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Abril/2008 – Ano XXI – nº 232   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::

Literatura
Especialista traduz Petrônio
Docente dividiu Satíricon em 20 partes e fez comentários sobre contexto da cultura romana

Em fevereiro, foi lançado pela Editora Cosac & Naify o clássico Satíricon, livro escrito por Petrônio, com tradução de Cláudio Aquati, professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), câmpus de São José do Rio Preto (272 páginas, R$ 55,00). Com dois mil anos de vida, o livro é uma verdadeira escola de latim, literatura e costumes da época do Império Romano.

O tradutor estudou o Satíricon em seu mestrado e no doutorado. “Com o convite da editora, quis elaborar uma tradução completa, de tal forma que fosse ao mesmo tempo segura para o estudioso da matéria e atraente para os que apreciam a literatura em geral”, diz.

No mestrado, Aquati analisou e traduziu O banquete de Trimalquião, o trecho mais conhecido da obra, e, no doutorado, pesquisou a interferência do grotesco literário no Satíricon. Para o professor, o seu aprofundamento nos aspectos estilísticos e literários do livro contribuiu decisivamente para a realização da tradução.

“Petrônio emprega diversos níveis de linguagem e mistura gêneros literários para se adequar às próprias intencionalidades”, afirma o especialista. “Reconhecer tais níveis na obra de partida e buscar recursos lingüísticos adequados à sua expressão em português, bem como a percepção do contexto literário subjacente à obra, foi fundamental para a tradução.”

Obra em contexto

A edição, além de uma apresentação do poeta Raymond Queneau, traz um posfácio em que Aquati contextualiza o livro, apresenta sugestões de leitura, um mapa com o trajeto das personagens e imagens de objetos do cotidiano romano e de situações citadas na obra. Na opinião do tradutor, Satíricon dialoga amplamente com a literatura de sua época: “Não é difícil identificar em seu substrato literário referências a textos como os da Ilíada, da Odisséia, da Eneida, da Priapéia grega e latina e do romance grego”, esclarece.

Aquati enfatiza que, apesar de hoje restarem apenas fragmentos do livro, os fatores de ordem cultural e social presentes no texto levam a crer que tenha sido escrito por volta de 60 d.C. O docente do Ibilce destaca que Petrônio sempre utiliza um discurso adequado às características da personagem que o produz. “Conhecido como um texto imoral e mesmo obsceno, em termos de linguagem, raríssimas vezes se encontra o baixo calão no Satíricon”, assinala.

Para Aquati, o diferencial de sua tradução, além dos comentários, está na divisão que realizou em 20 partes. Em relação às outras versões da obra existentes no Brasil e em Portugal, critica a de Paulo Leminski (Brasiliense, 1985) e elogia a de Delfim Leão (Lisboa, Cotovia, 2005). Considera Leminski um desbravador na divulgação de Petrônio, mas avalia que seu “tom radicalmente contemporâneo afasta-se em demasia do original latino”. “Delfim Leão traduziu com sabor e apuro, e soube afinar o texto com o português falado hoje em Portugal”, avalia Aquati.

Atualmente, ele trabalha na tradução de O Asno de Ouro, de Apuleio. “Embora o quadro de traduções de obras latinas venha melhorando no Brasil, com a incansável produção das universidades, muitas vezes ainda nos faltam boas traduções de obras-chave para a abordagem da língua e da literatura nessa área”, acentua.

Lygia Aliberti e Oscar D’Ambrosio

 

 
  ACI