Resenha
Condição feminina num bairro pobre
Obra relaciona controle de natalidade e desejo de
melhoria de vida em área periférica do Recife
Menção
Honrosa da Sociedade de Antropologia Médica,
órgão da Associação de Antropologia
Americana, em 2004, esse livro, agora publicado em português,
é resultado do trabalho de Anne Line Dalsgaard,
antropóloga dinamarquesa que, durante quatro
anos, acompanhou o cotidiano de mulheres de um bairro
pobre da região metropolitana do Recife (PE),
marcado pela esterilização feminina.
Anne Line mergulhou na descrição das
relações pessoais dessas mulheres, estabelecendo
elos entre ações individuais, esperanças,
aspirações, processos históricos
e forças políticas e econômicas.
Desse modo, descreveu a esterilização
não apenas como um método de controle
da natalidade, mas, principalmente, como uma maneira
de definir os rumos da própria vida.
Um dos principais méritos do livro é
mostrar como as pessoas são conduzidas pelo sonho
de felicidade alimentada pelo consumo, pela mídia
e pelo mercado. Ampliam assim o desejo de atingir um
resultado que permitiria que elas mesmas deixassem de
se considerar cidadãs de segunda classe.
Para a antropóloga, a esterilização
resulta do descaso político pelo desejo
das mulheres de ter menos filhos e da falha do Estado
brasileiro em oferecer normas alternativas de contracepção.
Nessa visão, a opção por não
ter filhos manifesta uma grande preocupação
com o futuro e insatisfação com o presente.
Dados como desemprego, frustrações e
divórcio interferem na economia familiar. Isso
se alia ao fato de as mulheres geralmente ficarem com
a responsabilidade pelo futuro dos filhos. Para piorar,
elas convivem com pobreza, negligência e falta
de atendimento adequado nos hospitais.
Outras variáveis que envolvem a esterilização
estão no arrependimento de algumas mulheres que
passam por esse processo. Na sua interação
com a comunidade onde residiu com o marido e os filhos,
Anne Line enfatiza que as mulheres querem, em última
análise, melhorar a vida.
O diferencial da publicação está
no diálogo entre os relatos das mulheres e os
dados e estatísticas coletados e organizados.
Professora associada da Aarhus University, a antropóloga
tem trabalhado no Brasil durante vários períodos,
desde 1997, levando em conta exatamente como a Antropologia
pode contribuir para entender melhor questões
sociais.
Anne Line se torna uma espécie de antropóloga
da desigualdade social, pois não toma as mulheres
como um frio objeto de estudo, mas como pessoas com
dimensões sociais e psicológicas. O livro
funciona como um necessário alerta contra o tecnicismo
e a favor do humanismo adormecido da civilização
contemporânea.
Vida e esperanças: esterilização
feminina no Nordeste Anne Line Dalsgaard;
tradução Luciano Vieira de Carvalho;
320 páginas; R$ 38,00.
Informações: (11) 3242-7171,
www.editoraunesp.com.br e feu@editora.unesp.br
Oscar DAmbrosio
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