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Jornal UNESP :::
Abril/2008 – Ano XXI – nº 232   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: REPORTAGEM DE CAPA ::

Educação
A Universidade e a inclusão da diferença
Especialistas oferecem cursos e apoio para que docentes da rede pública possam atender às necessidades de crianças e jovens portadores de necessidades especiais, além de prestar serviços de extensão à comunidade

Garantir uma educação inclusiva no País é um desafio para os setores da Universidade que trabalham com a formação de professores para a educação básica. Um problema central, segundo especialistas, é a falta de qualificação docente para lidar com crianças e jovens com deficiência, além da precariedade de recursos para atender cada uma das dificuldades – auditiva, física, mental, visual e múltipla. Envolvidos no esforço de inclusão, pesquisadores da UNESP realizam ações como oferecer cursos de especialização para professores, em parceria com os governos municipais, estadual e federal, além de ações de extensão universitária. Outra questão que preocupa e mobiliza os vários cursos de Pedagogia é a adequação da grade curricular proposta pelas normas federais. (Veja quadro ao lado.)

“É comum, em classes de alunos com deficiência, que os professores se sintam angustiados por não conseguir dar conta nem do ensino regular e nem da inclusão”, afirma Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, do Departamento de Matemática, Estatística e Computação (Demec), da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), câmpus de Presidente Prudente. Elisa coordena o grupo de pesquisa Ambientes Potencializadores para Inclusão (API), que desenvolve atividades para auxiliar tanto a pessoa com deficiência como os profissionais da educação. Em Presidente Prudente e região, o API desenvolve o Projeto de Inclusão Digital, Escolar e Social, que atende a escolas promovendo a formação de educadores em serviço. Elisa explica que alunos de Fisioterapia e Pedagogia também acompanham os estudantes do ensino básico em suas dificuldades.

A docente também é subcoordenadora do Núcleo de Educação Cooporativa (NEC), que desenvolve softwares educacionais. Uma parceria entre o NEC e o Departamento de Educação Especial (DEE), da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), câmpus de Marília, possibilitou o oferecimento, a partir de abril, de dois cursos de especialização a distância com 120 horas-aula, para cerca de mil professores das redes estadual e municipal do País: um de Libras (Língua Brasileira de Sinais), coordenado por Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins, docente do DEE, e outro de Tecnologias Assistivas – que podem dar autonomia à pessoa com deficiência –, por Klaus Schlünzen Junior, presidente da Comissão de Ensino a Distância da UNESP. Os dois cursos são fruto de um convênio entre a Universidade e a Secretaria de Educação Especial do MEC.

Segundo Sandra, não basta que um aluno com perda auditiva esteja numa sala comum para ser considerado incluído. No caso do surdo usuário da língua de sinais, se não houver um intérprete na sala, ele terá dificuldades para dominar o currículo da escola. Além disso, muitos surdos chegam ao ensino fundamental sem uma base lingüística estável (oral ou sinalizada), o que pode dificultar seu desenvolvimento cognitivo e acadêmico. “Diferentemente do deficiente visual, que consegue ouvir e expressar-se oralmente, o surdo que não desenvolve um sistema de linguagem pode permanecer à margem do processo educacional”, comenta Sandra.

Formação de educadores

De acordo com a pedagoga Anna Augusta Sampaio de Oliveira, também do DEE, os tropeços da educação inclusiva começam na reorganização de um sistema educacional que já carrega problemas graves. “As escolas precisam se adequar para acolher a diversidade de crianças em um País multicultural. E, entre essas diferenças, estão as deficiências”, destaca. Por meio de um acordo com a Prefeitura de São Paulo, Anna Augusta coordena um curso de Formação de Professores em Educação Especial, com 495 horas-aula, que prepara especialistas para trabalhar nas estruturas de apoio já existentes.

Também docente da FFC, a pedagoga Rosimar Bortolini Poker é coordenadora do curso Formação em Educação Inclusiva, para educadores de Marília. Rosimar assinala que é fundamental uma mudança de atitude do professor e de toda a comunidade escolar, em relação à inclusão. “Mas, para que isso ocorra, é necessário o investimento na formação docente”, ressalta. “Os ambientes físicos também necessitam ser repensados do ponto de vista da arquitetura e dos recursos materiais.”

Apoio pedagógico

Além dos cursos, os docentes de Marília prestam serviços de apoio pedagógico especializado em diversas cidades. Em Paraguaçu Paulista, por exemplo, os professores recebem capacitação e há salas com recursos para a suplementação do conteúdo escolar transmitido na classe comum. “Foi constituída uma rede de suporte para que o educador não se sinta só em sala de aula”, enfatiza Anna Augusta.

“Parte das atividades propostas são reflexões acerca de educação inclusiva a partir da análise do cotidiano em sala de aula”, completa a psicóloga Lúcia Pereira Leite, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru, que integra a equipe. Lúcia coordenou uma pesquisa realizada em uma unidade escolar da rede estadual de Bauru, que revelou que 67% dos educadores sentem falta de formação específica e recursos didático-pedagógicos que amparem suas atividades na área de inclusão.

Na opinião dos especialistas, o fundamental na educação inclusiva é a mudança de foco, de uma visão individual, centrada na pessoa com deficiência, para uma interacionista, que considera as relações sociais. “Neste caso, é a sociedade que deve aprender a valorizar as competências do deficiente”, assinala Anna Augusta. “Na rotina escolar, é importante a convivência da criança comum com aquelas que apresentam alguma dificuldade.” Segundo a docente, os processos de inclusão demandam atividades dinâmicas e não padronizadas, e isso exige adequações nos currículos da rede escolar, nos planejamentos pedagógicos e nas formas de avaliação.

