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Junho/2007 – Ano XXI – nº 223    [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::
Entrevista/Milton lahuerta
‘É preciso rever modelo econômico’
Sociólogo ressalta que exclusão do mercado de trabalho leva milhões a viver no limite da legalidade

Professor de Teoria Política, Milton Lahuerta é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FCL de Araraquara. Nesta entrevista, a partir de questões como criminalidade, maioridade penal, consumismo e políticas públicas, Lahuerta enfatiza a necessidade de não só repensar o atual modelo socioeconômico em sua totalidade, mas também de rever a própria forma de se colocar o problema.

Jornal UNESP – Quais as principais chaves interpretativas da violência urbana discutidas no Seminário?
Milton Lahuerta – A violência não é um fenômeno exclusivo do Brasil ou do chamado Terceiro Mundo. Na raiz desse problema, coabitam fatores como a desarticulação de formas tradicionais de organização e controle sobre a sociedade, a emergência de um hiperindividualismo e o total esvaziamento das energias utópicas da sociedade. O elemento decisivo na articulação dessas novas formas de violência, porém, é a emergência de um novo padrão produtivo e tecnológico.

JU – A lógica do consumo desenfreado também é fator preocupante?
Milton Lahuerta – Essa lógica personifica a vitória plena do capitalismo, do consumismo e do hedonismo. Parcelas cada vez maiores da população não conseguem se socializar pelo trabalho formal. Esse fato faz com que uma monumental quantidade de pessoas passe a viver no limiar entre legalidade e ilegalidade, contribuindo para generalizar o que chamo de “moralidade elástica”. É por essa razão que o Brasil – pela irresolução do problema da escravidão, combinada com a modernização autoritária e ininterrupta que marcou sua trajetória – torna-se uma espécie de posto avançado não só para pensar a violência contemporânea, mas também para refletir sobre os seus fundamentos.

JU – Qual é o papel da Universidade diante dessas demandas sociais?
Lahuerta – Neste mundo marcado pelas transformações rápidas e pelo culto da velocidade, os valores clássicos da humanidade não são mais levados a sério. À universidade, portanto, está destinado um duplo papel: o de resgatar e transmitir as experiências e os valores acumulados pela humanidade e o de ensinar as novas gerações não só a pesquisar e descobrir o novo, mas também a organizar a infinita quantidade de informações a partir de algum tipo de hierarquia moral.

JU – Como podemos analisar o comportamento da sociedade diante do avanço da violência?
Lahuerta – As proposições de diminuição da maioridade penal, pena de morte, prisão perpétua, atestam o medo da sociedade diante do caráter de massa dos acontecimentos. Todas essas são soluções equivocadas e ineficazes. A maioria dos indivíduos que cometem ou vão cometer crimes não foi e não será mais incorporada pelo mercado formal de trabalho. Nesse contexto, a forma mais freqüente de reconhecimento social se traduz numa hiper-radicalização consumista, com a tentativa de afirmar alguma distinção pela incorporação dos ícones de sucesso que consagram a hegemonia capitalista.

JU – Como pensar o jovem neste cenário?
Lahuerta –A maior vítima neste cenário é, sem dúvida, o jovem. Por melhores condições profissionais e familiares de que disponha, ele encontrará imensas dificuldades de se socializar pelo trabalho. A questão chave está em repensarmos o modelo em seu conjunto. Há que se aumentar a reflexividade social, reduzindo o ritmo e alterando o sentido das modificações, refreando o ethos consumista e destrutivo, desencadeando processos no quais se construam valores que não estejam centrados na lógica do custo/benefício, mas que recuperem dimensões humanas essenciais de solidariedade, ética e tolerância.

Natália Botura de Paula Ferreira,
bolsista UNESP/Universia/FCL/Araraquara


 
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