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Geografia
Os problemas do avanço da cana em SP
Com importância econômica crescente, a cana-de-açúcar
também causa vários transtornos para o
Estado de São Paulo. Um estudo realizado no câmpus
de Jaboticabal relaciona a enorme expansão dessa
cultura à redução do rebanho bovino
e do plantio de alimentos básicos, além
da diminuição da arrecadação
e do vigor econômico dos municípios.
Embora gere divisas com exportação de
US$ 7,7 bilhões para o País e crie em
média 3,6 milhões de empregos por ano
em nível nacional, a cana-de-açúcar
também está na origem de uma série
de problemas. No Estado de São Paulo, responsável
por 60% da produção brasileira, a expansão
dessa cultura tem provocado concentração
de terras, evasão fiscal e piora das condições
de trabalho nas plantações, além
do enfraquecimento da diversidade econômica dos
municípios, com a ocupação de áreas
antes destinadas à agropecuária e ao plantio
de alimentos básicos, como arroz e feijão.
O alerta é feito pelo geógrafo José
Gilberto de Souza, docente da Faculdade de Ciências
Agrárias e Veterinárias (FCVA), câmpus
de Jaboticabal. Desde 1994, ele investiga a concentração
fundiária e os reflexos das monoculturas para
as cidades paulistas, num estudo com apoio da Fapesp
(Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo).
O docente destaca informações como as
colhidas em imagens do satélite do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que demonstram
uma expansão de 15% das terras cultivadas com
canaviais em território paulista, entre as safras
de 2006 e 2007 de 3,6 milhões para 4,2
milhões de hectares. O plantio já toma
48% de todo o território destinado à produção
agrícola em São Paulo.
O crescimento da cana no Estado contrasta com a diminuição
do plantio de 32 produtos associados às pequenas
propriedades e à agricultura familiar. De acordo
com dados do IEA (Instituto de Economia Agrícola)
citados por Souza, entre 2005 e 2006, houve retração
nas plantações de arroz (10%), milho (11%),
feijão (13%), batata (14%) e algodão (40%).
No setor de citros, nos últimos seis anos, 117
mil hectares pertencentes a pequenos produtores foram
substituídos por canaviais. A expansão
da cana começa a interferir diretamente na produção
de alimentos consumidos pela população
e, indiretamente, em itens como o milho, que serve de
insumo para a avicultura e a suinocultura, argumenta.
Áreas destinadas à agropecuária
de corte também estão sendo afetadas,
principalmente no oeste paulista. Na região de
Avaré, o espaço tomado pelos canaviais
aumentou de 1,5 mil para 17,7 mil hectares. Como conseqüência
desse fenômeno, segundo Souza, houve uma diminuição
de mais de um milhão de cabeças de gado
bovino no Estado, entre 2000 e 2006. Como 84%
da produção de carne é destinada
ao mercado interno, a queda na oferta, com o tempo,
vai alterar os preços e ter impacto na mesa do
trabalhador, enfatiza o especialista.
Efeitos econômicos
A partir de dados levantados nos 40 EDRs (Escritórios
de Desenvolvimento Rural) paulistas, Souza constatou
que mais da metade dos municípios possui um perfil
com baixa diversidade de produção agrícola:
entre 80% e 90% do seu território geralmente
é ocupado por uma ou duas culturas. Em
apenas 12 EDRs encontramos o máximo de 16 culturas,
ocupando uma área correspondente a 0,1% do total
no Estado, e número reduzido de atividades agrícolas
consideradas familiares, afirma. Monoculturas
como a da cana deixam as cidades em seu entorno em posição
de fragilidade diante de qualquer mudança econômica
e afetam a trajetória do seu desenvolvimento.
No estudo, Souza mediu o grau de insustentabilidade
ou seja, fragilidade em relação
a mudanças econômicas , numa escala
que vai de 1 a 5, dos municípios englobados nas
EDRs. Eles foram divididos em cinco grupos, conforme
as atividades agrícolas. Quanto maior o percentual
da área ocupada pelas principais culturas
basicamente, cana, soja e laranja , mais elevada
é a vulnerabilidade econômica. No grupo
1, formado por cidades como Jaboticabal, Piracicaba
e Ribeirão Preto, onde predomina o cultivo da
cana, o índice chega a 2,33. Já no grupo
4, onde prevalece a agricultura familiar e maior diversidade
das culturas, como Jales e General Salgado, o índice
é 1,33, ou seja, um risco bem menor de crises
econômicas.
