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Computador cósmico
Para Gerard t Hooft, ganhador do Prêmio
Nobel, as partículas elementares são apenas
o efeito da ação de objetos ainda menores,
responsáveis pelo processamento da informação
que constitui o universo
O funcionamento do universo
assemelha-se ao de um gigantesco computador. Alguns
físicos, como o holandês Gerard t
Hooft, pensam assim. O pesquisador, que visitou o Instituto
de Física Teórica (IFT) da UNESP, em fevereiro,
é uma das mentes mais criativas de sua área,
sendo comparado a Stephen Hawking. (Leia o quadro.)
Ao desenvolver sua hipótese, t Hooft (pronuncia-se
Tuft) toma um caminho radical. Para ele,
as menores peças do computador cósmico
não são o que a maioria dos físicos
considera os blocos fundamentais da matéria
as partículas elementares, como elétrons,
fótons e quarks. Os objetos que fariam o mundo
funcionar estariam em um domínio microscópico
inalcançável, processando a informação
do que vemos como realidade.
t Hooft acredita que as partículas elementares
são meras aparências. O que os físicos
chamam de elétron seria, de fato,
o efeito combinado de inúmeros e minúsculos
objetos se movendo em um espaço um bilhão
de bilhões de vezes menor que o núcleo
atômico. Aí estariam os reais carregadores
dos bits elementares do universo.
Bush e Hussein
No entanto, esses objetos variáveis seriam tantos
que, apesar de podermos formular em uma folha de papel
as leis que regem seu comportamento, seria impossível
descrevê-los. É como querer descrever
o que cada uma das bilhões de pessoas da Terra
faz, compara. Usamos os métodos estatísticos:
mil pessoas fazem isso, milhões de pessoas fazem
aquilo. Mas não temos o controle da situação:
uma pessoa se torna um Sadam Hussein, a outra um George
Bush.
A mesma coisa ocorre com os objetos variáveis
de t Hooft. Algumas coisas vão acontecer
sem uma causa aparente. É exatamente o que vemos
na mecânica quântica, explica, referindo-se
ao caráter imprevisível das partículas
elementares.
Outros pesquisadores buscaram variáveis
ocultas por trás da mecânica quântica,
sem sucesso. Nenhum deles, entretanto, abandonou o conceito
de partícula, como t Hooft fez. Mas ele
reconhece que enfrenta sérias dificuldades. Tentei
construir modelos para explicar matematicamente o que
quero dizer e falhei. Mas não vou desistir,
ele confessa.
A hipótese de t Hooft nasceu quando ele
pensava nos buracos negros, as fontes de gravidade mais
fortes que existem. Intrigado com uma misteriosa contradição,
t Hooft reexaminou a linguagem que descreve as
partículas a mecânica quântica.
Não digo que a mecânica quântica
está errada, argumenta. A conclusão
é que ela pode não ser a linguagem mais
adequada para a teoria final da natureza.
Contribuição premiada
A idéia é muito especulativa, mas
é sempre bom ouvir o que t Hooft tem a
dizer, comenta George Matsas, docente do IFT.
O holandês surpreendeu o mundo da física
já em 1971. Com apenas 25 anos, ele e seu orientador
na época, Martinus Veltman, forneceram o ingrediente
chave para calcular o comportamento das partículas
elementares. Em parte graças às suas descobertas,
nas décadas seguintes, as experiências
com aceleradores de partículas confirmaram a
teoria chamada hoje de Modelo Padrão. Essa contribuição
foi reconhecida em 1999, quando a dupla ganhou o Prêmio
Nobel de Física.
t Hooft ressalta a importância da intuição
na abordagem dos problemas e no desenvolvimento de experimentos.
Para obter progressos na ciência, são
necessárias novas idéias. A razão
pela qual a física alcançou seu atual
estado de perfeição é porque há
tantas pessoas diferentes, com idéias diferentes,
neste planeta, diz. Ele nota, todavia, que o fator
intuitivo é um passo intermediário, que
não interfere no produto final.
O físico holandês mostra-se otimista quanto
às perspectivas de expansão dos atuais
limites do conhecimento. Tenho uma confiança
enorme na engenhosidade humana, declara. À
primeira vista, parece absurda a fé de t
Hooft na inteligência de macacos que evoluíram
para atirar pedras e flechas uns nos outros. Afinal,
nossos cérebros não mudaram quase nada,
desde os tempos das cavernas. A diferença
entre arcos e flechas, de um lado, e partículas
elementares, do outro, não é tão
grande assim. É tudo lógica, afirma
t Hooft. Tudo o que os cérebros fazem
é processar lógica, que é universal.
Máquinas inteligentes
Descontente com as visões de futuro apresentadas
por escritores de ficção científica,
t Hooft escreveu um livro a respeito, cujo título
em português seria Bilhar com planetas. A
ficção que gostaria de fazer possui uma
regra extra: ela tem de concordar com as leis da física,
propõe. Segundo ele, os escritores imaginam que
as leis conhecidas serão refutadas e trocadas
por outras que realizarão suas fantasias, como
viagens interestelares. Na verdade, mesmo que as leis
se alterem, o que podemos fazer com elas mudará
pouco. O fantástico, segundo t Hooft, está
nas pequenas lacunas entre as leis.
Ele argumenta que não existe lei da física
que proíba um computador de se tornar mais inteligente
que um ser humano. Para o físico, basta construir
uma máquina que processe lógica mais rápido
do que nossos cérebros. Acho que um dia
isso vai acontecer, e os computadores poderão
entender melhor do que nós como a natureza funciona,
ele sonha. Talvez esses mesmos computadores possam
nos ensinar. A partir dessa sugestão, dá
até para imaginar o computador HAL9000, do filme
2001 Uma odisséia no espaço, falando
com paciência: Vou explicar bem devagarinho,
Dave, para você entender.
| Escola
de física reúne brasileiros
e holandeses |
| Entre
4 e 9 de fevereiro, aconteceu no Instituto
de Física Teórica (IFT), na
cidade de São Paulo, a Escola de Física
Teórica Holanda-IFT. A série
de minicursos, palestras e seminários
envolveu uma colaboração entre
a Escola de Pesquisa Holandesa de Física
Teórica (DRSTP) e o IFT. O destaque
do evento foi a participação
do ganhador do Prêmio Nobel de Física
de 1999, Gerard t Hooft.
A DRSTP é um encontro anual dos
estudantes de pós-graduação,
organizado pelos grupos de pesquisas em
Física Teórica de seis universidades
dos Países Baixos. Há mais
de 20 anos, o evento é promovido,
com a duração de duas semanas.
Em 2004, dirigentes da Universidade de
Amsterdã visitaram o IFT e diferentes
universidades latino-americanas, em busca
de parcerias para intercâmbio científico
em todas as áreas do conhecimento.
No Brasil, a delegação se
concentrou no Estado de São Paulo,
onde selecionou algumas instituições
de reconhecimento internacional. Na área
de ciências exatas, a escolhida foi
o IFT.
A proposta de intercâmbio foi realizar
a DRSTP no Brasil. A primeira semana da
DRSTP aconteceu em Campos do Jordão
(SP), com a Escola André Swieca de
Partículas e Campos, da Sociedade
Brasileira de Física, e a segunda,
no IFT.
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Igor Zolnerkevic
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