UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::
Agosto/2007– Ano XXI – nº 225   ::   Suplemento  [Voltar]
 
:: ARTES VISUAIS ::

Flicts
A cor em busca de um lugar
Marco na literatura infantil, livro escrito e desenhado por Ziraldo tem a sua trajetória analisada

Obra diferenciada desde seu lançamento, em 1969, pela ousada e moderna concepção gráfica, Flicts, escrita e ilustrada por Ziraldo, é um marco na literatura infantil brasileira. Para estudar a riqueza dessa criação, Claudia Cascarelli desenvolveu sua dissertação de mestrado em Artes Visuais, apresentada no Instituto de Artes (IA), câmpus de São Paulo.

Intitulada Flicts, livro de artista, a pesquisa, sob orientação da professora do IA Claudete Ribeiro, analisa esse trabalho até sua 57a edição, lançada em 2005. O livro conta a história de uma cor que procura o seu lugar no mundo. Ninguém gosta ou se lembra dela, até que, fugindo dos seres humanos, ela vai até a Lua e descobre que a cor do satélite é flicts!

Experimentação

O livro é uma referência em termos de experimentação, pela interação entre imagem e texto. Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes, Raquel de Queiroz, entre outros, apontaram para a abertura dessa criação à poesia e ao humor. Também há comparações com O pequeno príncipe e O patinho feio, além do gênero policial.

Não faltam ainda conotações sociais, ligadas à exclusão, e mesmo místicas. Uma importante referência é o caráter lunar da personagem, associada à conquista do espaço no final dos anos 1960. Essa conotação foi reforçada pelo astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua. Ao visitar o Brasil, em 1969, três meses após a façanha, ele se encontrou com Ziraldo e, ao ouvir a história, escreveu: “A Lua é Flicts”.

A origem da história de Flicts, que não está na caixa de lápis de cor, nas bandeiras dos países ou no arco-íris, surgiu de um convite da editora Expressão e Cultura para que Ziraldo escrevesse um livro infantil. A conversa foi numa sexta-feira e o material precisava ser entregue na segunda seguinte.

Papel autocolante

O estalo criativo ocorreu quando Ziraldo viu a foto da Terra vista da Lua. Teve assim a idéia de contar a história em que a cor do satélite não tinha lugar no nosso planeta. Os originais foram feitos com papel autocolante de várias cores, e a interjeição Flicts foi aproveitada após ter sido usada pela primeira vez numa das criações do autor, a Supermãe, no Jornal do Brasil.

Claudia verifica que a jornada da cor Flicts em busca de si mesma tem várias fases. Primeiro, pede ajuda a elementos do universo infantil, como escola, laço, ciranda e fita. Depois, tenta dialogar com “personagens” do mundo adulto: faixa, escudo, brasão e bandeira.

Surge aí um fato curioso. Até 1984, a frase “pelos países mais bonitos” do livro foi acompanhada da bandeira do Reino Unido. Na edição de 1985, porém, ocorreu a substituição pela brasileira. Nesse mesmo ano, Ziraldo lançou A fábula das três cores, em que brincava com as cores verde, amarelo e azul.

Ditadura militar

Ele mesmo explica que essa alteração está vinculada à impossibilidade de amar o símbolo nacional durante a ditadura militar: “Em 1969, a bandeira não me pertencia. Ninguém podia amar a bandeira do Brasil, naquela época. Tínhamos que respeitá-la. E, aí, nós tínhamos medo de um pai severo, que obriga o outro a que o respeite, em troca de gritos e chineladas. Fiz então Flicts sem verde, amarelo ou azul. Mas fiquei muito frustrado até 1985, com o novo livro e a substituição”.

Num terceiro momento da busca de Flicts, o personagem dialoga com elementos naturais: céu, mar e fases da Lua. Depois, interage com o universo das amizades: par, companheiro, amigo, irmão. “Verbal e visual se associam no livro. Flicts não tem espaço, porque não tem o poder de qualificar nada no mundo. Caracterizado apenas pela falta, parte em busca de suprir o vazio que tanto o aflige. Precisa fazer parte de algo para existir. Ele quer nascer”, argumenta Claudia.

Em sua dissertação, inicialmente, a pesquisadora traça a trajetória de Ziraldo (Veja quadro.). Depois, analisa Flicts, verificando diferenças entre o projeto original e as reedições. “Para baratear custos gráficos e para dar maior acesso ao público leitor, alteraram o projeto inicial do livro, mas não comprometeram a leitura. A narrativa visual e a verbal foram mantidas. Somente a dimensão foi reduzida”, comenta Cláudia.

Percepção infantil

Na terceira e última parte da dissertação, ocorre o registro da percepção do livro por oito crianças de oito anos em três situações. Primeiro, em leituras individuais; depois, em leituras acompanhadas por uma mediadora e seguidas de uma oficina de criatividade coordenada por Claudia, também ilustradora de livros infantis.

Finalmente, há o acompanhamento do contato com o CD-ROM do livro, que traz a história sonorizada, animada e com atividades lúdicas interativas. “Com as crianças e por meio de minha pesquisa, foi possível vislumbrar possibilidades de novas descobertas e revelações poéticas na obra de Ziraldo. Cada leitura é um raio de luz, uma nova consciência enriquecida com as maravilhas da percepção humana”, conclui Claudia.

Um criador incansável
Cartunista, chargista, pintor, dramaturgo, desenhista e jornalista, Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, MG, 24/10/1932) é criador de personagens famosos, como o Menino Maluquinho, e um dos mais aclamados escritores infantis do Brasil.

Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1957, mas seu talento no desenho já se manifestava desde criança, tendo publicado um deles no jornal Folha de Minas, com apenas seis anos de idade. Começou a trabalhar nesse veículo em 1954, com uma coluna dedicada ao humor.

Ganhou notoriedade nacional ao se estabelecer na revista O Cruzeiro, em 1957, e posteriormente no Jornal do Brasil, em 1963. Seus personagens (entre eles Jeremias, o Bom; Supermãe e Mineirinho) conquistaram os leitores. Em 1960, lançou a primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor, a Turma do Pererê, que também foi a primeira HQ a cores totalmente produzida no País.

Foi fundador e diretor de O pasquim, tablóide de oposição ao regime militar, uma das razões de sua prisão, um dia após a promulgação do Ato Institucional no 5, em 1968. No ano seguinte, Ziraldo recebeu o “Nobel” Internacional de Humor no 32o Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e também o prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa livre da América Latina.

Em 1980, lançou o livro O menino maluquinho, seu maior sucesso editorial, mais tarde adaptado para a televisão e o cinema. Incansável, Ziraldo ainda hoje colabora em diversas publicações e está envolvido em novas iniciativas. “É um artista sempre rejuvenescido, disponível para recomeçar, numa ebulição de idéias e sonhos guiados por um ritmo interior efervescente de criatividade”, afirma Claudia.

 

Oscar D’Ambrosio

 

 
  ACI