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Maio/2007– Ano XXI – nº 222    [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS EXATAS ::

Física
Resíduos viram tijolos e cerâmicas
Bagaço de cana, óleo queimado e lodo de esgoto são usados para obter novos itens para construção

Geralmente considerados inúteis pelas empresas, restos de material industrial e orgânico, como bagaço de cana-de-açúcar, óleo queimado e lodo de tratamento de água e esgoto doméstico, poderão ajudar a produzir tijolos, telhas, pisos cerâmicos e carvão vegetal. Os experimentos estão sendo realizados pelo físico Silvio Rainho Teixeira, na Faculdade de Ciências Tecnológicas (FCT), campus de Presidente Prudente, com a colaboração da Associação das Cerâmicas e Olarias da região, com o objetivo de aperfeiçoar a produtividade e desenvolver novos produtos.

“É um projeto que agrega valor a alguns produtos à base de cerâmica, promove o desenvolvimento tecnológico e busca preservar o ambiente”, resume Teixeira. “A descoberta de novos compostos dará maior sobrevida às atuais reservas de argilas, já escassas, e reduzirá o desmatamento promovido para obtenção de carvão vegetal.”

A partir de resíduos da queima do bagaço de cana, gerados na produção de álcool, Teixeira pretende criar matéria-prima mais resistente para a fabricação de pisos cerâmicos. “Da cinza mais fina, separamos o carvão do quartzo fino, que, com outros elementos químicos misturados à argila, confere maior resistência à cerâmica”, explica. “Como apresenta alta concentração de sílica cristalina e algumas substâncias que ajudam a fundir elementos químicos, esse material poderá ser misturado com argila para obtenção de cerâmica de qualidade.”

O pó de carvão do bagaço de cana também está sendo testado para produzir pelotas de carvão vegetal, hoje obtido pela queima de florestas. “Se todo o carvão fino gerado nesse processo fosse separado, daria para produzir cerca de 10% do carvão vegetal consumido no País”, estima Teixeira. Ele ressalta a importância de as usinas utilizarem filtros nas chaminés, o que já é obrigatório, para impedir que essas partículas poluam a atmosfera.

Lodo e garrafas pet

Já o lodo produzido em estações de tratamento de esgoto e água poderá ser utilizado na fabricação de tijolos porosos com propriedades isolantes térmicas e acústicas. Esses rejeitos ficam acumulados próximo a zonas urbanas, exalando mau cheiro. “Os testes mostraram que o lodo é semelhante às argilas usadas nas cerâmicas”, afirma Teixeira. A maior dificuldade é que sua composição varia de acordo com a época em que é produzido, o que dificulta a padronização do produto final. “Porém, todos os modelos experimentais com lodo apresentaram resistência mecânica adequada à produção de tijolos maciços”, explica o docente.

Entre os resíduos industriais estudados, o pó de vidro presente no vasilhame de garrafas pet descartáveis apresentou os melhores resultados na incorporação à cerâmica, em termos de resistência mecânica e diminuição de absorção de água. “Constatamos que ele tende a melhorar a qualidade da argila disponível na nossa região”, diz o físico. Em relação à utilização do óleo queimado, Teixeira diz que, apesar de algumas dificuldades, ele também pode melhorar a qualidade da cerâmica fabricada regionalmente.

Agora, o docente espera tornar as novas tecnologias viáveis financeiramente e adequá-las aos processos de produção em larga escala. Para isso, dez alunos de iniciação científica dos cursos de Física e Engenharia Ambiental e dois alunos de mestrado vão prosseguir as pesquisas.

De acordo com o presidente da Associação das Cerâmicas e Olarias da região de Presidente Prudente, José Fredi, os estudos da UNESP poderão dar sobrevida aos poucos depósitos de argila-várzea ainda existentes. Desde 1999, quando parte dos depósitos da argila-várzea, a mais indicada para a produção de tijolos e telhas, foi coberta pelo lago da Hidroelétrica Porto Primavera, várias cerâmicas e olarias fecharam.

As pesquisas também podem melhorar a eficácia da argila mais dura. “Nesse caso, o grande desafio será diminuir o custo de produção, caso contrário, em cinco anos, todas as cerâmicas vão fechar as suas portas”, alerta o empresário. Em todo Pontal do Paranapanema há cerca de 90 empresas do ramo.

Julio Zanella


 
  ACI