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Vidas da cerâmica
Após anos de convívio, docente
revela a arte e o cotidiano de ceramistas do Vale do
Jequitinhonha
As ópticas social,
antropológica e estética se mesclam no
livro Noivas da seca: cerâmica popular do Vale
do Jequitinhonha, de Lalada Dalglish, ceramista e docente
do Instituto de Artes da UNESP, campus de São
Paulo. Lançada em dezembro, na Pinacoteca do
Estado, a obra, incluída nas celebrações
de 30 anos da Universidade, é resultado do convívio
da professora com as mulheres ceramistas da região.
A autora apresenta o cotidiano e a obra dessas artesãs,
que há gerações vêm transmitindo
às filhas e netas os segredos da cerâmica.
Mestra e doutora na área e autora do livro Mestre
Cardoso: a arte da cerâmica amazônica, ela
iniciou seu contato com essa atividade na década
de 1970.
Ceramista praticante e especialista em história
da cerâmica na América Latina, a autora,
que implantou departamentos de cerâmica e ministrou
cursos e palestras em várias instituições
no Brasil e no Exterior, escreveu um livro que
se fundamenta no conhecimento aprofundado do universo
de relações existentes na cerâmica
popular gerada pelas comunidades do Vale.
São levados em conta fatores estéticos
e socioculturais relacionados a produção,
distribuição e consumo das obras produzidas
em Caraí (Ribeirão do Capivara), Turmalina
(Campo Alegre), Minas Novas (Coqueiro Campo) e Santana
do Araçuaí. A autora verifica como ocorre
o processo criativo e como a tradição
e os estilos regionais são, de certa forma, mantidos,
mas também transformados em função
das necessidades de venda.
Arte e indústria
Para se ter uma melhor visão do livro, cabe
lembrar que a palavra cerâmica vem do grego êÝñáìïò,
argila, indicando a atividade de produção
de artefatos a partir desse material, que se torna mais
fácil de moldar quando umedecido. Após
passar por uma secagem lenta à sombra para retirar
a maior parte da água, a peça moldada
é submetida a altas temperaturas, que lhe atribuem
rigidez e resistência mediante a fusão
de certos componentes da massa, fixando os esmaltes
das superfícies.
Outra questão essencial para acompanhar melhor
o trabalho da autora é ter sempre em mente que
a cerâmica tanto pode ser uma atividade artística,
em que são produzidas peças com valor
estético, como uma atividade industrial, pela
qual há a criação de artefatos
com valor utilitário.
O mais interessante é que, ao contrário
do que alguns insistem em dizer, a produção
de cerâmica deu importância fundamental
à estética, com produtos geralmente ligados
ao uso doméstico ou ao comércio, mas nem
por isso menos compromissados com a beleza plástica.
A região estudada, o Vale do Jequitinhonha,
é considerada hoje um dos maiores centros produtores
de artesanato cerâmico no Brasil, sendo um novo
referencial sociocultural e econômico, já
que grande parte da população das comunidades
sobrevive atualmente do artesanato. Lalada verifica
como a cerâmica é um ofício para
toda a família, transmitido para as novas gerações.
Essa tradição é muito forte justamente
na área estudada nesse livro, que se situa no
norte do Estado de Minas Gerais, banhada pelo rio Jequitinhonha
e seus afluentes. A região ocupa mais de 85 mil
km², sendo habitada por aproximadamente 1 milhão
de pessoas, distribuídas em cerca de 80 municípios.
A maior parte do solo é árida, castigada
regularmente por secas e enchentes, sendo que 75% da
população vive na área rural praticando
uma agricultura e pecuária rudimentares. Formada
no passado por florestas e habitada por tribos indígenas,
a região sofreu, porém, com a atividade
predatória da mineração.
A região apresenta o excelente e criativo artesanato
em cerâmica enfocado na obra de Lalada. São
ainda desenvolvidas atividades de tecelagem, cestaria,
esculturas em madeira, trabalhos em couro, bordados,
pintura, desenho e música. Lalada conta ainda
como os trabalhos com barro no Vale iniciaram-se com
a confecção de peças utilitárias,
feitas pelas mulheres chamadas de paneleiras.
Tradição feminina
A tradição manteve-se com gerações
de bisavós, avós, mães e filhas,
que faziam moringas, vasilhas, panelas e potes com uma
marcante influência indígena. Produziam
também figuras para adornar presépios
e brinquedos. Com o passar do tempo, surgiram peças
decorativas, com figuras humanas, animais, cenas do
cotidiano, tipos, usos e costumes da região.
O livro percorre o histórico do Vale, sua arquitetura
e cotidiano, além de registrar a vida e obra
das artesãs, com idades que variam de 15 a 82
anos, analisando sua produção. Trata-se,
portanto, do aprofundamento de estudos em comunidades
de ceramistas, atividade a que Lalada se dedica há
três décadas.
Além de mostrar como as artesãs locais
fazem para comercializar a produção, seja
de forma individual ou em grupo, a pesquisadora se vale
de seus sete anos de reflexões e trabalho de
campo na pesquisa para verificar como parte da transformação
estética na cerâmica da região está
vinculada à demanda do mercado.
Uma grande interrogação colocada pelo
livro é justamente o destino dessas comunidades
ceramistas. Um caminho apontado reside na criação
de museus ou entidades culturais que resgatem a história
daquilo que é feito em diversas regiões
do País, respeitando tanto a forma de produção
como as características intrínsecas de
cada trabalho.
No prefácio, Lisbeth Rebollo, diretora do Museu
de Arte Contemporânea da USP, ressalta como Lalada
consegue relacionar arte e vida, além de natureza
e cultura. Um dos principais méritos do livro
está justamente em apresentar as artistas não
apenas como produtoras de bens culturais, mas em suas
mais diversas facetas, como as de esposas e mães.
Desse modo, ao mesmo tempo em que é iniciado
nas técnicas que incluem a construção
de fornos e a preparação de tintas, o
leitor também recebe informações
preciosas sobre o cotidiano de cada criadora. Isso foi
obtido graças a um processo de vivência
da autora com as artistas no desempenho das mais diversas
atividades, como cuidar das crianças, lavar e
cozinhar.
As artistas são mostradas como seres humanos
repletos de riqueza interior, não como mulheres
portadoras de um talento divino especial. Atividades
artesanais, métodos de trabalho individuais e
rituais de vida vão se fundindo de modo a traçar
painéis de mulheres que, numa região onde
a seca impera, fazem de sua arte, muitas vezes identificada
com a criação de belas noivas de cerâmica,
uma atividade em que o sublime contato com a matéria
terra se encontra com o cotidiano. Daí surge
uma energia criativa permanente, que se plasma em trabalhos
plásticos de excepcional singeleza, criatividade
e delicadeza.
Oscar DAmbrosio
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