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Artes e etnias em São Paulo
Livro lançado por professor do Instituto
de Artes resgata história, arte e arquitetura
na metrópole paulista
Já chamada de
pátria de heróis e berço
de guerreiros por Fagundes Varela; e de comoção
de minha vida por Mário de Andrade, a cidade
de São Paulo tem sua grandiosidade arquitetônica
e urbanística, principalmente a de seu chamado
Centro Velho, imortalizada por artistas do passado
e também do presente.
No livro São Paulo: artes e etnias (Editora
UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo;
fotografias de Manoel Nunes da Silva; 440 páginas),
de Percival Tirapeli, docente do Instituto de Artes,
câmpus de São Paulo, a ser lançado
em 7 de julho, na Pinacoteca do Estado de São
Paulo, é possível observar a história
da cidade e a forma como as mais diversas etnias ergueram
muitos tipos de edifícios em todo o muncicípio.
Histórias de edifícios
Lançado pela Editora UNESP e pela Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo, o livro traça
um panorama dos mais completos sobre a arte e a arquitetura
da Capital paulista. Quem é apaixonado pelos
edifícios, luzes e sombras propiciadas ao meio-dia
e infinitas variações geradas pela iluminação
noturna da cidade ficará fascinado ao conhecer
as histórias de edifícios que constroem
o espaço urbano com versatilidade técnica
apurada.
A São Paulo pela qual passamos milhares de vezes
sem reparar na harmonia das linhas e nas riquezas visuais
de certas nuanças. O talento dos imigrantes foi
trazer do Exterior suas referências, transformando,
com delicadeza, rigor e sensibilidade, sua concepção
visual num exercício cada vez mais raro na arte
contemporânea.
O assunto São Paulo é desenvolvido ainda
por aspectos físicos e geográficos, trazendo
informações sobre parques, mananciais,
distribuição étnica e roteiros
do Centro. Temas como a natureza, as nações
indígenas, as bandeiras paulistas, arte e fé
e, principalmente, os imigrantes são cuidadosamente
tratados.
Visões plásticas
A parte II, do livro, voltada especificamente para
as etnias, é o ponto mais importante da obra,
porque busca resgatar como cada etnia deu a sua contribuição
para o crescimento da cidade e, acima de tudo, para
a sua visão plástica. Isso inclui o estudo
da presença na cidade dos mais variados povos.
Desse modo, somos conduzidos pela riqueza imagética
de escravos africanos, de portugueses, espanhóis,
ingleses, alemães, franceses, belgas e italianos,
de gente da Europa Central e Oriental, do Oriente Médio,
do Extremo Oriente e dos sul-americanos, em espaços
como Memorial da América Latina.
Na parte III, estuda-se São Paulo sob três
ópticas: artes e ciências; construção
dos ismos; e construção da metrópole.
É possível então verificar como
São Paulo, além de ser o berço
da Semana de Arte Moderna de 1922, abrigou numerosos
artistas estrangeiros, principalmente oriundos da Itália,
do Japão e do Leste Europeu, que deixaram, cada
qual à sua maneira, marcas pela cidade.
É estudado como pintores, escultores e arquitetos
colaboraram para o desenvolvimento dos ismos
que deram a São Paulo um espaço único
no cenário artístico nacional. A presença
de imigrantes italianos e espanhóis acentuou
a existência de idéias socialistas e anárquicas,
que traziam consigo o pensamento futurista, movimento
italiano de vanguarda cuja ideologia inflamada repudia
agressivamente a tradição e exalta a cidade
moderna e a tecnologia da civilização
transformada pela técnica.
Segall e Warchavnik
Com a ascensão das culturas alemã e italiana
na cidade, houve, no início do século
XX, toda uma campanha de trazer para São Paulo
a efervescência cultural e intelectual artística
da Europa, principalmente de Paris e Berlim. O marco
da introdução do Brasil na arte de vanguarda
foi o lituano Lasar Segall.
Ainda nos anos 1920, o arquiteto russo-brasileiro Gregori
Warchavnik merece destaque. Nascido em Odessa, Rússia,
é considerado o primeiro arquiteto modernista
da América Latina. Veio trabalhar no Brasil em
1923. Dois anos depois, publicou o primeiro artigo de
arquitetura moderna do País, descrevendo a casa
como um bem de consumo qualquer. Construiu em São
Paulo a primeira residência modernista do Brasil
e da América Latina, em 1927. Projetou ainda,
entre outras obras, as sedes de diversos clubes de São
Paulo, como o Paulistano, o E. C. Pinheiros, o Tietê
e a Hebraica.
Santa Helena e Seibi
Ao lado do célebre Grupo Santa Helena, em que
os italianos e seus descendentes predominavam, existiu,
em São Paulo, o Grupo Seibi, cuja sigla significa
Grupo de Artistas Plásticos de São Paulo.
Ativo entre 1935 a 1945, reuniu a colônia japonesa
da cidade e teve uma existência quase desconhecida,
devido à discriminação contra os
japoneses na Segunda Guerra e à barreira da língua.
Ao contrário do Santa Helena, o Seibi nunca
teve sede ou um local comum de trabalho, nem mesmo uma
convivência regular entre os seus membros. As
reuniões eram mensais e ocorriam em locais diferentes.
O núcleo inicial contava, entre outros, com Tomoo
Handa, Walter Sigheto Tanaka e Yoshya Takaoka. Após
uma primeira exposição no Clube Japonês,
em 1938, alguns membros do grupo, muitos ex-trabalhadores
de lavouras de café, começaram a se aproximar
dos círculos modernistas.
Dissolvido em 1943, com a Segunda Guerra Mundial, o
Grupo Seibi ressurge em 1947, com uma proposta de incentivo
à vida artística de São Paulo,
e atua até 1970, desaparecendo definitivamente
em 1972. Nesse retorno, porém, teve a oportunidade
de acolher novos valores, como Manabu Mabe, Tikashi
Fukushima e Tomie Ohtake.
Valores essenciais
Os imigrantes também foram importantes nos anos
1950. Um ano após a I Bienal, em 1952, surge
o Manifesto Ruptura e é fundado o Grupo Paulista
de Arte Concreta. O Grupo Ruptura contou com artistas
estrangeiros como Lothar Charoux, Kazmer Fejer, Leopoldo
Haar e Anatol Wladislaw, que propunham a renovação
dos valores essenciais das artes visuais, levando em
conta as novas relações apontadas pela
ciência e pelos meios de comunicação
entre espaço-tempo, movimento e matéria.
A publicação, em síntese, retoma
a ampla tradição do diálogo do
Brasil com a Europa no século XX. Aponta ainda
para uma importante reflexão: como os jovens
artistas plásticos paulistas contemporâneos
têm, diante de seus olhos, um rico patrimônio
visual, cultural e arquitetônico.
Oscar DAmbrosio
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