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Literatura
Ler, escrever, ser humano
Dois intelectuais de projeção internacional
enfatizam importância histórica da escrita
e da leitura
O escritor francês
François Mauriac (1885-1970), em suas Memórias
íntimas, aponta que escrever é lembrar-se,
mas ler é também lembrar-se. Os
universos da escrita e da leitura e a sua complexa relação
com o tempo são os temas de dois livros recentemente
lançados pela Editora UNESP: História
da leitura, de Steven Roger Fischer; e Inscrever e apagar:
cultura escrita e literatura, de Roger Chartier.
Em ambos fica claro que as duas atividades são
infinitas, no sentido de gerarem um sem-número
de interpretações. Talvez o grande ensinamento
que possa ser retirado esteja numa defesa constante
da naturalidade e da espontaneidade do ato de criar
e numa série de alertas contra qualquer tipo
de afetação.
O grande segredo estaria numa difícil combinação
entre um certo talento natural associado a uma progressiva
dificuldade, já que, quanto mais se lê
e se escreve, a exigência em relação
ao próprio texto e às escolhas literárias
tende a aumentar.
Lingüista norte-americano, com doutorado defendido
na Universidade da Califórnia na década
de 1970, Fischer se debruça sobre o ato da leitura,
os leitores e os ambientes sociais que influenciam o
que é lido e como esse processo se dá.
Seu estudo mostra a importância dos diversos suportes,
passando por pedras, ossos, cascas de árvore,
muros, monumentos, tabuletas, rolos de papiro, códices,
livros, telas e papel eletrônico.
Uma forma de acompanhar melhor o raciocínio
histórico desenvolvido pelo autor é lembrar
que ele fala fluentemente inglês, francês,
espanhol e alemão, admite se comunicar em outras
cinco línguas e ler em cerca de 80 idiomas. Fischer
se tornou internacionalmente conhecido, no início
dos anos 1980, por ter dado contribuição
fundamental para decifrar as inscrições
da Ilha de Páscoa.
Prosa eletrônica
O lingüista, que vive atualmente na Nova Zelândia,
onde dirige o Instituto de Línguas e Literatura
Polinésias, diferencia dois tipos de leitura:
a literal ou mediata (aprendizado) e a visual ou imediata
(fluente).
Todos partiriam da leitura mediata, atribuindo um som
a um sinal gráfico. Depois, passa a ser dado
um sentido ao sinal, avançando-se, em seguida,
para agrupamentos cada vez maiores de sinais, formando
frases e sentenças curtas. O contato entre sinal
e sentido começa a ser aprimorado com a prática,
o que permite ignorar o som. Por isso, para Fischer,
leitores freqüentes se tornam fluentes, minimizando
o som e maximizando o significado.
Paralelamente a esse raciocínio, existe uma
importante reflexão, no Capítulo 7, intitulado
Lendo o futuro, sobre a internet. O lingüista
acredita que, com ela, surgirá uma espécie
de prosa eletrônica, que seria a
linguagem informal educada dos e-mails, com provável
influência na forma de falar.
Essa comunicação via correio eletrônico
caminharia para um padrão médio, situado
entre a linguagem oral, cheia de gírias, e a
formal das antigas cartas datilografadas. O ideal seria
chegar-se a um padrão mais educado do que a linguagem
oral e menos formal do que as cartas em papel.
Para a escrita em escala global, o e-mail trouxe uma
importante questão, pois muita gente não
estava acostumada a escrever antes do surgimento da
internet. Ficou então evidente para os internautas
algo que os lingüistas já sabiam há
tempo: a escrita não tem todos os recursos da
linguagem oral.
Ao não ver a expressão e os gestos do
interlocutor, nem ouvir seus tons de voz, a redação
das frases precisa ser cuidadosamente pensada. Isso
levou empresas em todo o mundo a promover cursos para
que seus funcionários aprimorem a escrita e se
tornem mais aptos a escrever e-mails, evitando ambigüidades
ou mal-entendidos que podem gerar prejuízos incalculáveis,
tanto em termos de comunicação como financeiros.
Lembrar, esquecer
Combater todo tipo de esquecimento ou mal-entendido
histórico é justamente a preocupação
do historiador do livro e da leitura Roger Chartier,
diretor de estudos em Ciências Sociais da Escola
de Altos Estudos (França) e professor convidado
da Universidade da Pensilvânia (EUA).
Em Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura,
o pensador francês parte de um curioso raciocínio.
Lança, de forma mais ou menos clara, uma mesma
pergunta ao longo de sua obra: quantas vezes você
escreveu um rascunho e ficou indeciso se devia guardá-lo,
passá-lo a limpo e eliminá-lo em seguida
ou simplesmente se livrar dele por achar que nunca seria
útil?
Estudar essa indagação individual sob
um prisma coletivo dá ao questionamento uma dimensão
cultural. Em última análise, o que está
em discussão são os critérios para
guardar documentos para não perdê-los ou
decidir apagá-los para evitar um acúmulo
excessivo de material.
Como é de hábito, Chartier mergulha em
diversas áreas do conhecimento, promovendo a
relação entre a interpretação
de textos, descrição histórica,
hermenêutica (arte de desvendar os porquês
de tudo) e morfologia. Essa mesma preocupação
se evidencia na forma de ele lidar com o tempo: há
um progressivo mergulho no passado, mas sem perder de
vista a importância da escrita hoje e suas possibilidades
futuras.
Escrever e apagar um texto, destruindo-o, comporta
um dilema: tudo o que o ser humano produz deve permanecer
para as gerações futuras? A seleção,
no seu próprio tempo, de parte desse material,
não seria uma maneira saudável de evitar
o acúmulo de informações com pouco
ou nenhum valor?
Todavia, como estabelecer, ao longo do tempo, critérios
sobre as ações intelectuais e físicas
das sociedades, na encruzilhada entre acumular documentos
ou destruí-los, para elas não serem engolidas
pela própria produção? O excesso
de informação, principalmente nas atuais
sociedades globalizadas, também não seria
uma forma de anonimato? Afinal, como aponta Chartier,
guardar tudo pode estar bem mais próximo do que
imaginamos do ato de nada guardar.
O escritor chinês Lin Yutang (1895-1976) já
apontava que o universo é um grande livro
e a vida é uma grande escola. Fischer e
Chartier parecem concordar com esse raciocínio.
Ambos alertam para a importância da leitura e
da escrita, respectivamente, como fenômeno lingüístico
e histórico a desafiar a própria capacidade
humana de desafiar o tempo, seja pela necessidade de
adaptações, seja pelo estabelecimento
de paradigmas para tomar difíceis decisões
sobre o que deve ser preservado ou eliminado no presente
para ser consultado no futuro, mantendo o passado vivo.
História da leitura Steven
Roger Fischer; tradução Claudia Freire;
338 páginas;
R$ 49,00.
Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura
Roger Chartier; tradução de Luzmara
Curcino Ferreira; 336 páginas; R$ 35,00. Editora
UNESP. Informações: (11) 3242-7171 ou
www.editoraunesp.com.br
Oscar D'Ambrosio
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