O geógrafo adverte que, quando há queda
no preço do açúcar ou do álcool
no Exterior, o desemprego tende a aumentar nos municípios.
Como o perfil da mão-de-obra nesse tipo
de produção é itinerante e sazonal,
principalmente onde há corte manual de cana,
essa cultura cria poucos empregos diretos e estáveis,
destaca. (Veja quadro.)
Boom sucroalcooleiro
Entre os principais fatores para o boom sucroalcooleiro
está a valorização do preço
do álcool no mercado internacional devido às
perspectivas de o etanol se tornar um combustível
de consumo mundial. De acordo com o professor Antonio
Nivaldo Hespanhol, da Faculdade de Ciências Tecnológicas
(FCT), câmpus de Presidente Prudente, de 2004
a 2005, o preço do álcool combustível
subiu 42% em nível internacional, e o do açúcar,
28%.
Menos poluente do que a gasolina, o álcool se
tornou uma alternativa aos combustíveis fósseis
como o petróleo, que têm registrado uma
preocupante elevação de preço e
diminuição dos estoques. Já
no cenário nacional, houve redução
do preço do litro do álcool, em 3,5% ao
ano, e aumento do consumo, explica Hespanhol,
que também estuda a expansão da cana.
Além disso, cresceu a produção
dos carros bicombustíveis, em 2006, representando
77% dos veículos fabricados.
Com a implantação de 40 usinas de álcool
programadas até 2010 no Estado, a demanda pela
cana deverá aumentar ainda mais. Hoje,
essa cultura remunera mais por hectare do que qualquer
outra, e os riscos são poucos porque todo o processo
de manejo é feito pelas usinas, ressalta
Souza.
Evasão Fiscal
Outra constatação de Souza é que
cidades cercadas pela monocultura possuem maior índice
de evasão do ITR (Imposto Territorial Rural),
dividido entre as prefeituras e a União. Ele
projetou a arrecadação baseada no valor
mínimo da terra obtido em imobiliárias
locais e os recursos repassados pela Secretaria do Tesouro
Nacional aos municípios. O resultado, em nível
estadual, foi uma porcentagem de 69% de elisão
fiscal, ou seja, de redução dos gastos
com os tributos, feita com instrumentos como a subdeclaração
do valor da terra. Essa prática levou a um prejuízo
de cerca de R$ 110 milhões aos municípios
paulistas, em 2005.
As regiões canavieiras como Ribeirão
Preto, Jaboticabal e Piracicaba apresentaram maior percentual
de perda do ITR: 72%. Em áreas de cana-de-açúcar,
além de um maior índice de elisão
fiscal, verifica-se
um menor crescimento na arrecadação do
ITR, em comparação com regiões
onde predomina a agricultura familiar, ressalta.
De acordo com Souza, enquanto a média de pagamento
dos proprietários rurais do Estado ao ITR, por
hectare, é de R$ 2,5 por ano, um morador da cidade
paga de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano),
no mínimo, entre R$ 100 e R$ 200 anuais, por
200 m2 de área, o equivalente a 0,2 hectare.
Para evitar a evasão, ele propõe que o
governo estabeleça uma fiscalização
mais rigorosa do valor da terra e fixe um mínimo
de R$ 15,00 por hectare. A medida multiplicaria por
cinco a arrecadação e reduziria o seu
custo administrativo, segundo o docente, sem representar
uma tributação excessiva.
Planejamento Rural e Urbano
De acordo com Souza, para enfrentar a expansão
da cana e demais monoculturas, os municípios
deveriam implementar planos rurais e urbanos, como já
prevê uma determinação do Ministério
das Cidades. Como não há uma política
governamental de redução de concentração
de terra, o proprietário planta o que e quando
ele quer, sem qualquer sanção, enfatiza.
