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Pintura
Visões em pedaços
A fragmentação da figura humana como
sintoma da perda da noção de totalidade
no mundo atual
Quando se pensa em obras
de arte célebres, é difícil não
lembrar de criações que trabalhem com
a figuração humana, seja de maneira inteira
ou fragmentada. A progressiva retalhação
do corpo em partes e planos, inclusive, tornou-se marca
registrada da arte moderna. Entender melhor esse processo
é uma das preocupações da dissertação
de mestrado A figura humana fragmentada na pintura:
Tiradentes esquartejado em Pedro Américo e Adriana
Varejão.
Apresentada ao Instituto de Artes (IA), câmpus
de São Paulo, a pesquisa de Regilene Aparecida
Sarzi-Ribeiro trata da representação de
corpos em fragmentos na pintura, utilizando como referência
o pensamento do teórico italiano Omar Calabrese,
para quem o esfacelamento da figura aponta para uma
perda da totalidade, da integridade e, em conseqüência,
do questionamento da própria identidade.
Trata-se, para ele, de uma característica
do espírito de nosso tempo, que Calabrese denomina
de Neobarroco, caracterizado pelo uso de fragmentos
e pormenores de imagens, esculturas e trechos de obras
aplicados a textos visuais ou literários,
afirma Regilene, professora do curso de Educação
Artística da Faculdade de Arquitetura, Artes
e Comunicação (Faac), câmpus de
Bauru.
A autora parte do neoclassicismo (século XVIII)
para chegar ao século XX, período de maior
fragmentação na representação
da figura humana. Ela estuda diversos cânones
da proporção humana, como o egípcio,
o de Policleto (século V a.C.), Leonardo da Vinci
(XVI) e Cousin (XVIII e XIX). Percorre ainda obras de
Rembrandt, Ingres, Degas, Picasso, Francis Bacon e Andy
Warhol.
Influência de Géricault
Essa trajetória serve de preâmbulo para
uma análise comparativa entre as criações
Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo
(18431905), e Reflexos de sonhos no sonho de outro
espelho (Estudo sobre o Tiradentes de Pedro Américo),
de 1998, de Adriana Varejão. As duas obras,
apresentadas, em módulos diferentes, na XXIV
Bienal de São Paulo, de 1998, fazem leituras
de um dos principais heróis nacionais e trabalham
com a fragmentação do corpo, comenta
a pesquisadora.
Pedro Américo, por exemplo, usa partes da figura
humana para representar a condenação,
em 1792, do inconfidente Joaquim José da Silva
Xavier, o Tiradentes. Ele representa o herói
nacional destroçado e mutilado, aponta
Regilene. As suas obras, no entanto, apontam para
a sua formação acadêmica, influenciada
pelo Romantismo e pelo Realismo. (Veja quadro.)
O pintor francês Théodore Géricault
(1791-1824), conta Regilene, principalmente na obra
A balsa da Medusa, pintada em 1819 a partir do naufrágio
de uma fragata francesa na costa africana três
anos antes, é uma forte influência de Américo.
O artista europeu fez entrevistas com os sobreviventes
da tragédia e teve acesso ao depósito
em que ficaram os despojos e corpos das vítimas
trazidas para a França, comenta a docente
da Faac. As figuras humanas são retratadas
dentro da tradição clássica da
pintura histórica, mas a situação
que as envolve é de um plano instável,
de morte e desespero.
Regilene observa que Pedro Américo, ao representar
Tiradentes esquartejado, segue alguns princípios
de Géricault. O artista concebeu a sua representação
do corpo com tratamento realístico, com atenção
para detalhes anatômicos como cor da pele, unhas
e musculatura. Mesmo representando o corpo por
partes e inclusive por separá-las em diferentes
estruturas, o artista ainda mantém uma relação
de proporção entre elas e demonstra essa
preocupação nos estudos a grafite que
antecederam a obra, observa.
Releitura ousada
O trabalho de Adriana Varejão, ao contrário
do de Américo, tem um conceito tridimensional.
Trata-se de uma instalação em uma sala
de 3 m x 3 m x 3 m, com 21 pinturas a óleo de
diferentes tamanhos e formatos. Ela retoma a pintura
do artista nordestino e faz dela uma releitura ousada,
que resulta na fragmentação definitiva
do corpo de Tiradentes e na separação
ainda maior dessas partes, avalia Regilene.
O processo criativo de Adriana, nesse contexto, é
muito importante. Primeiro, ela pintou de negro um quarto
de seu atelier com as medidas citadas. Em seguida, criou
manequins e peças com altura, largura e profundidade,
usando como molde as partes esquartejadas na pintura
de Américo. Depois, as pintou de branco e as
distribuiu pela sala, penduradas no teto.
Nas paredes, colocou espelhos de diferentes formatos
e tamanhos que refletiam as peças. A seguir,
fotografou o que os espelhos refletiam e, finalmente,
pintou em telas o que havia fotografado, ou seja, os
reflexos do corpo esquartejado em três dimensões.
As telas foram então colocadas na mesma
posição dos espelhos, na sala agora totalmente
branca, conta a docente.
Para Regilene, a instalação de Adriana
visa a um questionamento tanto sobre o corpo como sobre
questões da identidade nacional e da colonização
do Brasil, já que a nação, dentro
da atual atmosfera neobarroca, também se apresentaria
cortada em pedaços, imersa num jogo de espelhos.
A pesquisa mostra que, nas duas obras, a figura humana
é representada por meio de recortes da realidade
e do corpo humano. Enquanto Pedro Américo
se aproxima mais de uma poética de uso de pormenores,
ainda vinculado a cânones mais clássicos,
Adriana Varejão reflete um interesse maior por
fragmentos, conclui. Ambas nos levam a refletir,
porém, sobre técnicas artísticas
e sobre o fato social e os aspectos políticos
e culturais do enforcamento de Tiradentes.
| Pedro
Américo |
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Pintor, romancista e poeta, Pedro
Américo (Areia, PB, 1843 Florença,
1905) era originário de família
humilde. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em
1854, estudou no Colégio Pedro II.
Descoberto pelo desenhista alemão
Bindsel, ganhou uma bolsa na Academia Imperial
de Belas Artes, onde estudou entre 1859
e 1864. Embora tenha estudado em Paris numa
época de manifestações
impressionistas, sua produção
manteve-se fiel ao academicismo. Realizou
várias obras a pedido de Dom Pedro
II, entre elas Independência ou Morte,
de 1888, hoje no Museu Paulista.

Mesmo dividindo o corpo do herói,
Américo obedece a regras clássicas
de proporção
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| Adriana
Varejão |
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Nascida no Rio de Janeiro (RJ),
em 1964, Adriana Varejão, entre 1981
e 1985, freqüentou a Escola de Artes
Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro,
e fez sua primeira exposição
individual em 1988. Sua obra reproduz elementos
históricos e culturais, com temas
ligados a colonização, barroco
e azulejaria. Investiga também a
utilização do corpo humano,
da visceralidade e da representação
da carne como elemento estético.
Seu trabalho ganha forte contemporaneidade
em decorrência do acúmulo de
materiais, camadas de tinta e informações.
Adriana
utiliza espelhos, fotografia e pintura para
enfatizar fragmentação da
imagem
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Oscar DAmbrosio
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