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Sociologia
A Amazônia na visão de Euclides
Textos menos conhecidos do autor de Os sertões
enfatizaram importância da região para
o País
Quando pensamos no escritor
Euclides da Cunha, logo lembramos de sua obra-prima,
Os sertões, sobre o conflito de Canudos, na Bahia.
No entanto, o jornalista fluminense também se
interessou por fronteiras, história hispano-americana,
ação do homem na Amazônia e importância
dessa região na história do Brasil.
Trabalhar com o material menos conhecido de Euclides
foi justamente a motivação de Ieda Valquiria
Magalhães Ramon em sua dissertação
de mestrado A Amazônia e o Pacífico em
Euclides da Cunha: no centro da história, apresentada
na área de Sociologia da Faculdade de Ciências
e Letras (FCL), câmpus de Araraquara.
A pesquisa, orientada por Enrique Amayo Zevallos, da
FCL, recupera temas de grande atualidade tratados pelo
escritor e jornalista, como integração
sul-americana, políticas públicas das
nações da região, principalmente
Brasil e Peru, com o propósito último
de possibilitar uma saída nacional para o Oceano
Pacífico. Uma preocupação
dele era estudar a utilização multimodal
e transnacional dos meios de transporte, comenta
Ieda.
Para a pesquisadora, foi a partir de uma viagem à
Amazônia que Euclides travou contato com esse
amplo território, composto por um sistema hidrográfico
invejável, já que a Bacia Amazônica
inclui Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador,
Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O autor de Os sertões
assegurava estar no Pacífico a última
fronteira de recursos econômicos que faltava para
conectar o mundo inteiro, ligando China, Japão,
Austrália, Ásia e Índia aos EUA.
Essas análises encontram reforço
hoje, no momento em que o Brasil e a Ásia estão
cada vez mais interligados economicamente, comenta
a socióloga.
Ênfase nos transportes
Ieda lembra que, na visita do presidente Lula a Pequim,
em 2004, os dirigentes chineses enfatizaram a necessidade
do escoamento da soja do Centro-Oeste brasileiro por
algum porto no Pacífico, diminuindo as distâncias
e, por conseguinte, os custos de importação.
Pensou-se então, como já apontava
Euclides, num esforço conjunto de investimento
na recuperação da malha ferroviária
onde exista saída desse produto, lembra
Ieda.
Os principais textos analisados pela pesquisadora são
O primado do Pacífico, A Transacreana e Viação
sul-americana, reunidos no livro À margem da
História, de 1909. Sua proposta deve ser
lida como a de um engenheiro que busca executar a modernização
da nação recém-saída da
administração monárquica,
esclarece Ieda. Para alcançar esse objetivo,
devido à sua especialidade profissional, indica
os transportes. Para efetivá-la, descreve com
acuidade e detalhamento técnico as ferrovias
e as hidrovias.
Ao fazer, por exemplo, o Relatório da Comissão
Mista Brasileira Peruana de Reconhecimento do Alto Purus,
em 1906, Euclides revela sua indignação
com o subaproveitamento desse rio, defendendo seu potencial
de navegabilidade. Transportes como ferrovia e
hidrovia seriam os artefatos que auxiliariam no processo
de consolidação da unidade nacional, interligando
o Brasil do litoral com os demais Estados federativos
e também com os vizinhos sul-americanos, tarefa
imprescindível em um país de dimensões
importantes e com população mal distribuída,
avalia a socióloga.
Novas fronteiras
A Transacreana, nome dado à ferrovia arquitetada
por Euclides, teria múltiplos fins, como distribuir
um povoamento muito centrado nos Estados parceiros do
Oceano Atlântico e fazer crescer o tráfego
na região acreana. Ela ligaria o norte
do Acre à cidade de Rio Branco, no sul, num projeto
que corresponde ao que hoje resta da BR 364, aproximando
consideravelmente o Brasil do Pacífico,
explica Ieda.
A pesquisadora considera o autor à frente de
seu tempo, embora alerte que as análises de Euclides
sobre temas como emergência dos mercados do Japão
e da Ásia, imperialismo estadunidense e modernização
pelos meios de transporte, publicadas em jornal, livros
e cartas entre 1904 e 1909, foram escritas a partir
de acontecimentos imediatos. Ele enveredou por
novas fronteiras e por temas que ainda não se
punham por inteiro diante dos olhos e do entendimento
de grande parte da intelectualidade brasileira,
comenta.
Euclides, para Ieda, sugeriu ser crucial para o Brasil
integrar-se aos seus vizinhos da América do Sul,
dedicando especial atenção ao Peru, sempre
tendo em vista uma rota para o Pacífico. Suas
idéias a esse respeito podem ser consideradas
visionárias. Ele intuía que esse esforço
seria fundamental para o desenvolvimento do Brasil,
afirma.
| Experiência
na floresta |
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O escritor, sociólogo, repórter,
historiador e engenheiro Euclides da Cunha
(1866-1909) teve um período amazônico.
Em agosto de 1904, foi nomeado chefe da
comissão mista brasileiro-peruana
de reconhecimento do Alto Purus, com o objetivo
de cooperar para a demarcação
de limites entre o Brasil e o Peru. Ele
partiu de Manaus para as nascentes do Rio
Purus, chegando adoentado em agosto de 1905.
Dando continuidade aos estudos de fronteiras,
Euclides escreveu o ensaio Peru versus Bolívia,
publicado em 1907. Seus escritos sobre a
região foram reunidos postumamente,
em 1909, em À margem da História,
onde também denunciou a exploração
dos seringueiros na floresta.
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Oscar DAmbrosio
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