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Jornal UNESP :::
Março/2007 – Ano XX – nº 220   [Voltar]
 
:: FÍSICA ::

Computador cósmico
Para Gerard ‘t Hooft, ganhador do Prêmio Nobel, as partículas elementares são apenas o efeito da ação de objetos ainda menores, responsáveis pelo processamento da informação que constitui o universo

O funcionamento do universo assemelha-se ao de um gigantesco computador. Alguns físicos, como o holandês Gerard ‘t Hooft, pensam assim. O pesquisador, que visitou o Instituto de Física Teórica (IFT) da UNESP, em fevereiro, é uma das mentes mais criativas de sua área, sendo comparado a Stephen Hawking. (Leia o quadro.)

Ao desenvolver sua hipótese, ‘t Hooft (pronuncia-se “Tuft”) toma um caminho radical. Para ele, as menores peças do computador cósmico não são o que a maioria dos físicos considera os blocos fundamentais da matéria – as partículas elementares, como elétrons, fótons e quarks. Os objetos que fariam o mundo funcionar estariam em um domínio microscópico inalcançável, processando a informação do que vemos como realidade.

‘t Hooft acredita que as partículas elementares são meras aparências. O que os físicos chamam de “elétron” seria, de fato, o efeito combinado de inúmeros e minúsculos objetos se movendo em um espaço um bilhão de bilhões de vezes menor que o núcleo atômico. Aí estariam os reais carregadores dos “bits” elementares do universo.

Bush e Hussein

No entanto, esses objetos variáveis seriam tantos que, apesar de podermos formular em uma folha de papel as leis que regem seu comportamento, seria impossível descrevê-los. “É como querer descrever o que cada uma das bilhões de pessoas da Terra faz”, compara. “Usamos os métodos estatísticos: mil pessoas fazem isso, milhões de pessoas fazem aquilo. Mas não temos o controle da situação: uma pessoa se torna um Sadam Hussein, a outra um George Bush.”

A mesma coisa ocorre com os objetos variáveis de ‘t Hooft. “Algumas coisas vão acontecer sem uma causa aparente. É exatamente o que vemos na mecânica quântica”, explica, referindo-se ao caráter imprevisível das partículas elementares.

Outros pesquisadores buscaram “variáveis ocultas” por trás da mecânica quântica, sem sucesso. Nenhum deles, entretanto, abandonou o conceito de partícula, como ‘t Hooft fez. Mas ele reconhece que enfrenta sérias dificuldades. “Tentei construir modelos para explicar matematicamente o que quero dizer e falhei. Mas não vou desistir”, ele confessa.

A hipótese de ‘t Hooft nasceu quando ele pensava nos buracos negros, as fontes de gravidade mais fortes que existem. Intrigado com uma misteriosa contradição, ‘t Hooft reexaminou a linguagem que descreve as partículas – a mecânica quântica. “Não digo que a mecânica quântica está errada”, argumenta. “A conclusão é que ela pode não ser a linguagem mais adequada para a teoria final da natureza.”

Contribuição premiada

“A idéia é muito especulativa, mas é sempre bom ouvir o que ‘t Hooft tem a dizer”, comenta George Matsas, docente do IFT. O holandês surpreendeu o mundo da física já em 1971. Com apenas 25 anos, ele e seu orientador na época, Martinus Veltman, forneceram o ingrediente chave para calcular o comportamento das partículas elementares. Em parte graças às suas descobertas, nas décadas seguintes, as experiências com aceleradores de partículas confirmaram a teoria chamada hoje de Modelo Padrão. Essa contribuição foi reconhecida em 1999, quando a dupla ganhou o Prêmio Nobel de Física.

‘t Hooft ressalta a importância da intuição na abordagem dos problemas e no desenvolvimento de experimentos. “Para obter progressos na ciência, são necessárias novas idéias. A razão pela qual a física alcançou seu atual estado de perfeição é porque há tantas pessoas diferentes, com idéias diferentes, neste planeta”, diz. Ele nota, todavia, que o fator intuitivo é um passo intermediário, que não interfere no produto final.

O físico holandês mostra-se otimista quanto às perspectivas de expansão dos atuais limites do conhecimento. “Tenho uma confiança enorme na engenhosidade humana”, declara. À primeira vista, parece absurda a fé de ‘t Hooft na inteligência de macacos que evoluíram para atirar pedras e flechas uns nos outros. Afinal, nossos cérebros não mudaram quase nada, desde os tempos das cavernas. “A diferença entre arcos e flechas, de um lado, e partículas elementares, do outro, não é tão grande assim. É tudo lógica”, afirma ‘t Hooft. “Tudo o que os cérebros fazem é processar lógica, que é universal.”

Máquinas inteligentes

Descontente com as visões de futuro apresentadas por escritores de ficção científica, ‘t Hooft escreveu um livro a respeito, cujo título em português seria Bilhar com planetas. “A ficção que gostaria de fazer possui uma regra extra: ela tem de concordar com as leis da física”, propõe. Segundo ele, os escritores imaginam que as leis conhecidas serão refutadas e trocadas por outras que realizarão suas fantasias, como viagens interestelares. Na verdade, mesmo que as leis se alterem, o que podemos fazer com elas mudará pouco. O fantástico, segundo ‘t Hooft, está “nas pequenas lacunas entre as leis”.

Ele argumenta que não existe lei da física que proíba um computador de se tornar mais inteligente que um ser humano. Para o físico, basta construir uma máquina que processe lógica mais rápido do que nossos cérebros. “Acho que um dia isso vai acontecer, e os computadores poderão entender melhor do que nós como a natureza funciona”, ele sonha. “Talvez esses mesmos computadores possam nos ensinar.” A partir dessa sugestão, dá até para imaginar o computador HAL9000, do filme 2001 – Uma odisséia no espaço, falando com paciência: “Vou explicar bem devagarinho, Dave, para você entender.”

“Escola de física” reúne brasileiros e holandeses
Entre 4 e 9 de fevereiro, aconteceu no Instituto de Física Teórica (IFT), na cidade de São Paulo, a Escola de Física Teórica Holanda-IFT. A série de minicursos, palestras e seminários envolveu uma colaboração entre a Escola de Pesquisa Holandesa de Física Teórica (DRSTP) e o IFT. O destaque do evento foi a participação do ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1999, Gerard ‘t Hooft.

A DRSTP é um encontro anual dos estudantes de pós-graduação, organizado pelos grupos de pesquisas em Física Teórica de seis universidades dos Países Baixos. Há mais de 20 anos, o evento é promovido, com a duração de duas semanas.

Em 2004, dirigentes da Universidade de Amsterdã visitaram o IFT e diferentes universidades latino-americanas, em busca de parcerias para intercâmbio científico em todas as áreas do conhecimento. No Brasil, a delegação se concentrou no Estado de São Paulo, onde selecionou algumas instituições de reconhecimento internacional. Na área de ciências exatas, a escolhida foi o IFT.

A proposta de intercâmbio foi realizar a DRSTP no Brasil. A primeira semana da DRSTP aconteceu em Campos do Jordão (SP), com a Escola André Swieca de Partículas e Campos, da Sociedade Brasileira de Física, e a segunda, no IFT.

 

Igor Zolnerkevic

 

 
  ACI