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Junho/2007 – Ano XXI – nº 223    [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::
Entrevista/Anne Line Dalsgaard
Esterilização revela temor do futuro
Para antropóloga, mulheres carentes evitam filhos pelo medo de que eles se envolvam com o crime

O conhecimento de como as pessoas pensam o futuro tem norteado as pesquisas da antropóloga dinamarquesa Anne Line Dalsgaard, autora do livro Vida e esperanças. (Leia resenha abaixo.) Ao pesquisar como as meninas de diferentes países enfrentam a primeira gravidez, ela se defrontou com a questão da esterilização no Recife. Em visita ao País, essa professora de Antropologia na cidade de Aarhus falou ao Jornal UNESP sobre sua área de trabalho e a relação entre esterilização, pobreza e violência na capital pernambucana.

Jornal UNESP – A Antropologia de hoje está mais preocupada com os fenômenos sociais e a orientação de políticas públicas?
Anne Line – A Antropologia sempre teve um lado mais acadêmico e outro mais social. Na Dinamarca, o trabalho antropológico é muito mais direcionado a questões acadêmicas, para a compreensão dos valores culturais associados aos fenômenos históricos. Acho que, no Brasil, o antropólogo busca mais soluções práticas para as questões sociais. Em relação ao meu trabalho, espero que ajude a melhorar a vida das pessoas, mas o sentido dele foi sempre retratar o que está por trás do rumo que as pessoas dão à sua vida.

JU – Como surgiu o interesse pela questão da esterilização no Brasil?
Anne Line – Comecei a desenvolver uma pesquisa comparativa sobre como as jovens de diferentes países lidam com a expectativa da primeira gravidez. Fiquei sabendo que o Brasil era o campeão mundial da cesariana e resolvi, em 1998, vir ao País para conhecer melhor essa realidade. No Recife, descobri que a preocupação maior das meninas não era saber que tipo de parto fazer, mas sim realizar a ligadura das trompas. Em 1998, esse procedimento não fazia parte de um programa de saúde, como ocorre hoje. As próprias mulheres procuravam a ligadura indicada pelos médicos e que era usada pelos políticos como moeda de troca nas eleições.

JU – Como foi a experiência de viver em um bairro pobre no Recife?
Anne Line – No começo, vim com marido e dois filhos e me dediquei apenas a levantar dados sobre o problema e entrevistar as pessoas. Depois que minha família voltou para a Dinamarca, mudei para a casa de uma das entrevistadas, para vivenciar o cotidiano dessas mulheres e entender o que estava por trás da vontade delas de fazer a ligadura.

JU – Quais os principais motivos que a senhora encontrou na pesquisa?
Anne Line – Primeiro, elas alegavam questões financeiras, a relação com a sogra e doenças. Mas passei a perceber que o grande temor era ver o filho acabar preso ou morto por brigas de gangues. Nos bairros pobres do Recife, três em cada cinco famílias têm casos de pessoas mortas pela violência urbana. A esterilização era também uma forma de elas não carregarem a culpa de perder um filho para o crime.

JU – Como a senhora vê um País que proíbe o aborto e permite a esterilização?
Anne Line – É curioso, mas ambos os casos têm raízes sociais, de falta de informação e educação em saúde. Para as mulheres, trata-se de um problema social e existencial.

JU – Como esse problema pode ser comparado ao da Europa, que enfrenta a questão da baixa natalidade, com mulheres que também não desejam ter filhos?
Anne Line – As motivações são diferentes. Na Europa, as mulheres não querem ter filhos pela competitividade no mercado de trabalho. Já no Brasil, é o medo de perder o filho por causa da violência provocada pelas condições sociais.

JU – Depois dessa experiência, a senhora é contra a esterilização?
Anne Line – No contexto em que essas mulheres vivem, a esterilização, infelizmente, passa a ser uma atitude responsável, na prevenção de um mal ainda maior. Porém, muitas que fizeram ligadura motivadas pelo aspecto financeiro, anos mais tarde chegaram à conclusão que continuam sem estudar, sem emprego e sem dinheiro.

Julio Zanella


 
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