Entrevista/Anne Line Dalsgaard
Esterilização revela temor do futuro
Para antropóloga, mulheres carentes evitam
filhos pelo medo de que eles se envolvam com o crime
O conhecimento de como
as pessoas pensam o futuro tem norteado as pesquisas
da antropóloga dinamarquesa Anne Line Dalsgaard,
autora do livro Vida e esperanças. (Leia resenha
abaixo.) Ao pesquisar como as meninas de diferentes
países enfrentam a primeira gravidez, ela se
defrontou com a questão da esterilização
no Recife. Em visita ao País, essa professora
de Antropologia na cidade de Aarhus falou ao Jornal
UNESP sobre sua área de trabalho e a relação
entre esterilização, pobreza e violência
na capital pernambucana.
Jornal UNESP A Antropologia de hoje está
mais preocupada com os fenômenos sociais e a orientação
de políticas públicas?
Anne Line A Antropologia sempre teve um lado
mais acadêmico e outro mais social. Na Dinamarca,
o trabalho antropológico é muito mais
direcionado a questões acadêmicas, para
a compreensão dos valores culturais associados
aos fenômenos históricos. Acho que, no
Brasil, o antropólogo busca mais soluções
práticas para as questões sociais. Em
relação ao meu trabalho, espero que ajude
a melhorar a vida das pessoas, mas o sentido dele foi
sempre retratar o que está por trás do
rumo que as pessoas dão à sua vida.
JU Como surgiu o interesse pela questão
da esterilização no Brasil?
Anne Line Comecei a desenvolver uma pesquisa
comparativa sobre como as jovens de diferentes países
lidam com a expectativa da primeira gravidez. Fiquei
sabendo que o Brasil era o campeão mundial da
cesariana e resolvi, em 1998, vir ao País para
conhecer melhor essa realidade. No Recife, descobri
que a preocupação maior das meninas não
era saber que tipo de parto fazer, mas sim realizar
a ligadura das trompas. Em 1998, esse procedimento não
fazia parte de um programa de saúde, como ocorre
hoje. As próprias mulheres procuravam a ligadura
indicada pelos médicos e que era usada pelos
políticos como moeda de troca nas eleições.
JU Como foi a experiência de viver em
um bairro pobre no Recife?
Anne Line No começo, vim com marido e
dois filhos e me dediquei apenas a levantar dados sobre
o problema e entrevistar as pessoas. Depois que minha
família voltou para a Dinamarca, mudei para a
casa de uma das entrevistadas, para vivenciar o cotidiano
dessas mulheres e entender o que estava por trás
da vontade delas de fazer a ligadura.
JU Quais os principais motivos que a senhora
encontrou na pesquisa?
Anne Line Primeiro, elas alegavam questões
financeiras, a relação com a sogra e doenças.
Mas passei a perceber que o grande temor era ver o filho
acabar preso ou morto por brigas de gangues. Nos bairros
pobres do Recife, três em cada cinco famílias
têm casos de pessoas mortas pela violência
urbana. A esterilização era também
uma forma de elas não carregarem a culpa de perder
um filho para o crime.
JU Como a senhora vê um País que
proíbe o aborto e permite a esterilização?
Anne Line É curioso, mas ambos os casos
têm raízes sociais, de falta de informação
e educação em saúde. Para as mulheres,
trata-se de um problema social e existencial.
JU Como esse problema pode ser comparado ao
da Europa, que enfrenta a questão da baixa natalidade,
com mulheres que também não desejam ter
filhos?
Anne Line As motivações são
diferentes. Na Europa, as mulheres não querem
ter filhos pela competitividade no mercado de trabalho.
Já no Brasil, é o medo de perder o filho
por causa da violência provocada pelas condições
sociais.
JU Depois dessa experiência, a senhora
é contra a esterilização?
Anne Line No contexto em que essas mulheres vivem,
a esterilização, infelizmente, passa a
ser uma atitude responsável, na prevenção
de um mal ainda maior. Porém, muitas que fizeram
ligadura motivadas pelo aspecto financeiro, anos mais
tarde chegaram à conclusão que continuam
sem estudar, sem emprego e sem dinheiro.
Julio Zanella
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