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Literatura
Resgate de uma sátira paulistana
Estudo focaliza romance Madame Pommery, que ironizou
vida social na cidade no início do século
XX
Considerado geralmente
pela crítica uma sátira pré-modernista,
o romance Madame Pommery, de Hilário Tácito,
publicado em 1920, conta a trajetória bem-sucedida
de Ida Pomerikowski, uma prostituta que organizou a
vida noturna de São Paulo, transformando-a em
lucrativa empresa graças aos ricos coronéis
e ingênuos bacharéis.
O estudo Entre a biblioteca e o bordel: a sátira
narrativa de Hilário Tácito, de Sandra
A. Ferreira, destaca dois aspectos do livro: a visão
de uma época e, principalmente, o entendimento
da sátira como forma narrativa que permite expor
um manifesto das idéias e da posição
intelectual de seu autor. Nesse aspecto, a ironia
é vinculada tanto ao universo desarticulado
da sociedade paulistana quanto ao horizonte da arte
narrativa.
Professora do Departamento de Lingüística
da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus
de Assis, a autora, à luz das transformações
paulistanas nos primeiros anos do século XX,
estuda a caracterização das personagens,
inclusive do próprio narrador, Hilário
Tácito, cujo nome verdadeiro era José
Maria de Toledo Malta (1885-1951). Sandra também
valoriza as qualidades literárias do romance,
considerado de costumes, com ênfase na ironia
e na vivacidade da sátira.
Traços inovadores
Nesse sentido, é possível encontrar parentescos
de Madame Pommery com obras como Memórias de
um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio
de Almeida, Memórias Póstumas de Brás
Cubas, de Machado de Assis, Memórias Sentimentais
de João Miramar, de Oswald de Andrade, e até
mesmo Macunaíma, de Mário de Andrade.
Engenheiro responsável por construções
como a do Edifício Martinelli, entre os anos
de 1930 e 1940, além de enxadrista e amigo de
Monteiro Lobato, com quem trabalhou na Revista do Brasil,
Tácito dividiu seu romance em oito capítulos,
com cortes que remetem a tempos anteriores à
ação narrativa.
Para a pesquisadora, Madame Pommery efetua uma espécie
de crônica de São Paulo. Ao mesmo tempo,
inova em termos temáticos ao eleger a prostituição
como atividade de inserção social, e se
coloca como anunciadora da literatura modernista principalmente
pelos seus personagens, que funcionam como tipos e caricaturas,
algo bem ao gosto de Oswald de Andrade.
O estudo de Sandra tem o grande mérito de tirar
a produção de Tácito do relativo
esquecimento em que se encontra, tratando-a como um
marco da fase pré-modernista, que, se não
pretende a excelência, também não
pode ser posta de lado como obra de pouco quilate.
(O.D.)
Entre a biblioteca e o bordel: a sátira
narrativa de Hilário Tácito
Sandra A. Ferreira; Editora UNESP; 132 páginas;
R$ 24,00.
Informações: www.editoraunesp.com.br
Oscar D'Ambrosio
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