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Junho/2007 – Ano XXI – nº 223    [Voltar]
 
:: LANÇAMENTOS ::

Literatura
Ler, escrever, ser humano
Dois intelectuais de projeção internacional enfatizam importância histórica da escrita e da leitura

O escritor francês François Mauriac (1885-1970), em suas Memórias íntimas, aponta que “escrever é lembrar-se, mas ler é também lembrar-se”. Os universos da escrita e da leitura e a sua complexa relação com o tempo são os temas de dois livros recentemente lançados pela Editora UNESP: História da leitura, de Steven Roger Fischer; e Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura, de Roger Chartier.

Em ambos fica claro que as duas atividades são infinitas, no sentido de gerarem um sem-número de interpretações. Talvez o grande ensinamento que possa ser retirado esteja numa defesa constante da naturalidade e da espontaneidade do ato de criar e numa série de alertas contra qualquer tipo de afetação.

O grande segredo estaria numa difícil combinação entre um certo talento natural associado a uma progressiva dificuldade, já que, quanto mais se lê e se escreve, a exigência em relação ao próprio texto e às escolhas literárias tende a aumentar.

Lingüista norte-americano, com doutorado defendido na Universidade da Califórnia na década de 1970, Fischer se debruça sobre o ato da leitura, os leitores e os ambientes sociais que influenciam o que é lido e como esse processo se dá. Seu estudo mostra a importância dos diversos suportes, passando por pedras, ossos, cascas de árvore, muros, monumentos, tabuletas, rolos de papiro, códices, livros, telas e papel eletrônico.

Uma forma de acompanhar melhor o raciocínio histórico desenvolvido pelo autor é lembrar que ele fala fluentemente inglês, francês, espanhol e alemão, admite se comunicar em outras cinco línguas e ler em cerca de 80 idiomas. Fischer se tornou internacionalmente conhecido, no início dos anos 1980, por ter dado contribuição fundamental para decifrar as inscrições da Ilha de Páscoa.

“Prosa eletrônica”

O lingüista, que vive atualmente na Nova Zelândia, onde dirige o Instituto de Línguas e Literatura Polinésias, diferencia dois tipos de leitura: a literal ou mediata (aprendizado) e a visual ou imediata (fluente).

Todos partiriam da leitura mediata, atribuindo um som a um sinal gráfico. Depois, passa a ser dado um sentido ao sinal, avançando-se, em seguida, para agrupamentos cada vez maiores de sinais, formando frases e sentenças curtas. O contato entre sinal e sentido começa a ser aprimorado com a prática, o que permite ignorar o som. Por isso, para Fischer, leitores freqüentes se tornam fluentes, minimizando o som e maximizando o significado.

Paralelamente a esse raciocínio, existe uma importante reflexão, no Capítulo 7, intitulado “Lendo o futuro”, sobre a internet. O lingüista acredita que, com ela, surgirá uma espécie de “prosa eletrônica”, que seria “a linguagem informal educada dos e-mails”, com provável influência na forma de falar.

Essa comunicação via correio eletrônico caminharia para um padrão médio, situado entre a linguagem oral, cheia de gírias, e a formal das antigas cartas datilografadas. O ideal seria chegar-se a um padrão mais educado do que a linguagem oral e menos formal do que as cartas em papel.

Para a escrita em escala global, o e-mail trouxe uma importante questão, pois muita gente não estava acostumada a escrever antes do surgimento da internet. Ficou então evidente para os internautas algo que os lingüistas já sabiam há tempo: a escrita não tem todos os recursos da linguagem oral.

Ao não ver a expressão e os gestos do interlocutor, nem ouvir seus tons de voz, a redação das frases precisa ser cuidadosamente pensada. Isso levou empresas em todo o mundo a promover cursos para que seus funcionários aprimorem a escrita e se tornem mais aptos a escrever e-mails, evitando ambigüidades ou mal-entendidos que podem gerar prejuízos incalculáveis, tanto em termos de comunicação como financeiros.

Lembrar, esquecer

Combater todo tipo de “esquecimento” ou “mal-entendido” histórico é justamente a preocupação do historiador do livro e da leitura Roger Chartier, diretor de estudos em Ciências Sociais da Escola de Altos Estudos (França) e professor convidado da Universidade da Pensilvânia (EUA).

Em Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura, o pensador francês parte de um curioso raciocínio. Lança, de forma mais ou menos clara, uma mesma pergunta ao longo de sua obra: quantas vezes você escreveu um rascunho e ficou indeciso se devia guardá-lo, passá-lo a limpo e eliminá-lo em seguida ou simplesmente se livrar dele por achar que nunca seria útil?

Estudar essa indagação individual sob um prisma coletivo dá ao questionamento uma dimensão cultural. Em última análise, o que está em discussão são os critérios para guardar documentos para não perdê-los ou decidir apagá-los para evitar um acúmulo excessivo de material.

Como é de hábito, Chartier mergulha em diversas áreas do conhecimento, promovendo a relação entre a interpretação de textos, descrição histórica, hermenêutica (arte de desvendar os porquês de tudo) e morfologia. Essa mesma preocupação se evidencia na forma de ele lidar com o tempo: há um progressivo mergulho no passado, mas sem perder de vista a importância da escrita hoje e suas possibilidades futuras.

Escrever e apagar um texto, destruindo-o, comporta um dilema: tudo o que o ser humano produz deve permanecer para as gerações futuras? A seleção, no seu próprio tempo, de parte desse material, não seria uma maneira saudável de evitar o acúmulo de informações com pouco ou nenhum valor?

Todavia, como estabelecer, ao longo do tempo, critérios sobre as ações intelectuais e físicas das sociedades, na encruzilhada entre acumular documentos ou destruí-los, para elas não serem engolidas pela própria produção? O excesso de informação, principalmente nas atuais sociedades globalizadas, também não seria uma forma de anonimato? Afinal, como aponta Chartier, guardar tudo pode estar bem mais próximo do que imaginamos do ato de nada guardar.

O escritor chinês Lin Yutang (1895-1976) já apontava que “o universo é um grande livro e a vida é uma grande escola”. Fischer e Chartier parecem concordar com esse raciocínio. Ambos alertam para a importância da leitura e da escrita, respectivamente, como fenômeno lingüístico e histórico a desafiar a própria capacidade humana de desafiar o tempo, seja pela necessidade de adaptações, seja pelo estabelecimento de paradigmas para tomar difíceis decisões sobre o que deve ser preservado ou eliminado no presente para ser consultado no futuro, mantendo o passado vivo.

História da leitura – Steven Roger Fischer; tradução Claudia Freire; 338 páginas;
R$ 49,00.
Inscrever e apagar: cultura escrita e literatura – Roger Chartier; tradução de Luzmara Curcino Ferreira; 336 páginas; R$ 35,00. Editora UNESP. Informações: (11) 3242-7171 ou www.editoraunesp.com.br

Oscar D'Ambrosio

 
  ACI