UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::
Abril/2008 – Ano XXI – nº 232   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: LANÇAMENTOS ::

Literatura
Resgate de uma sátira paulistana
Estudo focaliza romance Madame Pommery, que ironizou vida social na cidade no início do século XX

Considerado geralmente pela crítica uma sátira pré-modernista, o romance Madame Pommery, de Hilário Tácito, publicado em 1920, conta a trajetória bem-sucedida de Ida Pomerikowski, uma prostituta que organizou a vida noturna de São Paulo, transformando-a em lucrativa empresa graças aos ricos coronéis e ingênuos bacharéis.

O estudo Entre a biblioteca e o bordel: a sátira narrativa de Hilário Tácito, de Sandra A. Ferreira, destaca dois aspectos do livro: a visão de uma época e, principalmente, o entendimento da sátira como forma narrativa que permite expor “um manifesto das idéias e da posição intelectual de seu autor”. Nesse aspecto, a ironia é “vinculada tanto ao universo desarticulado da sociedade paulistana quanto ao horizonte da arte narrativa”.

Professora do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus de Assis, a autora, à luz das transformações paulistanas nos primeiros anos do século XX, estuda a caracterização das personagens, inclusive do próprio narrador, Hilário Tácito, cujo nome verdadeiro era José Maria de Toledo Malta (1885-1951). Sandra também valoriza as qualidades literárias do romance, considerado de costumes, com ênfase na ironia e na vivacidade da sátira.


Traços inovadores

Nesse sentido, é possível encontrar parentescos de Madame Pommery com obras como Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, e até mesmo Macunaíma, de Mário de Andrade.

Engenheiro responsável por construções como a do Edifício Martinelli, entre os anos de 1930 e 1940, além de enxadrista e amigo de Monteiro Lobato, com quem trabalhou na Revista do Brasil, Tácito dividiu seu romance em oito capítulos, com cortes que remetem a tempos anteriores à ação narrativa.

Para a pesquisadora, Madame Pommery efetua uma espécie de crônica de São Paulo. Ao mesmo tempo, inova em termos temáticos ao eleger a prostituição como atividade de inserção social, e se coloca como anunciadora da literatura modernista principalmente pelos seus personagens, que funcionam como tipos e caricaturas, algo bem ao gosto de Oswald de Andrade.

O estudo de Sandra tem o grande mérito de tirar a produção de Tácito do relativo esquecimento em que se encontra, tratando-a como “um marco da fase pré-modernista, que, se não pretende a excelência, também não pode ser posta de lado como obra de pouco quilate”. (O.D.)

Entre a biblioteca e o bordel: a sátira narrativa de Hilário Tácito – Sandra A. Ferreira; Editora UNESP; 132 páginas; R$ 24,00.
Informações: www.editoraunesp.com.br

Oscar D'Ambrosio

 

 
  ACI