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Junho/2007 – Ano XXI – nº 223    [Voltar]
 
:: CULTURA ::

Artes e etnias em São Paulo
Livro lançado por professor do Instituto de Artes resgata história, arte e arquitetura na metrópole paulista

Já chamada de “pátria de heróis e berço de guerreiros” por Fagundes Varela; e de “comoção de minha vida” por Mário de Andrade, a cidade de São Paulo tem sua grandiosidade arquitetônica e urbanística, principalmente a de seu chamado Centro Velho, imortalizada por artistas do passado – e também do presente.

No livro São Paulo: artes e etnias (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; fotografias de Manoel Nunes da Silva; 440 páginas), de Percival Tirapeli, docente do Instituto de Artes, câmpus de São Paulo, a ser lançado em 7 de julho, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, é possível observar a história da cidade e a forma como as mais diversas etnias ergueram muitos tipos de edifícios em todo o muncicípio.

Histórias de edifícios

Lançado pela Editora UNESP e pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, o livro traça um panorama dos mais completos sobre a arte e a arquitetura da Capital paulista. Quem é apaixonado pelos edifícios, luzes e sombras propiciadas ao meio-dia e infinitas variações geradas pela iluminação noturna da cidade ficará fascinado ao conhecer as histórias de edifícios que constroem o espaço urbano com versatilidade técnica apurada.

A São Paulo pela qual passamos milhares de vezes sem reparar na harmonia das linhas e nas riquezas visuais de certas nuanças. O talento dos imigrantes foi trazer do Exterior suas referências, transformando, com delicadeza, rigor e sensibilidade, sua concepção visual num exercício cada vez mais raro na arte contemporânea.

O assunto São Paulo é desenvolvido ainda por aspectos físicos e geográficos, trazendo informações sobre parques, mananciais, distribuição étnica e roteiros do Centro. Temas como a natureza, as nações indígenas, as bandeiras paulistas, arte e fé e, principalmente, os imigrantes são cuidadosamente tratados.

Visões plásticas

A parte II, do livro, voltada especificamente para as etnias, é o ponto mais importante da obra, porque busca resgatar como cada etnia deu a sua contribuição para o crescimento da cidade e, acima de tudo, para a sua visão plástica. Isso inclui o estudo da presença na cidade dos mais variados povos.

Desse modo, somos conduzidos pela riqueza imagética de escravos africanos, de portugueses, espanhóis, ingleses, alemães, franceses, belgas e italianos, de gente da Europa Central e Oriental, do Oriente Médio, do Extremo Oriente e dos sul-americanos, em espaços como Memorial da América Latina.

Na parte III, estuda-se São Paulo sob três ópticas: artes e ciências; construção dos ismos; e construção da metrópole. É possível então verificar como São Paulo, além de ser o berço da Semana de Arte Moderna de 1922, abrigou numerosos artistas estrangeiros, principalmente oriundos da Itália, do Japão e do Leste Europeu, que deixaram, cada qual à sua maneira, marcas pela cidade.

É estudado como pintores, escultores e arquitetos colaboraram para o desenvolvimento dos “ismos” que deram a São Paulo um espaço único no cenário artístico nacional. A presença de imigrantes italianos e espanhóis acentuou a existência de idéias socialistas e anárquicas, que traziam consigo o pensamento futurista, movimento italiano de vanguarda cuja ideologia inflamada repudia agressivamente a tradição e exalta a cidade moderna e a tecnologia da civilização transformada pela técnica.

Segall e Warchavnik

Com a ascensão das culturas alemã e italiana na cidade, houve, no início do século XX, toda uma campanha de trazer para São Paulo a efervescência cultural e intelectual artística da Europa, principalmente de Paris e Berlim. O marco da introdução do Brasil na arte de vanguarda foi o lituano Lasar Segall.

Ainda nos anos 1920, o arquiteto russo-brasileiro Gregori Warchavnik merece destaque. Nascido em Odessa, Rússia, é considerado o primeiro arquiteto modernista da América Latina. Veio trabalhar no Brasil em 1923. Dois anos depois, publicou o primeiro artigo de arquitetura moderna do País, descrevendo a casa como um bem de consumo qualquer. Construiu em São Paulo a primeira residência modernista do Brasil e da América Latina, em 1927. Projetou ainda, entre outras obras, as sedes de diversos clubes de São Paulo, como o Paulistano, o E. C. Pinheiros, o Tietê e a Hebraica.

Santa Helena e Seibi

Ao lado do célebre Grupo Santa Helena, em que os italianos e seus descendentes predominavam, existiu, em São Paulo, o Grupo Seibi, cuja sigla significa Grupo de Artistas Plásticos de São Paulo. Ativo entre 1935 a 1945, reuniu a colônia japonesa da cidade e teve uma existência quase desconhecida, devido à discriminação contra os japoneses na Segunda Guerra e à barreira da língua.

Ao contrário do Santa Helena, o Seibi nunca teve sede ou um local comum de trabalho, nem mesmo uma convivência regular entre os seus membros. As reuniões eram mensais e ocorriam em locais diferentes. O núcleo inicial contava, entre outros, com Tomoo Handa, Walter Sigheto Tanaka e Yoshya Takaoka. Após uma primeira exposição no Clube Japonês, em 1938, alguns membros do grupo, muitos ex-trabalhadores de lavouras de café, começaram a se aproximar dos círculos modernistas.

Dissolvido em 1943, com a Segunda Guerra Mundial, o Grupo Seibi ressurge em 1947, com uma proposta de incentivo à vida artística de São Paulo, e atua até 1970, desaparecendo definitivamente em 1972. Nesse retorno, porém, teve a oportunidade de acolher novos valores, como Manabu Mabe, Tikashi Fukushima e Tomie Ohtake.

Valores essenciais

Os imigrantes também foram importantes nos anos 1950. Um ano após a I Bienal, em 1952, surge o Manifesto Ruptura e é fundado o Grupo Paulista de Arte Concreta. O Grupo Ruptura contou com artistas estrangeiros como Lothar Charoux, Kazmer Fejer, Leopoldo Haar e Anatol Wladislaw, que propunham a renovação dos valores essenciais das artes visuais, levando em conta as novas relações apontadas pela ciência e pelos meios de comunicação entre espaço-tempo, movimento e matéria.

A publicação, em síntese, retoma a ampla tradição do diálogo do Brasil com a Europa no século XX. Aponta ainda para uma importante reflexão: como os jovens artistas plásticos paulistas contemporâneos têm, diante de seus olhos, um rico patrimônio visual, cultural e arquitetônico.

Oscar D’Ambrosio


 
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