Este ano, o município de Rio Verde, em Goiás,
aprovou uma lei que restringe o cultivo da cana para
10% do seu território. As indústrias canavieiras
locais alegam que essa restrição é
inconstitucional, por afetar a livre iniciativa. No
entanto, Elisabete Maniglia, docente de Direito Agrário
da Faculdade de História, Direito e Serviço
Social (FHDSS), câmpus de Franca, discorda: O
Estatuto da Cidade estabelece que cada município
deve prestigiar e garantir o bem-estar de seus habitantes,
prevalecendo sempre o interesse social sobre o privado,
comenta Elisabete. Além disso, a prefeitura
pode limitar a área de cana com base no artigo
182 da Constituição Federal, que prevê
a função social da cidade.
Outra ação de combate à invasão
da cana, segundo Souza, seria a proibição
imediata da queimada nessa cultura, hoje liberada até
2030. A medida obrigaria as indústrias
a não plantar em regiões de elevada declividade,
onde as máquinas não têm acesso,
o que reduziria a área plantada, sugere.
O geógrafo propõe, ainda, que o Poder
Público garanta o cumprimento da lei que autoriza
às usinas produzir no máximo 60% da cana
que processam, utilizando 40% da produção
de fornecedores. Segundo o docente, essa determinação
não é respeitada. Ele lembra que em países
como EUA, Austrália, Nova Zelândia, as
usinas e processadoras de bens agrícolas não
podem produzir a matéria-prima. Isso faz
com que a relação dos pequenos e médios
agricultores e a indústria seja outra e não
haja cartel, ao contrário do que acontece no
Brasil, ressalta.
| ENTREVISTA
ROBERTO RODRIGUES |
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Ex-ministro apóia zoneamento
agroecológico
Professor da FCAV, câmpus
de Jaboticabal, Roberto Rodrigues é
o representante da UNESP na Comissão
de Bioenergia, criada pelo governador José
Serra, para montar uma estratégia
do Estado para os biocombustíveis.
Produtor rural e ex-ministro da Agricultura
no primeiro mandato do governo Lula, Rodrigues
também coordena o Centro de Agronegócios
da Fundação Getúlio
Vargas e preside o Conselho Superior do
Agronegócio da Fiesp (Federação
das Indústrias do Estado de São
Paulo). Nesta entrevista ao Jornal UNESP,
ele fala sobre os diversos reflexos da expansão
da cana-de-açúcar e faz propostas
para o setor.
(Entrevista a Julio Zanella)
Alimento X Cana
Já na criação do Pró-alcool,
em 1974-1975, muito se falou sobre a possibilidade
do desabastecimento de alimentos devido
ao crescimento da cana-de-açúcar,
o que acabou não acontecendo. Na
época, na minha fazenda em Guariba,
eu mesmo passei a aplicar um programa de
rotação de culturas em áreas
de cana-de-açúcar com o cultivo
de plantas leguminosas como soja, amendoim
e feijão, que também melhoram
a condição da terra. Por decisão
do governo paulista, essa rotação
passou a ser uma condição
para obtenção de crédito
para construir usinas de álcool no
Estado. Hoje, o assunto volta a ser debatido,
embora a queda na produção
e de terras destinadas a alguns alimentos
seja sazonal. Nos EUA, há dois anos,
houve um aumento da procura pelo milho usado
para a produção do etanol
e o preço aumentou. No ano seguinte,
os produtores plantaram mais milho e os
preços voltaram a cair.
Boi X Etanol
A redução do número
de cabeças de gado, sim, pode trazer
preocupação. Porém,
a produtividade da pecuária por hectare
tem aumentado muito e esse é um setor
que cria poucos empregos. A expansão
da cana tem se dado em muitas pastagens
já degradadas, gerando empregos,
produção de alimentos e renda.
Zoneamento agroecológico
Eu defendi uma proposta na Comissão
de Bioenergia, criada este ano pelo governador
José Serra, de implementação
de um zoneamento agroecológico que
vai definir as áreas adequadas para
a plantação da cana e demais
culturas, levando em conta aspectos ecológicos,
de solo e clima. Há regiões
no Estado em que, pela sua topografia, não
há condições de colher
mecanicamente a cana . Até o final
do ano, a comissão deve entregar
um plano de ação que vai estabelecer
diretrizes para o avanço da cana
em São Paulo.
