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Biologia Molecular
Uma droga contra veneno
de serpente
Substância atualmente testada em seres humanos
impede o processo de necrose que ocorre na área
picada; equipe que desenvolveu produto também
estuda fármacos contra trombose e câncer
Uma droga desenvolvida
a partir de pesquisas realizadas no campus de São
José do Rio Preto pode se tornar uma nova alternativa
de combate aos efeitos do veneno de serpentes como a
cascavel e a jararaca. Esse fármaco foi produzido
por meio de alterações na molécula
do polietilenoglicol, tradicionalmente usado como laxante
e componente de produtos de higiene, como cremes dentais.
O produto obtido dessa mudança evita o processo
de necrose que ocorre na região da picada, causado
pela enzima fosfolipase A2, presente no veneno dessas
serpentes. Atualmente, as pessoas atacadas são
tratadas com soro antiofídico, que é eficaz
para impedir que a vítima morra, mas não
elimina a ocorrência da necrose, ou seja, a morte
dos tecidos próximos da área picada.
A substância atualmente está em fase de
testes em seres humanos. No futuro, a droga poderá
ser um importante complemento terapêutico ao soro
antiofídico, prevê o físico
Raghuvir Krishnaswamy Arni, coordenador do Grupo de
Cristalografia de Macromoléculas, do Instituto
de Biociências, Letras e Ciências Exatas
(Ibilce). Arni liderou os trabalhos que elucidaram o
funcionamento da molécula da fosfolipase A2,
o que permitiu fazer as mudanças adequadas no
polietilenoglicol para anular o efeito dessa enzima.
(Leia matéria "Cristalografia
ajuda a desvendar ação das proteinas".)
Tratamento de tromboses
Outra linha de pesquisa da equipe volta-se para a produção
de fármacos com menos efeitos indesejáveis
no tratamento de tromboses e outras enfermidades cardiovasculares.
Com esse objetivo, Mário Tyago Murakami, um dos
onze membros do grupo, está analisando a estrutura
de uma proteína produzida pelo verme que provoca
o amarelão, um hematófago do gênero
Ancylostoma. O verme causa anemia aguda, pois as proteínas
presentes em sua saliva impedem a coagulação
do sangue. Atualmente, o remédio mais utilizado
contra distúrbios cardiovasculares, além
de inibir a proteína-alvo, também bloqueia
outras não previstas, causando efeitos colaterais
como as hemorragias, observa Murakami.
Segundo Arni, em colaboração com o laboratório
suíço Pentapharma, fármacos planejados
com base nessa proteína anticoagulante produzida
pelo verme estão sendo testados clinicamente.
Os resultados obtidos por nosso grupo dão
as informações essenciais, em nível
molecular, para desenvolver medicamentos precisos para
a prevenção ou cura de males cardiovasculares,
destaca.
Por esse trabalho, Murakami conquistou, em 2006, o
X Prêmio Jovem Talento em Ciências da Vida,
promovido pela Sociedade Brasileira de Bioquímica
e Biologia Molecular (SBBq) e GE HealthCare. Indústrias
farmacêuticas de todo o mundo investem cerca de
15 bilhões de dólares por ano para obter
drogas terapêuticas contra essas doenças,
assinala Arni.
União de esforços
Essas duas pesquisas do grupo são realizadas
em colaboração com o CAT (Centro de Toxinologia
Aplicada) do Instituto Butantan, em São Paulo,
um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação
e Difusão (Cepid) criados em 2000 pela Fapesp
(Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo). Além da UNESP,
outras instituições, como a USP, integram
o CAT/Cepid, que estuda biomoléculas com aplicação
farmacológica ou clínica. No estudo do
polietilenoglicol, os testes são feitos também
em colaboração com o professor Paulo Melo,
do curso de Medicina da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ).
A equipe de Rio Preto estuda, ainda, o potencial da
angiostatina no combate a células cancerígenas.
A angiostatina é uma proteína envolvida
na inibição do desenvolvimento de vasos
sangüíneos que transportam nutrientes para
as células, inclusive as tumorais. A droga
resultante das pesquisas em andamento poderá
inibir os vasos que alimentam os tumores, matando-os
de fome, esclarece.
Após quatro anos de colaboração
com um grupo de cristalógrafos da Universidade
de Michigan (EUA), Arni conseguiu determinar a estrutura
tridimensional da angiostatina. O próximo passo
será delimitar a parte específica da proteína
que opera no mecanismo do crescimento dos vasos sangüíneos,
para, a partir daí, propor um modelo de chave
para o bloqueio desse processo.
Genira Chagas
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