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O governo Lula e a política
externa (I)
Sebastião Velasco e Cruz
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Uma das maiores mudanças
é a defesa incisiva dos interesses
nacionais nos fóruns multilaterais
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Desde sua eleição,
as palavras e os gestos do presidente Lula tornavam
patente para o público interno e externo que
a América do Sul passaria a ocupar um papel central
no traçado da política externa brasileira.
Convém relembrar: a escolha nada casual da Argentina
como primeiro país a visitar depois de sua vitória
nas urnas; a ênfase posta, nos pronunciamentos
que fez nessa e em ocasiões subseqüentes,
na integração sul-americana e reconstrução
do Mercosul. Considerava-se que o Mercosul dos anos
1990, plataforma para a abertura indiscriminada das
economias, devia incorporar projetos de desenvolvimento
impulsionados por políticas públicas ativas,
transitando do modelo de integração negativa
para outro de integração positiva.1
Nessa primeira reunião Lula-Duhalde com suas
equipes, em novembro de 2002, mencionou-se a necessidade
de voltar ao espírito do Pice (Programa de Integração
Comercial e Econômica), assinado pelos presidentes
Sarney e Alfonsín nos anos 1980, que iniciou
uma aproximação inédita dos dois
países em todas as áreas da produção,
do trabalho e do conhecimento. Nos marcos desse acordo,
assinaram-se primeiramente 24 protocolos setoriais e
posteriormente outros 24, abrangendo todas as áreas.
O segundo sinal eloqüente de mudança na
política externa brasileira manifestou-se na
desenvoltura nova com que a diplomacia passou a intervir
no debate dos temas críticos da política
mundial. Foi o que se viu ainda em janeiro de 2003,
quando, em visitas ao chanceler Gerhard Schroeder e
ao presidente Jacques Chirac, Lula perfilou-se com os
países acusados pelo secretário de Defesa
dos Estados Unidos, dias antes, de representar a velha
Europa, pronunciando-se claramente pela busca
de uma solução pacífica para a
crise do Iraque. A tradição diplomática
brasileira sempre se pautou pela defesa do princípio
da não-agressão e da resolução
negociada dos conflitos internacionais, atitude reafirmada
quando da Guerra do Golfo, na década passada.
O que distingue a conduta diplomática do novo
governo é a disposição de ir além
da simples reiteração de uma posição
doutrinária para advogar um tratamento à
crise francamente contrário à política
da potência hegemônica. O que foi feito
por meio de telefonemas e cartas do presidente Lula
a líderes da Europa e da América, e de
pronunciamentos críticos quando as operações
de guerra foram afinal desencadeadas.
Essa disposição de interpelar a comunidade
internacional já tinha se manifestado antes no
discurso vibrante de Lula no Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre, e no papel que desempenhou no Fórum
Econômico Mundial, em Davos, ao falar do problema
da fome no ambiente seleto desse auditório.
Significativo em si mesmo, o sentido geral desses atos
esclarecia-se nas exposições feitas, desde
o período de transição de governos,
pelos formuladores daquela política. Como didaticamente
explicavam, a novidade na política externa do
governo Lula não consistia na eleição
de objetivos explícitos radicalmente distintos
dos que prevaleciam até então. No plano
do discurso, pareceria haver continuidade sensível
entre os dois governos; mas tal aparência não
deveria alimentar equívocos: a prática
diplomática seria completamente diversa. Ela
acentuaria algumas mudanças já esboçadas
no final do governo precedente e traria para o topo
da agenda algumas prioridades novas, como foi visto.
2 Mas as diferenças fundamentais não estariam
aí: elas seriam expressas pela ênfase nova
nos aspectos políticos da conduta diplomática,
pela defesa mais incisiva dos interesses nacionais nos
fóruns multilaterais, e pela disposição
de traduzir em atos as intenções proclamadas
no discurso da diplomacia.
O papel do Brasil e do Mercosul na reunião da
OMC em Cancún (2003) ilustra bem essa nova conduta.
A formação do G20, com países que
representam aproximadamente 60% da população
do planeta, significou uma mudança na geografia
política mundial, porque esses países
tornaram-se, pela primeira vez, protagonistas das negociações
comerciais no seio da OMC. Essa aliança permite
a articulação dos interesses de países
em desenvolvimento que, mesmo com contradições,
têm o objetivo comum de enfrentar as políticas
protecionistas dos países ricos.
Essa estratégia de inserção internacional
que, sem descuidar as relações com os
Estados Unidos e a União Européia, valoriza
a dimensão SulSul teve expressão
na expansão das relações com a
África, a Ásia e o Oriente Médio.
A realização em Brasília da Cúpula
América do Sul-Países Árabes, em
maio de 2005, mostrou a autonomia do governo brasileiro,
que manteve sua decisão frente às ressalvas
dos Estados Unidos perante essa iniciativa.
A mesma conduta se reflete no tratamento dispensado
ao cronograma do processo negociador da Alca (Área
de Livre Comércio das Américas).
Sebastião Velasco e Cruz é professor
titular do Departamento de Ciência Política
da Unicamp e professor do Programa San Tiago Dantas
de Relações Internacionais, mantido
pela UNESP, Unicamp e PUC/SP.
1 Ver Merkel, Wolfgang, Legitimacy and
Democracy: Endogenous Limits of European Integration,
in Anderson, Jeffrey J. (ed.), Regional Integration
and Democracy, Rowman & Littlefield Publishers,
Oxford, 1999.
2 PT avisa que vai mudar rumo da diplomacia.
O Estado de S. Paulo, 15-12-2002.
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