UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::
Junho/2007 – Ano XXI – nº 223    [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::
Resenha
Condição feminina num bairro pobre
Obra relaciona controle de natalidade e desejo de melhoria de vida em área periférica do Recife

Menção Honrosa da Sociedade de Antropologia Médica, órgão da Associação de Antropologia Americana, em 2004, esse livro, agora publicado em português, é resultado do trabalho de Anne Line Dalsgaard, antropóloga dinamarquesa que, durante quatro anos, acompanhou o cotidiano de mulheres de um bairro pobre da região metropolitana do Recife (PE), marcado pela esterilização feminina.

Anne Line mergulhou na descrição das relações pessoais dessas mulheres, estabelecendo elos entre ações individuais, esperanças, aspirações, processos históricos e forças políticas e econômicas. Desse modo, descreveu a esterilização não apenas como um método de controle da natalidade, mas, principalmente, como uma maneira de definir os rumos da própria vida.

Um dos principais méritos do livro é mostrar como as pessoas são conduzidas pelo sonho de felicidade alimentada pelo consumo, pela mídia e pelo mercado. Ampliam assim o desejo de atingir um resultado que permitiria que elas mesmas deixassem de se considerar cidadãs de segunda classe.

Para a antropóloga, a esterilização resulta do “descaso político pelo desejo das mulheres de ter menos filhos e da falha do Estado brasileiro em oferecer normas alternativas de contracepção”. Nessa visão, a opção por não ter filhos manifesta “uma grande preocupação com o futuro e insatisfação com o presente”.

Dados como desemprego, frustrações e divórcio interferem na economia familiar. Isso se alia ao fato de as mulheres geralmente ficarem com a responsabilidade pelo futuro dos filhos. Para piorar, elas convivem com pobreza, negligência e falta de atendimento adequado nos hospitais.

Outras variáveis que envolvem a esterilização estão no arrependimento de algumas mulheres que passam por esse processo. Na sua interação com a comunidade onde residiu com o marido e os filhos, Anne Line enfatiza que as mulheres querem, em última análise, “melhorar a vida”.

O diferencial da publicação está no diálogo entre os relatos das mulheres e os dados e estatísticas coletados e organizados. Professora associada da Aarhus University, a antropóloga tem trabalhado no Brasil durante vários períodos, desde 1997, levando em conta exatamente como a Antropologia pode contribuir para entender melhor questões sociais.

Anne Line se torna uma espécie de antropóloga da desigualdade social, pois não toma as mulheres como um frio objeto de estudo, mas como pessoas com dimensões sociais e psicológicas. O livro funciona como um necessário alerta contra o tecnicismo e a favor do humanismo adormecido da civilização contemporânea.

Vida e esperanças: esterilização feminina no Nordeste – Anne Line Dalsgaard;
tradução Luciano Vieira de Carvalho;
320 páginas; R$ 38,00.
Informações: (11) 3242-7171,
www.editoraunesp.com.br e feu@editora.unesp.br

Oscar D’Ambrosio


 
  ACI