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Educação
A Universidade e a inclusão da diferença
Especialistas oferecem cursos e apoio para que
docentes da rede pública possam atender às
necessidades de crianças e jovens portadores
de necessidades especiais, além de prestar serviços
de extensão à comunidade
Garantir uma educação
inclusiva no País é um desafio para os
setores da Universidade que trabalham com a formação
de professores para a educação básica.
Um problema central, segundo especialistas, é
a falta de qualificação docente para lidar
com crianças e jovens com deficiência,
além da precariedade de recursos para atender
cada uma das dificuldades auditiva, física,
mental, visual e múltipla. Envolvidos no esforço
de inclusão, pesquisadores da UNESP realizam
ações como oferecer cursos de especialização
para professores, em parceria com os governos municipais,
estadual e federal, além de ações
de extensão universitária. Outra questão
que preocupa e mobiliza os vários cursos de Pedagogia
é a adequação da grade curricular
proposta pelas normas federais. (Veja quadro ao lado.)
É comum, em classes de alunos com deficiência,
que os professores se sintam angustiados por não
conseguir dar conta nem do ensino regular e nem da inclusão,
afirma Elisa Tomoe Moriya Schlünzen, do Departamento
de Matemática, Estatística e Computação
(Demec), da Faculdade de Ciências e Tecnologia
(FCT), câmpus de Presidente Prudente. Elisa coordena
o grupo de pesquisa Ambientes Potencializadores para
Inclusão (API), que desenvolve atividades para
auxiliar tanto a pessoa com deficiência como os
profissionais da educação. Em Presidente
Prudente e região, o API desenvolve o Projeto
de Inclusão Digital, Escolar e Social, que atende
a escolas promovendo a formação de educadores
em serviço. Elisa explica que alunos de Fisioterapia
e Pedagogia também acompanham os estudantes do
ensino básico em suas dificuldades.
A docente também é subcoordenadora do
Núcleo de Educação Cooporativa
(NEC), que desenvolve softwares educacionais. Uma parceria
entre o NEC e o Departamento de Educação
Especial (DEE), da Faculdade de Filosofia e Ciências
(FFC), câmpus de Marília, possibilitou
o oferecimento, a partir de abril, de dois cursos de
especialização a distância com 120
horas-aula, para cerca de mil professores das redes
estadual e municipal do País: um de Libras (Língua
Brasileira de Sinais), coordenado por Sandra Eli Sartoreto
de Oliveira Martins, docente do DEE, e outro de Tecnologias
Assistivas que podem dar autonomia à pessoa
com deficiência , por Klaus Schlünzen
Junior, presidente da Comissão de Ensino a Distância
da UNESP. Os dois cursos são fruto de um convênio
entre a Universidade e a Secretaria de Educação
Especial do MEC.
Segundo Sandra, não basta que um aluno com
perda auditiva esteja numa sala comum para ser considerado
incluído. No caso do surdo usuário da
língua de sinais, se não houver um intérprete
na sala, ele terá dificuldades para dominar o
currículo da escola. Além disso, muitos
surdos chegam ao ensino fundamental sem uma base lingüística
estável (oral ou sinalizada), o que pode dificultar
seu desenvolvimento cognitivo e acadêmico. Diferentemente
do deficiente visual, que consegue ouvir e expressar-se
oralmente, o surdo que não desenvolve um sistema
de linguagem pode permanecer à margem do processo
educacional, comenta Sandra.
Formação de educadores
De acordo com a pedagoga Anna Augusta Sampaio de Oliveira,
também do DEE, os tropeços da educação
inclusiva começam na reorganização
de um sistema educacional que já carrega problemas
graves. As escolas precisam se adequar para acolher
a diversidade de crianças em um País multicultural.
E, entre essas diferenças, estão as deficiências,
destaca. Por meio de um acordo com a Prefeitura de São
Paulo, Anna Augusta coordena um curso de Formação
de Professores em Educação Especial, com
495 horas-aula, que prepara especialistas para trabalhar
nas estruturas de apoio já existentes.
