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Jornal UNESP :::
Março/2007– Ano XX – nº 220   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: A FAMÍLIA EM TRANSFORMAÇÃO ::

Uma instituição que se adapta à vida moderna
Maria de Fátima Araújo

Práticas educativas democráticas supõem um espaço de negociação e respeito aos limites

Falar da família na atualidade nos remete a uma questão instigante: sua perenidade. Após tantos questionamentos e transformações, a família continua sendo um “valor” universal? Qual a sua importância hoje? Ela se mantém como matriz de identidade e principal referência afetiva e social? Embora essas perguntas sejam amplas demais para este espaço, vale a pena pensar um pouco sobre elas.

Nas diversas sociedades, sempre existiu alguma forma de família. Mas, apesar dessa pretensa universalidade, a família não é um fenômeno natural. Seus valores, papéis, funções e estruturas são definidos de acordo com os contextos socioculturais e econômicos. Não se pode falar da família em geral, mas de formas de família produzidas de acordo com o momento histórico.

A família moderna, que surgiu com a ascensão da burguesia, é uma forma particular. Reduzida ao seu núcleo primário, ela concentrou-se nas funções afetiva e socializadora, ao contrário da velha família extensa (aristocrática), cujas principais funções eram a conservação de bens (herança), a descendência, a ajuda mútua e a proteção da honra e da vida.

Incorporando o ideário judaico-cristão, a família moderna (burguesa) foi, durante muito tempo, idealizada como um santuário da moral e dos bons costumes, célula básica da sociedade, lugar de cuidado, proteção e amor entre seus membros. Mas, ao mesmo tempo, foi muito criticada como um lugar de repressão, autoritarismo e violência.

O questionamento da família como espaço de opressão e alienação ganhou maior visibilidade na década de 1960, sob a influência do feminismo, da revolução sexual e demais movimentos libertários. Desde então, a família tem passado por inúmeras transformações. Apontada muitas vezes como uma instituição em crise ou em vias de extinção, ela tem se renovado para atender às novas demandas e necessidades individuais, sociais, econômicas e políticas produzidas pela vida moderna globalizada.

Dentre essas transformações merecem destaque as mudanças nas relações de gênero, resultantes da luta feminista pela igualdade e por relações mais democráticas entre homens e mulheres. Embora a assimilação das conquistas feministas não ocorra da mesma forma nos diferentes segmentos e contextos sociais, é visível o seu impacto nas relações de poder dentro da família.

Nesse processo, as mulheres foram as grandes revolucionárias. Conquistando novas posições no mundo social e no trabalho, aumentaram seu poder de negociação e decisão ao se tornarem co-provedoras da família. E os homens, à medida que não conseguiam (ou não queriam) mais manter-se no lugar de principal provedor e detentor do poder, foram obrigados a compartilhá-lo com as mulheres.

Além das questões de gênero, a convivência com a diversidade de valores, escolhas, estilos de vida e fluidez de desejos e necessidades, principais marcas do mundo ocidental contemporâneo, tem produzido significativas mudanças nas relações afetivo-sexuais e familiares. A busca de vínculos livres do compromisso e das “amarras” institucionais, contraditoriamente, em vez de fortalecer a liberdade e a independência, acentua o sentimento de desamparo. E, apesar da diversidade de modos de ser e viver, o casamento e a família ressurgem como um “refúgio num mundo sem coração”, como sugere Christopher Lasch.

Nesse cenário, a família formada pelo casal heterossexual e os filhos continua sendo uma matriz hegemônica, mas convive com outras configurações familiares, tais como as famílias monoparentais (constituídas por um dos genitores e os filhos), famílias reconstituídas (casais separados com filhos de relações anteriores), famílias homossexuais (casal homossexual e filhos) e, também, casais sem filhos.

Outro aspecto relaciona-se com as práticas educativas. Ao perderem as referências tradicionais, muitos pais mostram-se totalmente desorientados. Renegam os modelos anteriores (coercitivos e autoritários), mas têm dificuldade de lidar com as novas práticas (mais democráticas e cooperativas).

A adoção de práticas educativas democráticas não implica no abandono da autoridade, ao contrário, supõe um espaço de negociação e respeito aos limites de cada um, às diferenças e à alteridade. O exercício da democracia é o grande desafio das famílias de hoje, que buscam distanciar-se dos modelos hierárquicos e autoritários.

Considerando que a família ainda tem um importante papel na formação do indivíduo e da sociedade, as mudanças apontadas nas relações de gênero e nas práticas educativas são fundamentais para o desenvolvimento de indivíduos mais autônomos e eticamente comprometidos com uma sociedade mais democrática e igualitária.

Maria de Fátima Araújo, doutora em Psicologia, é terapeuta familiar, docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência e Relações de Gênero da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, campus de Assis.
E-mail: fatimaraujo@uol.com.br



 
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