Entrevista/Milton lahuerta
É preciso rever modelo econômico
Sociólogo ressalta que exclusão do mercado
de trabalho leva milhões a viver no limite da legalidade
Professor de Teoria
Política, Milton Lahuerta é coordenador
do Programa de Pós-Graduação em
Sociologia da FCL de Araraquara. Nesta entrevista, a
partir de questões como criminalidade, maioridade
penal, consumismo e políticas públicas,
Lahuerta enfatiza a necessidade de não só
repensar o atual modelo socioeconômico em sua
totalidade, mas também de rever a própria
forma de se colocar o problema.
Jornal UNESP Quais as principais chaves interpretativas
da violência urbana discutidas no Seminário?
Milton Lahuerta A violência não
é um fenômeno exclusivo do Brasil ou do
chamado Terceiro Mundo. Na raiz desse problema, coabitam
fatores como a desarticulação de formas
tradicionais de organização e controle
sobre a sociedade, a emergência de um hiperindividualismo
e o total esvaziamento das energias utópicas
da sociedade. O elemento decisivo na articulação
dessas novas formas de violência, porém,
é a emergência de um novo padrão
produtivo e tecnológico.
JU A lógica do consumo desenfreado também
é fator preocupante?
Milton Lahuerta Essa lógica personifica
a vitória plena do capitalismo, do consumismo
e do hedonismo. Parcelas cada vez maiores da população
não conseguem se socializar pelo trabalho formal.
Esse fato faz com que uma monumental quantidade de pessoas
passe a viver no limiar entre legalidade e ilegalidade,
contribuindo para generalizar o que chamo de moralidade
elástica. É por essa razão
que o Brasil pela irresolução do
problema da escravidão, combinada com a modernização
autoritária e ininterrupta que marcou sua trajetória
torna-se uma espécie de posto avançado
não só para pensar a violência contemporânea,
mas também para refletir sobre os seus fundamentos.
JU Qual é o papel da Universidade diante
dessas demandas sociais?
Lahuerta Neste mundo marcado pelas transformações
rápidas e pelo culto da velocidade, os valores
clássicos da humanidade não são
mais levados a sério. À universidade,
portanto, está destinado um duplo papel: o de
resgatar e transmitir as experiências e os valores
acumulados pela humanidade e o de ensinar as novas gerações
não só a pesquisar e descobrir o novo,
mas também a organizar a infinita quantidade
de informações a partir de algum tipo
de hierarquia moral.
JU Como podemos analisar o comportamento da
sociedade diante do avanço da violência?
Lahuerta As proposições de diminuição
da maioridade penal, pena de morte, prisão perpétua,
atestam o medo da sociedade diante do caráter
de massa dos acontecimentos. Todas essas são
soluções equivocadas e ineficazes. A maioria
dos indivíduos que cometem ou vão cometer
crimes não foi e não será mais
incorporada pelo mercado formal de trabalho. Nesse contexto,
a forma mais freqüente de reconhecimento social
se traduz numa hiper-radicalização consumista,
com a tentativa de afirmar alguma distinção
pela incorporação dos ícones de
sucesso que consagram a hegemonia capitalista.
JU Como pensar o jovem neste cenário?
Lahuerta A maior vítima neste cenário
é, sem dúvida, o jovem. Por melhores condições
profissionais e familiares de que disponha, ele encontrará
imensas dificuldades de se socializar pelo trabalho.
A questão chave está em repensarmos o
modelo em seu conjunto. Há que se aumentar a
reflexividade social, reduzindo o ritmo e alterando
o sentido das modificações, refreando
o ethos consumista e destrutivo, desencadeando processos
no quais se construam valores que não estejam
centrados na lógica do custo/benefício,
mas que recuperem dimensões humanas essenciais
de solidariedade, ética e tolerância.
Natália Botura de Paula Ferreira,
bolsista UNESP/Universia/FCL/Araraquara
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