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História
SERMÕES para um país em construção
Dissertação
destaca influência dos textos de Frei Francisco
do Monte Alverne no início do século XIX
A sermonística,
ou seja, a arte de redigir e pregar sermões,
é tratada pelos pesquisadores brasileiros com
menos entusiasmo do que o conferido aos autores desses
textos. Embora historiadores já se tenham dedicado
ao estudo dos padres Antonio Vieira e Januário
da Cunha Barbosa, ainda são poucos os trabalhos
a respeito do gênero. Mais reduzidas ainda são
as reflexões sobre as características
que possam unir os oradores sacros em sua atividade.
Pensando em suprir essa lacuna, Maria Renata da Cruz
Duran realizou a dissertação de mestrado
Frei Francisco do Monte Alverne e a sermonística
no Rio de Janeiro de D. João VI, apresentada
ao Programa de Pós-Graduação em
História da Faculdade de Direito, História
e Serviço Social (FDHSS), câmpus de Franca.
O trabalho recebeu o prêmio Monografias 2007,
oferecido pela Sociedade Histórica da Independência
de Portugal, que elegeu o tema Transferência
da corte portuguesa para o Brasil. Maria Renata
foi a primeira brasileira a receber a honraria.
Sob orientação do docente Jean Marcel
Carvalho França, a pesquisadora verificou como
a sermonística, no primeiro quartel do século
XIX, abrigou a maior quantidade de oradores sacros,
bem como registrou a maior representatividade deles
na sociedade vigente. O apoio de D. João
VI, apreciador do gênero, contribuiu muito para
o desenvolvimento do espaço e da importância
ocupados pela sermonística no Brasil oitocentista,
diz Maria Renata.
Eram destaques da sermonística, além
de Vieira e Barbosa, os freis São Carlos, Souza
Caldas, Sampaio e Francisco do Monte Alverne. Apenas
este último publicou um livro, Obras oratórias,
em 1853, com a reunião de seus sermões.
Conseguiu isso pelo apoio do poeta romântico Gonçalves
de Magalhães e pelo fato de destacar-se mais
na época devido à sua eloqüência,
avalia a pesquisadora, que realiza seu doutorado em
Franca.
Função dos sermões
O trabalho mostra como a oratória sagrada no
Brasil oitocentista tinha um papel peculiar, pois o
País possuía poucos leitores e a palavra
falada era o principal subsídio às discussões
locais. Com uma corte recém-chegada e um sistema
administrativo ainda em formação, um dos
poucos espaços que reuniam a população
era a Igreja. Na Capela Real, aos domingos, aconteciam
os sermões. E eram muitos os pregadores reais,
entre eles o Frei Francisco do Monte Alverne,
aponta Maria Renata.
A dissertação analisa a contribuição
da sermonística para a construção
de uma identidade brasileira, propondo um olhar acerca
do tema, dos discursos e do perfil de Alverne. A
sermonística destacou-se como elemento preponderante
na prática articuladora de idéias e, mais
especificamente, de um tema: a pátria,
avalia a pesquisadora.
De acordo com Maria Renata, o frei se convencera que
devia mostrar ao povo brasileiro a importância
do patriotismo. Considerado o mais sábio e o
mais religioso dos sermonistas, ele conseguiu, de acordo
com o estudo premiado, acentuar a crença de que
as pessoas mais ilustradas tinham uma missão
de comprometimento com a cultura nacional. Para
ele, alguns homens, como os de letras, eram dotados
de maiores capacidades que os demais e, por isso, deveriam
colocar seu gênio a serviço de todos,
analisa a historiadora. Ele acreditava que a tarefa
dos pregadores era justamente a de proteger e guiar
a população pelo caminho do bem que, no
período da ilustração, era o caminho
da instrução da mocidade.
Formação de um público
Segundo o estudo, Monte Alverne teve a atuação
mais ordinária e a mais extraordinária
dos sermonistas do Rio de Janeiro. Ordinária,
porque ele não destoou de nenhuma das características
afiançadas aos seus companheiros de púlpito.
Extraordinária, porque a popularidade alcançada
pela sua oratória incrementou a formação
de uma opinião pública no Rio de Janeiro
joanino, reafirmou o perfil do intelectual do período
e contribuiu para a popularização de uma
linguagem, feitos já esboçados por seus
parceiros de oratória, argumenta a pesquisadora.
As principais características de Monte Alverne
eram o gosto pela novidade, pelo reformismo, pela ilustração,
pelo humanismo, pelas idéias de libertação
e de espiritualidade e pelo exemplo histórico.
Arraigado defensor do culto do eu, acreditava
no individualismo e valorizava, assim, a idéia
de missão, tão cara aos pregadores.
Nos sermões, o frei promoveu a afirmação
do vínculo entre a idéia de pátria
e de Brasil, mediada por um debate inspirado pela contemporaneidade
do romantismo, que, ainda em estágio embrionário
no Brasil, pôde se valer das idéias veiculadas
nos seus sermões. A intelligentsia brasileira
deve a Alverne os esforços iniciais para a formação
de um público consumidor de cultura, de um discurso
com características que se reclamavam brasileiras
e de uma postura para o intelectual do País,
conclui Maria Renata.
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Senhores
eleitores, não esqueçais as
lições da história;
não desprezeis os conselhos da experiência.
Quando uma nação é
desgraçadamente mal representada,
só espera das revoluções
um estado de coisas mais feliz; e expõe-se
a ser o ludibrio, e instrumento de todo
o faccioso que se apresenta para socorrê-la.
O povo liga-se por instinto àquele,
que tem bastante valor para falar em seu
abono; aprova as reclamações
feitas em seu nome; e prefere muitas vezes
para seus intérpretes, ambiciosos,
e hipócritas, que o seduzem, prometendo
seu auxílio; e destroem o Estado
pretextando defendê-lo.
Discurso recitado no dia
28 de maio de 1833, na Capela Imperial do
Rio de Janeiro, perante o colégio
eleitoral, reunido para proceder à
eleição de um senador daquela
província
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| Precursor
do romantismo |
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Apontado por Gonçalves de Magalhães
como precursor das idéias românticas
no Brasil, Frei Francisco do Monte Alverne
nasceu em 1783, no Rio de Janeiro, e faleceu
em 1858, em Niterói. Estudou Teologia
no Convento São Francisco de Assis,
em São Paulo. Alcançou o posto
de Pregador Real em 1816, quando se mudou
para o Rio de Janeiro. Recolheu-se da cena
pública quando foi tomado pela cegueira,
em 1836.
Em 1854, ganhou de D. Pedro II uma cadeira,
que supostamente havia pertencido ao Padre
José de Anchieta, durante uma negociação
feita para que ele voltasse a pregar. Após
a visita do imperador à sua cela
franciscana, Monte Alverne aceitou pregar
uma última vez, em 19 de outubro
de 1854, falando sobre o padroeiro do Brasil
e de D. Pedro II, São Pedro de Alcântara.
O evento movimentou a corte e foi assistido,
além do imperador e de Magalhães,
por José de Alencar, Araújo
Porto Alegre e Joaquim Manuel de Macedo,
entre outros intelectuais da época.
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Oscar DAmbrosio
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