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Abril/2008 – Ano XXI – nº 232   ::   Suplemento   [Voltar]
 
:: :: O CENTENÁRIO DE MACHADO DE ASSIS ::

O ano da morte de Machado de Assis
Sílvia Maria Azevedo

Processo de
branqueamento do
escritor, iniciado em vida, teve continuidade nas homenagens
póstumas

Transformado de personagem morto em narrador “vivo” no outro mundo, Brás Cubas, como se sabe, é quem narra sua própria história. Os capítulos iniciais das Memórias póstumas relatam as circunstâncias da morte do defunto autor, e o leitor fica sabendo como foi o velório e o enterro de Brás (com apenas onze amigos), a doença que o matou (a pneumonia contraída na invenção do Emplastro Brás Cubas), as visitas que recebe (especialmente de Virgília).

No caso da morte de Machado de Assis, foi a imprensa da época que se encarregou de revelar à posteridade os detalhes do passamento do escritor, que morreu às três horas e quarenta e cinco minutos da madrugada de 29 de setembro de 1908. Os jornais cariocas dedicaram largo espaço à morte de Machado, sendo o primeiro a divulgá-la a Gazeta de Notícias, que, para isso, imprimiu uma “2ª edição”.

Empenhado em prestar a última homenagem àquele que foi um de seus mais assíduos colaboradores, o jornal de Ferreira de Araújo de 30 de setembro de 1908 noticiava o minucioso e extenso ritual que costuma acompanhar a morte de uma personalidade ilustre: as primeiras providências tomadas em relação ao corpo, o embalsamamento do cadáver por Afrânio Peixoto e Alfredo de Andrade e a retirada da máscara mortuária pelo escultor Rodolfo Bernardelli, o enterro às expensas do governo, o velório na Academia Brasileira de Letras, os amigos e pessoas ilustres que estiveram presentes.

Se é possível medir o grau de consagração de um escritor em vista das homenagens recebidas quando de sua morte, a de Machado de Assis foi cercada das honras de um chefe de Estado. Por sua vez, as homenagens oficiais de passamento – o pranto protocolar aos mortos das sociedades modernas – simbolizam o momento em que aquele que se foi é trazido para perto dos vivos.

Walter Benjamin, no conhecido ensaio sobre o narrador, vai dizer que uma das causas da crise da arte de contar histórias nas sociedades modernas decorre de a morte ter deixado de ser experiência conformadora de conhecimento, base das narrativas. Nas sociedades arcaicas, segundo o pensador alemão, a morte, e o ritual que a cercava, acontecia em família, com o envolvimento de parentes e amigos. O que não quer dizer que não houvesse casos em que os herdeiros não zombassem ou escarnecessem do moribundo, como vai lembrar Norbert Elias, em A solidão dos moribundos.

É esse caráter público e sociável da morte que pode ser identificado nas comemorações de passamento de Machado de Assis. Aquelas são situações em que o mundo moderno, na forma de rituais convencionais, se permite conviver com os mortos. Que assim se fazem presentes, sendo resgatados do esquecimento.
Em seguida às homenagens prestadas no dia da morte de Machado, e aos necrológios, é a vez dos artigos de reminiscência, quando começa a ser escrita a biografia de Machado de Assis, que é outra forma de perenizar a memória do morto ilustre. Para tanto, certos detalhes de sua vida foram por vezes omitidos, sob a justificativa de ser aquele o “Machado que eu conheci”.

No aniversário do 30º dia do falecimento de Machado, José Veríssimo publica longo artigo no Jornal do Comércio, em que rememora o convívio quase diário com o escritor. A mais forte impressão que lhe ficara da personalidade de Machado era o “horror à banalidade e à ênfase”. E acrescentava: “São tanto mais de admirar e até de maravilhar essas qualidades de medida, de tato, de bom gosto, em suma de elegância, na vida e na arte de Machado de Assis, que elas são justamente as mais alheias ao nosso gênio nacional e, muito particularmente, aos mestiços como ele. [...]. Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra”.

Joaquim Nabuco, em carta enviada de Washington, em 25 de novembro, ficou escandalizado ao ver Machado sendo chamado de “mulato”: “Eu não teria chamado o Machado mulato [itálico no original] e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese (...). O Machado para mim era um branco, e creio que por tal se tornava [sic]; quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego. O nosso pobre amigo, tão sensível, preferiria o esquecimento à glória com a devassa sobre suas origens”.

Veríssimo jamais incluiu o artigo de 1908 em qualquer dos seus livros. Na verdade, a crítica de Nabuco fazia eco ao processo de branqueamento de Machado de Assis, que, iniciado em vida (basta ver os seus retratos), tinha continuidade depois da morte do escritor, cujo registro de óbito certificava que Joaquim Maria Machado de Assis, de “cor branca”, havia falecido de “arteriosclerose”.

Também o último romance com o qual Machado se despedira do mundo das letras, o Memorial de Aires, carinhosamente recebido nos artigos de Salvador de Mendonça e Medeiros de Albuquerque, parecia autorizar a leitura confessional, o autor encarnando-se em parte no Conselheiro Aires, homem branco, culto e refinado, no comentário de Joaquim Nabuco, em carta a Graça Aranha, de 3 de setembro: “Foi uma delícia para mim ler o novo livro do Machado. Como o escritor é o homem! Com ele se pinta a si mesmo sem sentir!”

Uma nuvem, no entanto, veio nublar o céu das celebrações: foi a carta aberta de Hemetério dos Santos, endereçada a Fábio Luz, que saiu na Gazeta de Notícias, em 16 de novembro de 1908, na qual Machado era acusado de ter se afastado da mãe preta que o criara: “Eu conheci essa boa mulata, comendo de estranhos, com amor e conforto máximo, chorando, porém, pelo abandono em que a lançara o enteado de outrora, nunca mais a procurando desde a sua mudança de S. Cristóvão”.
Eram os contemporâneos que assim se pronunciavam no ano do falecimento de Machado de Assis, uns empenhados em fazer de Machado o maior monumento da literatura brasileira, outros em litígio com o Machado de carne e osso, mestiço do Morro do Livramento que, consciente do seu valor, ambicioso e enérgico, deixou o mais possível na sombra as suas origens humildes.

Sílvia Maria Azevedo é professora em Teoria Literária pela Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus de Assis. É mestre (Literatura Portuguesa) e doutora (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela USP.


 
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