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O ano da morte de Machado
de Assis
Sílvia Maria Azevedo
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Processo de
branqueamento do
escritor, iniciado em vida, teve continuidade
nas homenagens
póstumas
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Transformado
de personagem morto em narrador vivo no
outro mundo, Brás Cubas, como se sabe, é
quem narra sua própria história. Os capítulos
iniciais das Memórias póstumas relatam
as circunstâncias da morte do defunto autor, e
o leitor fica sabendo como foi o velório e o
enterro de Brás (com apenas onze amigos), a doença
que o matou (a pneumonia contraída na invenção
do Emplastro Brás Cubas), as visitas que recebe
(especialmente de Virgília).
No caso da morte de Machado de Assis,
foi a imprensa da época que se encarregou de
revelar à posteridade os detalhes do passamento
do escritor, que morreu às três horas e
quarenta e cinco minutos da madrugada de 29 de setembro
de 1908. Os jornais cariocas dedicaram largo espaço
à morte de Machado, sendo o primeiro a divulgá-la
a Gazeta de Notícias, que, para isso, imprimiu
uma 2ª edição.
Empenhado em prestar a última
homenagem àquele que foi um de seus mais assíduos
colaboradores, o jornal de Ferreira de Araújo
de 30 de setembro de 1908 noticiava o minucioso e extenso
ritual que costuma acompanhar a morte de uma personalidade
ilustre: as primeiras providências tomadas em
relação ao corpo, o embalsamamento do
cadáver por Afrânio Peixoto e Alfredo de
Andrade e a retirada da máscara mortuária
pelo escultor Rodolfo Bernardelli, o enterro às
expensas do governo, o velório na Academia Brasileira
de Letras, os amigos e pessoas ilustres que estiveram
presentes.
Se é possível medir o grau
de consagração de um escritor em vista
das homenagens recebidas quando de sua morte, a de Machado
de Assis foi cercada das honras de um chefe de Estado.
Por sua vez, as homenagens oficiais de passamento
o pranto protocolar aos mortos das sociedades modernas
simbolizam o momento em que aquele que se foi
é trazido para perto dos vivos.
Walter Benjamin, no conhecido ensaio
sobre o narrador, vai dizer que uma das causas da crise
da arte de contar histórias nas sociedades modernas
decorre de a morte ter deixado de ser experiência
conformadora de conhecimento, base das narrativas. Nas
sociedades arcaicas, segundo o pensador alemão,
a morte, e o ritual que a cercava, acontecia em família,
com o envolvimento de parentes e amigos. O que não
quer dizer que não houvesse casos em que os herdeiros
não zombassem ou escarnecessem do moribundo,
como vai lembrar Norbert Elias, em A solidão
dos moribundos.
É esse caráter público
e sociável da morte que pode ser identificado
nas comemorações de passamento de Machado
de Assis. Aquelas são situações
em que o mundo moderno, na forma de rituais convencionais,
se permite conviver com os mortos. Que assim se fazem
presentes, sendo resgatados do esquecimento.
Em seguida às homenagens prestadas no dia da
morte de Machado, e aos necrológios, é
a vez dos artigos de reminiscência, quando começa
a ser escrita a biografia de Machado de Assis, que é
outra forma de perenizar a memória do morto ilustre.
Para tanto, certos detalhes de sua vida foram por vezes
omitidos, sob a justificativa de ser aquele o Machado
que eu conheci.
No aniversário do 30º dia
do falecimento de Machado, José Veríssimo
publica longo artigo no Jornal do Comércio, em
que rememora o convívio quase diário com
o escritor. A mais forte impressão que lhe ficara
da personalidade de Machado era o horror à
banalidade e à ênfase. E acrescentava:
São tanto mais de admirar e até
de maravilhar essas qualidades de medida, de tato, de
bom gosto, em suma de elegância, na vida e na
arte de Machado de Assis, que elas são justamente
as mais alheias ao nosso gênio nacional e, muito
particularmente, aos mestiços como ele. [...].
Mulato, foi de fato um grego da melhor época,
pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de
sua vida, pela euritmia da sua obra.
Joaquim Nabuco, em carta enviada de Washington,
em 25 de novembro, ficou escandalizado ao ver Machado
sendo chamado de mulato: Eu não
teria chamado o Machado mulato [itálico no original]
e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese
(...). O Machado para mim era um branco, e creio que
por tal se tornava [sic]; quando houvesse sangue estranho,
isso em nada afetava a sua perfeita caracterização
caucásica. Eu pelo menos só vi nele o
grego. O nosso pobre amigo, tão sensível,
preferiria o esquecimento à glória com
a devassa sobre suas origens.
Veríssimo jamais incluiu o artigo
de 1908 em qualquer dos seus livros. Na verdade, a crítica
de Nabuco fazia eco ao processo de branqueamento de
Machado de Assis, que, iniciado em vida (basta ver os
seus retratos), tinha continuidade depois da morte do
escritor, cujo registro de óbito certificava
que Joaquim Maria Machado de Assis, de cor branca,
havia falecido de arteriosclerose.
Também o último romance
com o qual Machado se despedira do mundo das letras,
o Memorial de Aires, carinhosamente recebido nos artigos
de Salvador de Mendonça e Medeiros de Albuquerque,
parecia autorizar a leitura confessional, o autor encarnando-se
em parte no Conselheiro Aires, homem branco, culto e
refinado, no comentário de Joaquim Nabuco, em
carta a Graça Aranha, de 3 de setembro: Foi
uma delícia para mim ler o novo livro do Machado.
Como o escritor é o homem! Com ele se pinta a
si mesmo sem sentir!
Uma nuvem, no entanto, veio nublar o
céu das celebrações: foi a carta
aberta de Hemetério dos Santos, endereçada
a Fábio Luz, que saiu na Gazeta de Notícias,
em 16 de novembro de 1908, na qual Machado era acusado
de ter se afastado da mãe preta que o criara:
Eu conheci essa boa mulata, comendo de estranhos,
com amor e conforto máximo, chorando, porém,
pelo abandono em que a lançara o enteado de outrora,
nunca mais a procurando desde a sua mudança de
S. Cristóvão.
Eram os contemporâneos que assim se pronunciavam
no ano do falecimento de Machado de Assis, uns empenhados
em fazer de Machado o maior monumento da literatura
brasileira, outros em litígio com o Machado de
carne e osso, mestiço do Morro do Livramento
que, consciente do seu valor, ambicioso e enérgico,
deixou o mais possível na sombra as suas origens
humildes.
Sílvia Maria Azevedo é professora
em Teoria Literária pela Faculdade de Ciências
e Letras da UNESP, câmpus de Assis. É
mestre (Literatura Portuguesa) e doutora (Teoria Literária
e Literatura Comparada) pela USP.
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