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Dezembro/2007 – Ano XXI – nº 229   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::

História
SERMÕES para um país em construção
Dissertação destaca influência dos textos de Frei Francisco do Monte Alverne no início do século XIX

A sermonística, ou seja, a arte de redigir e pregar sermões, é tratada pelos pesquisadores brasileiros com menos entusiasmo do que o conferido aos autores desses textos. Embora historiadores já se tenham dedicado ao estudo dos padres Antonio Vieira e Januário da Cunha Barbosa, ainda são poucos os trabalhos a respeito do gênero. Mais reduzidas ainda são as reflexões sobre as características que possam unir os oradores sacros em sua atividade.

Pensando em suprir essa lacuna, Maria Renata da Cruz Duran realizou a dissertação de mestrado Frei Francisco do Monte Alverne e a sermonística no Rio de Janeiro de D. João VI, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Direito, História e Serviço Social (FDHSS), câmpus de Franca. O trabalho recebeu o prêmio Monografias 2007, oferecido pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, que elegeu o tema “Transferência da corte portuguesa para o Brasil”. Maria Renata foi a primeira brasileira a receber a honraria.

Sob orientação do docente Jean Marcel Carvalho França, a pesquisadora verificou como a sermonística, no primeiro quartel do século XIX, abrigou a maior quantidade de oradores sacros, bem como registrou a maior representatividade deles na sociedade vigente. “O apoio de D. João VI, apreciador do gênero, contribuiu muito para o desenvolvimento do espaço e da importância ocupados pela sermonística no Brasil oitocentista”, diz Maria Renata.

Eram destaques da sermonística, além de Vieira e Barbosa, os freis São Carlos, Souza Caldas, Sampaio e Francisco do Monte Alverne. “Apenas este último publicou um livro, Obras oratórias, em 1853, com a reunião de seus sermões. Conseguiu isso pelo apoio do poeta romântico Gonçalves de Magalhães e pelo fato de destacar-se mais na época devido à sua eloqüência”, avalia a pesquisadora, que realiza seu doutorado em Franca.

Função dos sermões

O trabalho mostra como a oratória sagrada no Brasil oitocentista tinha um papel peculiar, pois o País possuía poucos leitores e a palavra falada era o principal subsídio às discussões locais. Com uma corte recém-chegada e um sistema administrativo ainda em formação, um dos poucos espaços que reuniam a população era a Igreja. “Na Capela Real, aos domingos, aconteciam os sermões. E eram muitos os pregadores reais, entre eles o Frei Francisco do Monte Alverne”, aponta Maria Renata.

A dissertação analisa a contribuição da sermonística para a construção de uma identidade brasileira, propondo um olhar acerca do tema, dos discursos e do perfil de Alverne. “A sermonística destacou-se como elemento preponderante na prática articuladora de idéias e, mais especificamente, de um tema: a pátria”, avalia a pesquisadora.

De acordo com Maria Renata, o frei se convencera que devia mostrar ao povo brasileiro a importância do patriotismo. Considerado o mais sábio e o mais religioso dos sermonistas, ele conseguiu, de acordo com o estudo premiado, acentuar a crença de que as pessoas mais ilustradas tinham uma missão de comprometimento com a cultura nacional. “Para ele, alguns homens, como os de letras, eram dotados de maiores capacidades que os demais e, por isso, deveriam colocar seu gênio a serviço de todos”, analisa a historiadora. “Ele acreditava que a tarefa dos pregadores era justamente a de proteger e guiar a população pelo caminho do bem que, no período da ilustração, era o caminho da instrução da mocidade.”

Formação de um público

Segundo o estudo, Monte Alverne teve a atuação mais “ordinária” e a mais “extraordinária” dos sermonistas do Rio de Janeiro. “Ordinária, porque ele não destoou de nenhuma das características afiançadas aos seus companheiros de púlpito. Extraordinária, porque a popularidade alcançada pela sua oratória incrementou a formação de uma opinião pública no Rio de Janeiro joanino, reafirmou o perfil do intelectual do período e contribuiu para a popularização de uma linguagem, feitos já esboçados por seus parceiros de oratória”, argumenta a pesquisadora.

As principais características de Monte Alverne eram o gosto pela novidade, pelo reformismo, pela ilustração, pelo humanismo, pelas idéias de libertação e de espiritualidade e pelo exemplo histórico. Arraigado defensor do “culto do eu”, acreditava no individualismo e valorizava, assim, a idéia de missão, tão cara aos pregadores.

Nos sermões, o frei promoveu a afirmação do vínculo entre a idéia de pátria e de Brasil, mediada por um debate inspirado pela contemporaneidade do romantismo, que, ainda em estágio embrionário no Brasil, pôde se valer das idéias veiculadas nos seus sermões. “A intelligentsia brasileira deve a Alverne os esforços iniciais para a formação de um público consumidor de cultura, de um discurso com características que se reclamavam ‘brasileiras’ e de uma postura para o intelectual do País”, conclui Maria Renata.

“Senhores eleitores, não esqueçais as lições da história; não desprezeis os conselhos da experiência. Quando uma nação é desgraçadamente mal representada, só espera das revoluções um estado de coisas mais feliz; e expõe-se a ser o ludibrio, e instrumento de todo o faccioso que se apresenta para socorrê-la. O povo liga-se por instinto àquele, que tem bastante valor para falar em seu abono; aprova as reclamações feitas em seu nome; e prefere muitas vezes para seus intérpretes, ambiciosos, e hipócritas, que o seduzem, prometendo seu auxílio; e destroem o Estado pretextando defendê-lo.”


Discurso recitado no dia 28 de maio de 1833, na Capela Imperial do Rio de Janeiro, perante o colégio eleitoral, reunido para proceder à eleição de um senador daquela província

 

Precursor do romantismo

Apontado por Gonçalves de Magalhães como precursor das idéias românticas no Brasil, Frei Francisco do Monte Alverne nasceu em 1783, no Rio de Janeiro, e faleceu em 1858, em Niterói. Estudou Teologia no Convento São Francisco de Assis, em São Paulo. Alcançou o posto de Pregador Real em 1816, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Recolheu-se da cena pública quando foi tomado pela cegueira, em 1836.

Em 1854, ganhou de D. Pedro II uma cadeira, que supostamente havia pertencido ao Padre José de Anchieta, durante uma negociação feita para que ele voltasse a pregar. Após a visita do imperador à sua cela franciscana, Monte Alverne aceitou pregar uma última vez, em 19 de outubro de 1854, falando sobre o padroeiro do Brasil e de D. Pedro II, São Pedro de Alcântara. O evento movimentou a corte e foi assistido, além do imperador e de Magalhães, por José de Alencar, Araújo Porto Alegre e Joaquim Manuel de Macedo, entre outros intelectuais da época.

Oscar D’Ambrosio


 
  ACI