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Jornal UNESP :::
Junho/2007– Ano XXI – nº 223   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: A ATUALIDADE DAS IDÉIAS DE WILHELM REICH ::

Teoria da vida e teoria do conhecimento
Ailton Bedani

Ainda são poucos os estudos que procederam uma reavaliação da
obra de Reich

Ao longo de sua obra, Wilhelm Reich (1897-1957) estabeleceu interfaces com várias áreas do conhecimento: Sexologia, Psicanálise, Epistemologia, Pedagogia, Sociologia, Biologia, Física, Meteorologia. Mais do que um adepto do ecletismo, ele se dedicou a investigar, em diversos campos, as manifestações de um singular processo energético: “Devotei-me ao campo da Psiquiatria como um cientista natural. Esse interesse foi ditado, em primeiro lugar, pela questão da energia. Já era assim em 1919”. 1

Em 1919, quando cursava Medicina na Universidade de Viena, Reich deu início às suas pesquisas. A “energética” e os fundamentos epistemológicos da produção científica inauguraram sua obra e nortearam toda sua produção. O universitário suspeitava “que a energia funciona ANTES de qualquer massa; que não é a matéria, mas, sim, a energia que é primária; que a massa precisa ser derivada, de alguma forma, da energia”.2

Apaixonado, também, por Biologia, ele colocava a intrigante questão: “O que é a vida?”. Identificou-se com concepções filosóficas que se recusavam a assemelhar o funcionamento do vivo ao das máquinas e simpatizou com teorias sobre uma energia biológica específica; acreditava, no entanto, que tais formulações precisavam alcançar status científico-natural. Convicto de que a elaboração científica é indissociável da crítica epistemológica, ele adotou uma diretriz professada pelo filósofo Henri Bergson: teoria da vida e teoria do conhecimento são “inseparáveis uma da outra”.3

Aceito, em 1920, como membro da Sociedade Psicanalítica, Reich, por quatorze anos, procurou extrair conseqüências teóricas, clínicas, pedagógicas e políticas da teoria freudiana da libido. Empreendendo, no âmbito da psicanálise, uma série de pesquisas originais, ele elaborou, entre 1922 e 1926, a teoria da “potência orgástica”, o eixo de sua obra: “Potência orgástica é a capacidade de se entregar ao fluxo da energia biológica, sem quaisquer inibições; a capacidade de descarregar completamente, por meio de convulsões involuntárias e prazerosas do corpo, a excitação sexual acumulada”.4

Entre 1927 e 1934, Reich desenvolveu uma nova metodologia terapêutica (a Análise do Caráter). Apoiando-se na concepção freudiana de sexualidade, na noção de potência orgástica e no materialismo dialético de Marx e Engels, o autor agregou esse arsenal teórico-epistemológico a um convívio intenso com a população desfavorecida. Em Viena (1927-1930) e depois em Berlim (1930-1933), ele se esforçou em demonstrar, por meio de publicações e amplo trabalho social, que política e sexualidade são mutuamente dependentes.

Expulso, em 1933, do Partido Comunista e excluído, no ano seguinte, da Sociedade Psicanalítica, Reich, ameaçado pelo nazismo, acabou se exilando, em 1934, na Noruega, onde sua pesquisa pôde alcançar dimensão laboratorial. No campo da Biofísica, o autor investigou o “comportamento” de correntes bioelétricas coligadas aos estados emocionais do indivíduo; na área da Biogênese, identificou vesículas que expressam estágios intermediários entre o inorgânico e o orgânico.

Além de ampliar sua metodologia terapêutica (em 1935 surge a Vegetoterapia Caractero-Analítica) e aprimorar seus estudos sobre a lógica que rege o funcionamento do vivo, Reich detectou, em 1939, uma energia que atua em estratos biológicos profundos. Em seguida, seus experimentos levaram-no a crer que aquela singular energia fazia-se presente, também, na atmosfera. Nomeou, então, essa força básica como “energia orgone cósmica” e fundou um novo ramo de pesquisas, a Orgonomia.

Nos EUA a partir de 1939, Reich dedicou-se a realizar criteriosos experimentos e descrever as manifestações da energia orgone nos domínios do vivo e do não-vivo, no micro e macrocosmo; preocupou-se, igualmente, em mapear a dinâmica dos fenômenos orgonóticos e em integrar Orgonomia e Matemática. Suas pesquisas conduziram-no a áreas tão distintas como a Oncologia e a Meteorologia, posto que certas disfunções da energia orgone podem ser observadas, segundo o autor, tanto no câncer quanto nos processos de desertificação do planeta. Embrenhando-se em diversos campos (Física-Orgone, Biofísica-Orgone, Orgonoterapia, Pedagogia Orgonômica, Orgonometria), continuou, no entanto, denunciando os sistemas ideológicos que negam a vida e anestesiam as capacidades críticas e as forças emocionais-sexuais.

Monitorado pelo Federal Bureau of Investigation e, desde o final da década de 1940, vítima de calúnias na imprensa e em revistas científicas, Reich passou a ser investigado, também, pela Food and Drug Administration. Nos anos 1950, acompanhou de perto a paranóica era macartista, além de se ver envolvido em um intrincado processo judicial, que resultou em sua prisão em 1957. Nesse mesmo ano ele faleceu, em um presídio.

Meio século após a morte de Reich, ainda são poucos os estudos que procederam a uma reavaliação criteriosa de sua obra. Esse fato chama atenção, pois a pesquisa reichiana oferece ferramentas ímpares para refletirmos sobre nossa explosiva crise social e seus concomitantes problemas éticos e ecológicos.

  1. REICH, W. “Man’s roots in nature”. Orgonomic Functionalism: a journal devoted to the work of Wilhelm Reich. Rangeley, Maine, v. 2, 1990.
  2. REICH, W. “Orgonomic functionalism in non-living nature”. Orgonomic Functionalism: a journal devoted to the work of Wilhelm Reich. Rangeley, Maine, v. 6, 1996.
  3. Bergson, H. “L’evolution créatrice”. In: Henri Bergson – Oeuvres. Paris: Presses Universitaires de France, 1984.
  4. REICH, W. The function of the orgasm: Volume 1 of the discovery of the orgone – Sex-economic problems of biological energy. Great Britain: Condor Book, 1989.

     

    Ailton Bedani é psicólogo clínico de orientação reichiana, mestrando no Instituto de Psicologia da USP, coordenador pedagógico do Programa de Formação em Abordagem Clínica Reichiana e gerenciador do Espaço ORG2 – Orgonomia & Orgonoterapia (www.org2.com.br).
 
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