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Humor
Quando a ciência vira piada
Com traço ágil e texto afiado, cartunista
ironiza valores e práticas do mundo do conhecimento
Dizem que rir é
o melhor remédio. Para o cartunista norte-americano
Sidney Harris, essa máxima também tem
valor na ciência. Pelo menos é o que mostra
a sua produção, voltada, desde os anos
1970, para o humor sobre o mundo universitário,
os paradigmas da ciência e a vida de cientistas.
O maior mérito de Harris, que já publicou
trabalhos em The New Yorker, Playboy, Discover, American
Scientist, Science e Chronicle of Higher Education,
é encontrar nas diversas facetas da atividade
científica motivos para riso. Ele consegue inclusive
ironizar a falta de humor de profissionais das mais
diversas áreas que, ao se levarem muito a sério,
acabam perdendo o próprio senso do ridículo.
A Ciência ri reúne 241 cartuns de Harris.
Embora não estejam distribuídos por núcleos
temáticos, é possível identificar
algumas séries, como a que enfoca diálogos
entre cobaias e ratinhos de laboratório. São
hilárias as conversas entre eles, analisando
os cientistas que lhes dão as mais variadas substâncias
para estudar as suas reações, mas principalmente,
graças a um desenho solto, que economiza recursos
gráficos para se concentrar no essencial, há
a ironia de gráficos e planilhas em torno dos
animais, verificando suas mínimas reações
pelo bem da ciência.
O êxito desses recursos pode ser observado na
ironia às noções de percepção,
avaliação e gerenciamento de risco, tão
necessárias nas mais diversas atividades humanas.
É ainda constante no seu trabalho o sarcasmo
com a psicanálise, presente em imagens como a
de um analista em seu consultório acompanhada
do texto: Emprego o melhor de Freud, o melhor
de Jung e o melhor de meu tio Marty, um sujeito muito
esperto.
As fronteiras entre a genialidade, a loucura, o sublime
e o cotidiano são numerosas vezes objetos de
brincadeira, já que grandes cientistas parecem
assumir, em seus momentos mais elevados, atitudes consideradas
infantis. O próprio gênero humano sofre
cruel sarcasmo, como na cena em que dois golfinhos declaram:
Embora os seres humanos façam som com a
boca e ocasionalmente se olhem, não existe evidência
conclusiva de que realmente se comuniquem.
Além de seu traço ágil, a palavra
afiada permite a Harris brincar com os mais variados
assuntos, como a interação do cientista
com as máquinas. Num cartum, especialistas olham
para um computador e concluem: Ele está
começando a mostrar algumas características
humanas: raciocínio ruim, esquecimento e repetição.
Também funciona muito bem graficamente ver uma
aula de apreciação de fórmulas
no museu de matemática, em que elas são
colocadas como telas num museu. Tornam-se então
objetos de desejo e são admiradas como obras
de arte, muito mais pela sua beleza plástica
e pela assinatura de seus criadores do que pelo seu
conteúdo.
A chave do humor de Harris talvez esteja na imagem
em que pratica seu poder derrisório com a própria
universidade. Coloca um scholar, com a beca, anunciando
numa cerimônia de formatura: ...e, conforme
vocês progredirem neste mundo, eu prevejo que
vão, gradual e imperceptivelmente, esquecer de
tudo o que aprenderam nesta universidade. Trata-se
de um alerta bem-humorado para que os cientistas pratiquem
algo que lhes falta muitas vezes: a humildade.
A ciência que ri Sidney
Harris; Editora UNESP; 246 páginas;
R$ 38,00. Informações: www.editoraunesp.com.br
ou (11) 3242-7171.
Oscar D'Ambrosio
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