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Abril/2008 – Ano XXI – nº 232   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::

Sociologia
A Amazônia na visão de Euclides
Textos menos conhecidos do autor de Os sertões enfatizaram importância da região para o País

Quando pensamos no escritor Euclides da Cunha, logo lembramos de sua obra-prima, Os sertões, sobre o conflito de Canudos, na Bahia. No entanto, o jornalista fluminense também se interessou por fronteiras, história hispano-americana, ação do homem na Amazônia e importância dessa região na história do Brasil.

Trabalhar com o material menos conhecido de Euclides foi justamente a motivação de Ieda Valquiria Magalhães Ramon em sua dissertação de mestrado A Amazônia e o Pacífico em Euclides da Cunha: no centro da história, apresentada na área de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), câmpus de Araraquara.

A pesquisa, orientada por Enrique Amayo Zevallos, da FCL, recupera temas de grande atualidade tratados pelo escritor e jornalista, como integração sul-americana, políticas públicas das nações da região, principalmente Brasil e Peru, com o propósito último de possibilitar uma saída nacional para o Oceano Pacífico. “Uma preocupação dele era estudar a utilização multimodal e transnacional dos meios de transporte”, comenta Ieda.

Para a pesquisadora, foi a partir de uma viagem à Amazônia que Euclides travou contato com esse amplo território, composto por um sistema hidrográfico invejável, já que a Bacia Amazônica inclui Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O autor de Os sertões assegurava estar no Pacífico a última fronteira de recursos econômicos que faltava para conectar o mundo inteiro, ligando China, Japão, Austrália, Ásia e Índia aos EUA. “Essas análises encontram reforço hoje, no momento em que o Brasil e a Ásia estão cada vez mais interligados economicamente”, comenta a socióloga.

Ênfase nos transportes

Ieda lembra que, na visita do presidente Lula a Pequim, em 2004, os dirigentes chineses enfatizaram a necessidade do escoamento da soja do Centro-Oeste brasileiro por algum porto no Pacífico, diminuindo as distâncias e, por conseguinte, os custos de importação. “Pensou-se então, como já apontava Euclides, num esforço conjunto de investimento na recuperação da malha ferroviária onde exista saída desse produto”, lembra Ieda.

Os principais textos analisados pela pesquisadora são O primado do Pacífico, A Transacreana e Viação sul-americana, reunidos no livro À margem da História, de 1909. “Sua proposta deve ser lida como a de um engenheiro que busca executar a modernização da nação recém-saída da administração monárquica”, esclarece Ieda. “Para alcançar esse objetivo, devido à sua especialidade profissional, indica os transportes. Para efetivá-la, descreve com acuidade e detalhamento técnico as ferrovias e as hidrovias.”

Ao fazer, por exemplo, o Relatório da Comissão Mista Brasileira Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, em 1906, Euclides revela sua indignação com o subaproveitamento desse rio, defendendo seu potencial de navegabilidade. “Transportes como ferrovia e hidrovia seriam os artefatos que auxiliariam no processo de consolidação da unidade nacional, interligando o Brasil do litoral com os demais Estados federativos e também com os vizinhos sul-americanos, tarefa imprescindível em um país de dimensões importantes e com população mal distribuída”, avalia a socióloga.

Novas fronteiras

A Transacreana, nome dado à ferrovia arquitetada por Euclides, teria múltiplos fins, como distribuir um povoamento muito centrado nos Estados parceiros do Oceano Atlântico e fazer crescer o tráfego na região acreana. “Ela ligaria o norte do Acre à cidade de Rio Branco, no sul, num projeto que corresponde ao que hoje resta da BR 364, aproximando consideravelmente o Brasil do Pacífico”, explica Ieda.

A pesquisadora considera o autor à frente de seu tempo, embora alerte que as análises de Euclides sobre temas como emergência dos mercados do Japão e da Ásia, imperialismo estadunidense e modernização pelos meios de transporte, publicadas em jornal, livros e cartas entre 1904 e 1909, foram escritas a partir de acontecimentos imediatos. “Ele enveredou por novas fronteiras e por temas que ainda não se punham por inteiro diante dos olhos e do entendimento de grande parte da intelectualidade brasileira”, comenta.

Euclides, para Ieda, sugeriu ser crucial para o Brasil integrar-se aos seus vizinhos da América do Sul, dedicando especial atenção ao Peru, sempre tendo em vista uma rota para o Pacífico. “Suas idéias a esse respeito podem ser consideradas visionárias. Ele intuía que esse esforço seria fundamental para o desenvolvimento do Brasil”, afirma.

Experiência na floresta

O escritor, sociólogo, repórter, historiador e engenheiro Euclides da Cunha (1866-1909) teve um período amazônico. Em agosto de 1904, foi nomeado chefe da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus, com o objetivo de cooperar para a demarcação de limites entre o Brasil e o Peru. Ele partiu de Manaus para as nascentes do Rio Purus, chegando adoentado em agosto de 1905. Dando continuidade aos estudos de fronteiras, Euclides escreveu o ensaio Peru versus Bolívia, publicado em 1907. Seus escritos sobre a região foram reunidos postumamente, em 1909, em À margem da História, onde também denunciou a exploração dos seringueiros na floresta.

 

Oscar D’Ambrosio

 
  ACI