Cortadores de cana
Hoje, há duas correntes de pensamento
sobre esse tema. Uma defende a mecanização
e a outra, o corte manual da cana. Eu sou
a favor do corte mecanizado, mas não
concordo com aqueles que classificam a condição
de trabalho dos cortadores de subumana.
Cerca de 10% das áreas hoje
cultivadas com cana não serão
colhidas mecanicamente. Nessa espaço,
podem ser produzidas frutas, flores, seringueiras
e madeira. Um plano estadual apoiando essas
culturas ajudaria na reconstrução
da área de cana, criando empregos
mais nobres para os cortadores, substituindo
o corte pela mecanização.
Propostas e o futuro
O que falta ainda é uma estratégia
nacional frente à perspectiva de
expansão da cana no Brasil e maior
demanda internacional, no sentido de construir
um modelo que evite a monocultura e os aspectos
negativos decorrentes dela. Por exemplo,
concordo que tem que haver uma separação
entre usineiro e produtor rural. Desde a
época em que estava no Ministério,
defendo que o País deve aproveitar
o conhecimento acumulado nas últimas
décadas para ser exportador de usinas,
não apenas de álcool. Temos
que liderar a corrida pela busca de um combustível
mais limpo. Para isso, precisamos de uma
política para o setor, com estratégias
e diretrizes como logística, formação
de recursos humanos e estoques reguladores.
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| Expansão
não beneficia trabalhador da área |
| Os
ganhos econômicos dos proprietários
de usinas e terras não têm trazido
benefícios significativos para os trabalhadores
do setor sucroalcooleiro. Pelo contrário.
Segundo a socióloga Maria Aparecida
de Moraes e Silva, docente colaboradora do
Programa de Pós-graduação
de Geografia da FCT, câmpus de Presidente
Prudente, os cortadores de cana são
submetidos a uma dura jornada de trabalho.
Eles cortam em torno de dez toneladas
de cana por dia, em um calor escaldante, e
em muitos casos recebem coação
moral e ameaças para atingir as metas,
denuncia. Em sua maioria, essa mão-de-obra
é formada por migrantes do Nordeste
e do norte de Minas Gerais, com idade entre
16 e 35 anos.
Na região de Ribeirão Preto,
a docente detectou que a vida útil
de um cortador de cana é inferior
a 15 anos. Esse nível é
inferior ao dos negros em alguns períodos
da escravidão, critica. De
1999 a 2005, segundo a docente, houve mais
de 30 mil acidentes e 72 óbitos relacionados
ao trabalho, no Estado. O salário
é pago por produção,
de R$ 2,50 por tonelada cortada, insuficiente
para garantir uma alimentação
adequada, pois eles têm que remeter
parte do dinheiro para as famílias
no Nordeste, observa.
A docente condena ainda o abandono de cortadores
mutilados pelo trabalho nos canaviais, por
não terem o tempo de trabalho exigido
pela legislação. Eles
não conseguem aposentadoria do INSS
e não têm condições
para a compra de remédios para os
constantes problemas na coluna e vias respiratórias,
aponta.
Em Jaboticabal, a agrônoma Ana Terra
Reis, em seu trabalho de conclusão
do curso na FCAV, sob a orientação
do geógrafo José Gilberto
de Souza, constata que o aumento da produtividade
obtida pelas usinas teve como origem a redução
dos custos de produção, com
a menor transferência de ganhos aos
cortadores. Ana ressalta que, na década
de 1980, a indústria chegou a pagar
até R$ 9,00 por tonelada de cana
cortada. Hoje, o valor não passa
de R$ 2,5.
Ao cruzar os dados dos salários
dos cortadores e os preços dos produtos,
de 1985 a 2004, verificamos uma redução
nos salários reais em torno de 60%,
destaca. Em 1985, o trabalhador cortava
em média 5 toneladas de cana por
dia, volume que, hoje, atinge entre 12 a
16 toneladas diárias. O estudo conclui
que, se o salário de um cortador
de cana acompanhasse a produtividade das
indústrias, seria superior a R$ 2
mil. No, entanto, atualmente, ele não
chega a R$ 1 mil mensais, durante os seis
meses de safra.
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Julio Zanella
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