Ações de extensão

Unidade auxiliar que funciona no câmpus de Marília, o Centro de Estudos da Educação e da Saúde (Cees), desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão. Ao mesmo tempo em que proporciona estágio para os alunos de Pegagogia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Biblioteconomia, o Cees atende cerca de 2,6 mil pessoas da região por mês. “O atendimento é vinculado ao estágio nas diferentes áreas”, diz a coordenadora, a fonoaudióloga Débora Deliberato. Paralelamente, o Centro acompanha pessoas com deficiência nas escolas e outras instituições.

Na área esportiva, em Presidente Prudente, o educador Paulo Brancatti, do Departamento de Educação da FCT, realiza o Projeto de Atividade Motora Adaptada, com o apoio da Pró-reitoria de Extensão (Proex) e da Fundação para o Desenvolvimento da UNESP (Fundunesp). Desde 2002, ele treina uma equipe de basquetebol sobre rodas, com 15 integrantes, que disputa o Campeonato Paulista Paradesporto. “O esporte resgata esse grupo para uma nova vida”, diz Brancatti. Em 2005 o Projeto absorveu a modalidade paradesportiva Atletismo, cuja equipe envolve oito competidores, entre eles um aluno da FCT (veja quadro). E, em 2007, foi formada uma equipe de Natação, com três pessoas.

Contra o estigma

A pedagoga Rosimar Bortolini Poker, do DEE, afirma que a proposta da inclusão é formar uma sociedade que saiba lidar com a diversidade. “Somente a educação pode promover uma evolução na maneira como as pessoas vêem o diferente e como o diferente vê a si próprio”, destaca. O comportamento preconceituoso, na opinião de Maria Candida Soares Del-Masso, vice-diretora da FFC, câmpus de Marília, é quase sempre uma reação ao incômodo que representa a figura da pessoa com deficiência. “Na vida prática, o preconceito se manifesta com a exclusão dessas pessoas do convívio social”, afirma.

Também docente da FFC, o psicólogo Sadao Omote, coordenador do Grupo de Estudos Deficiência, Diferença e Estigma, que investiga os comportamentos frente à inclusão, alerta que esse processo é longo e deve representar melhoria na qualidade de vida para todas as pessoas, inclusive as deficientes, assegurando a todas elas o exercício pleno de seus direitos. “Para que isso ocorra, é necessário o empenho tanto da sociedade quanto do deficiente”, diz. “É também importante que o deficiente seja capacitado, dentro do que a sua condição permite, para enfrentar as demandas socias.”

Resolução extinguiu habilitações em Pedagogia

O Brasil assumiu a inclusão do deficiente no ensino regular como uma política pública a partir de 2001, com a Resolução nº 2 do CNE (Conselho Nacional de Educação), que institui as Diretrizes Nacionais para a educação de alunos com necessidades especiais. Esse documento representa um avanço em relação ao modelo anterior, no qual a pessoa com deficiência deveria ser preparada para se adaptar às condições da escola. A Resolução garante a essa pessoa o direito de ser matriculada em classes regulares preparadas para recebê-la.

Em razão das atuais diretrizes curriculares dos cursos de Pedagogia, que extinguem as habilitações, muitos cursos passaram a contemplar disciplinas voltadas à educação inclusiva. “As habilitações davam ao futuro educador a possibilidade de optar por uma preparação mais aprofundada sobre o tema escolhido”, enfatiza Maria Candida Soares Del-Masso, vice-diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), câmpus de Marília. De modo geral, os docentes da Universidade concordam que apenas a inclusão de disciplinas na grade não dá conta da capacitação exigida pela prática da inclusão. Mesmo assim, as grades dos cursos de Araraquara, Bauru, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro e São José do Rio Preto já foram reestruturadas.

Entre as novas disciplinas oferecidas pelo curso de Pedagogia da FFC, consta a de Língua Brasileira de Sinais (Libras). “A disciplina dará noções básicas sobre esse sistema lingüístico, mostrando como é importante a sua compreensão para o desenvolvimento escolar do aluno”, esclarece a pedagoga da FFC Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins. De acordo com a pró-reitora de Graduação, Sheila Zambello de Pinho, a disciplina será oferecida a distância para os alunos dos cursos de licenciatura e de Fonoaudiologia da UNESP, como determina o Decreto Federal 5.626/05.

Para a assessora da Pró-reitoria de Graduação, Leonor Maria Tanuri, a finalidade e os conteúdos da educação devem ser iguais para todos. “A Pedagogia faz a preparação para a inclusão; por outro lado, há a necessidade de especialistas para orientar o processo inclusivo”, diz. De acordo com a assessora, a Universidade encaminhou ao Conselho Estadual de Educação sugestões para a regulamentação dos cursos de especialização voltados para a educação inclusiva.

 

Um exemplo de persistência

Aluno do 3º ano de Licenciatura em Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia, em Presidente Prudente, Renan de Souza, 25 anos, adquiriu paralisia cerebral por um acidente na hora do parto. No ensino médio, teve sua matrícula recusada porque os professores achavam que ele não acompanharia o curso. Para conquistar a vaga na Universidade, freqüentou por quatro anos o cursinho Educafro. Renan esclarece que não tem dificuldade cognitiva, apenas de escrita, o que lhe valeu uma hora a mais nas provas de vestibular e a ajuda de um fiscal para transcrever suas respostas. Participante da equipe de atletismo paradesportivo da UNESP, Renan conta que a maior barreira que enfrenta é mesmo o estigma.

Genira Chagas

 

 
  ACI