Também docente da FFC, a pedagoga Rosimar Bortolini
Poker é coordenadora do curso Formação
em Educação Inclusiva, para educadores
de Marília. Rosimar assinala que é fundamental
uma mudança de atitude do professor e de toda
a comunidade escolar, em relação à
inclusão. Mas, para que isso ocorra, é
necessário o investimento na formação
docente, ressalta. Os ambientes físicos
também necessitam ser repensados do ponto de
vista da arquitetura e dos recursos materiais.
Apoio pedagógico
Além dos cursos, os docentes de Marília
prestam serviços de apoio pedagógico especializado
em diversas cidades. Em Paraguaçu Paulista, por
exemplo, os professores recebem capacitação
e há salas com recursos para a suplementação
do conteúdo escolar transmitido na classe comum.
Foi constituída uma rede de suporte para
que o educador não se sinta só em sala
de aula, enfatiza Anna Augusta.
Parte das atividades propostas são reflexões
acerca de educação inclusiva a partir
da análise do cotidiano em sala de aula,
completa a psicóloga Lúcia Pereira Leite,
do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências
(FC), câmpus de Bauru, que integra a equipe. Lúcia
coordenou uma pesquisa realizada em uma unidade escolar
da rede estadual de Bauru, que revelou que 67% dos educadores
sentem falta de formação específica
e recursos didático-pedagógicos que amparem
suas atividades na área de inclusão.
Na opinião dos especialistas, o fundamental
na educação inclusiva é a mudança
de foco, de uma visão individual, centrada na
pessoa com deficiência, para uma interacionista,
que considera as relações sociais. Neste
caso, é a sociedade que deve aprender a valorizar
as competências do deficiente, assinala
Anna Augusta. Na rotina escolar, é importante
a convivência da criança comum com aquelas
que apresentam alguma dificuldade. Segundo a docente,
os processos de inclusão demandam atividades
dinâmicas e não padronizadas, e isso exige
adequações nos currículos da rede
escolar, nos planejamentos pedagógicos e nas
formas de avaliação.
Ações de extensão
Unidade auxiliar que funciona no câmpus de Marília,
o Centro de Estudos da Educação e da Saúde
(Cees), desenvolve atividades de ensino, pesquisa e
extensão. Ao mesmo tempo em que proporciona estágio
para os alunos de Pegagogia, Fonoaudiologia, Fisioterapia,
Terapia Ocupacional e Biblioteconomia, o Cees atende
cerca de 2,6 mil pessoas da região por mês.
O atendimento é vinculado ao estágio
nas diferentes áreas, diz a coordenadora,
a fonoaudióloga Débora Deliberato. Paralelamente,
o Centro acompanha pessoas com deficiência nas
escolas e outras instituições.
Na área esportiva, em Presidente Prudente, o
educador Paulo Brancatti, do Departamento de Educação
da FCT, realiza o Projeto de Atividade Motora Adaptada,
com o apoio da Pró-reitoria de Extensão
(Proex) e da Fundação para o Desenvolvimento
da UNESP (Fundunesp). Desde 2002, ele treina uma equipe
de basquetebol sobre rodas, com 15 integrantes, que
disputa o Campeonato Paulista Paradesporto. O
esporte resgata esse grupo para uma nova vida,
diz Brancatti. Em 2005 o Projeto absorveu a modalidade
paradesportiva Atletismo, cuja equipe envolve oito competidores,
entre eles um aluno da FCT (veja quadro). E, em 2007,
foi formada uma equipe de Natação, com
três pessoas.
Contra o estigma
A pedagoga Rosimar Bortolini Poker, do DEE, afirma
que a proposta da inclusão é formar uma
sociedade que saiba lidar com a diversidade. Somente
a educação pode promover uma evolução
na maneira como as pessoas vêem o diferente e
como o diferente vê a si próprio,
destaca. O comportamento preconceituoso, na opinião
de Maria Candida Soares Del-Masso, vice-diretora da
FFC, câmpus de Marília, é quase
sempre uma reação ao incômodo que
representa a figura da pessoa com deficiência.
