redução em 700 mil
postos de trabalho
Queda do porcentual de proprietários,
arrendatários, parceiros e colonos
de 57%
para 43% do total de ocupados
Aumento da participação
dos assalariados, assim como da demanda
por qualificação
Diminuição do número
dos trabalhadores temporários e residentes
MECANIZAÇÃO (1970 a 2000)
Número de máquinas
agrícolas triplica em São
Paulo
Aumento de 14% para 42% na quantidade
de propriedades rurais com tratores
CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA
Redução do número
de proprietários de terras de 470
mil para 233 mil, entre 1970 e 2000
De 2000 a 2004, a área total
de cana cresceu de 20% para 48% da área
plantada no Estado
TECNIFICAÇÃO DO TRABALHO
De 1990 a 2000, tempo de mão-de-obra
por hectare no trigo caiu de 13 horas para
quatro horas
CONCENTRAÇÃO DE RENDA
76% do valor bruto gerado pela agropecuária
no Estado vem de apenas 10 culturas
PROPOSTAS
Maior investimento na
qualificação de trabalhadores
rurais
Maior apoio à reforma
agrária
Estimulo à agricultura familiar
Destinação de 4% do
total dos recursos da atividade canavieira
ao PAS (Programa
de Assistência Social), para ajuda
a trabalhadores do setor
Reserva de 5% a 7% das áreas
de cana para a fruticultura, a fim de absorver
a mão-de-obra dispensada
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Julio Zanella
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