Na vida prática, o preconceito se manifesta
com a exclusão dessas pessoas do convívio
social, afirma.
Também docente da FFC, o psicólogo Sadao
Omote, coordenador do Grupo de Estudos Deficiência,
Diferença e Estigma, que investiga os comportamentos
frente à inclusão, alerta que esse processo
é longo e deve representar melhoria na qualidade
de vida para todas as pessoas, inclusive as deficientes,
assegurando a todas elas o exercício pleno de
seus direitos. Para que isso ocorra, é
necessário o empenho tanto da sociedade quanto
do deficiente, diz. É também
importante que o deficiente seja capacitado, dentro
do que a sua condição permite, para enfrentar
as demandas socias.
| Resolução
extinguiu habilitações em Pedagogia |
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O Brasil assumiu a inclusão
do deficiente no ensino regular como uma
política pública a partir
de 2001, com a Resolução nº
2 do CNE (Conselho Nacional de Educação),
que institui as Diretrizes Nacionais para
a educação de alunos com necessidades
especiais. Esse documento representa um
avanço em relação ao
modelo anterior, no qual a pessoa com deficiência
deveria ser preparada para se adaptar às
condições da escola. A Resolução
garante a essa pessoa o direito de ser matriculada
em classes regulares preparadas para recebê-la.
Em razão das atuais diretrizes curriculares
dos cursos de Pedagogia, que extinguem as
habilitações, muitos cursos
passaram a contemplar disciplinas voltadas
à educação inclusiva.
As habilitações davam
ao futuro educador a possibilidade de optar
por uma preparação mais aprofundada
sobre o tema escolhido, enfatiza Maria
Candida Soares Del-Masso, vice-diretora
da Faculdade de Filosofia e Ciências
(FFC), câmpus de Marília. De
modo geral, os docentes da Universidade
concordam que apenas a inclusão de
disciplinas na grade não dá
conta da capacitação exigida
pela prática da inclusão.
Mesmo assim, as grades dos cursos de Araraquara,
Bauru, Marília, Presidente Prudente,
Rio Claro e São José do Rio
Preto já foram reestruturadas.
Entre as novas disciplinas oferecidas pelo
curso de Pedagogia da FFC, consta a de Língua
Brasileira de Sinais (Libras). A disciplina
dará noções básicas
sobre esse sistema lingüístico,
mostrando como é importante a sua
compreensão para o desenvolvimento
escolar do aluno, esclarece a pedagoga
da FFC Sandra Eli Sartoreto de Oliveira
Martins. De acordo com a pró-reitora
de Graduação, Sheila Zambello
de Pinho, a disciplina será oferecida
a distância para os alunos dos cursos
de licenciatura e de Fonoaudiologia da UNESP,
como determina o Decreto Federal 5.626/05.
Para a assessora da Pró-reitoria
de Graduação, Leonor Maria
Tanuri, a finalidade e os conteúdos
da educação devem ser iguais
para todos. A Pedagogia faz a preparação
para a inclusão; por outro lado,
há a necessidade de especialistas
para orientar o processo inclusivo,
diz. De acordo com a assessora, a Universidade
encaminhou ao Conselho Estadual de Educação
sugestões para a regulamentação
dos cursos de especialização
voltados para a educação inclusiva.
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| Um exemplo
de persistência |
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Aluno do 3º ano de Licenciatura
em Matemática da Faculdade de Ciências
e Tecnologia, em Presidente Prudente, Renan
de Souza, 25 anos, adquiriu paralisia cerebral
por um acidente na hora do parto. No ensino
médio, teve sua matrícula
recusada porque os professores achavam que
ele não acompanharia o curso. Para
conquistar a vaga na Universidade, freqüentou
por quatro anos o cursinho Educafro. Renan
esclarece que não tem dificuldade
cognitiva, apenas de escrita, o que lhe
valeu uma hora a mais nas provas de vestibular
e a ajuda de um fiscal para transcrever
suas respostas. Participante da equipe de
atletismo paradesportivo da UNESP, Renan
conta que a maior barreira que enfrenta
é mesmo o estigma.
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Genira Chagas
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