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Jornal UNESP :::
Janeiro-Fevereiro/2007 – Ano XX – nº 219    [Voltar]
 
:: ARTESANATO ::

Vidas da cerâmica
Após anos de convívio, docente revela a arte e o cotidiano de ceramistas do Vale do Jequitinhonha

As ópticas social, antropológica e estética se mesclam no livro Noivas da seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha, de Lalada Dalglish, ceramista e docente do Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo. Lançada em dezembro, na Pinacoteca do Estado, a obra, incluída nas celebrações de 30 anos da Universidade, é resultado do convívio da professora com as mulheres ceramistas da região.

A autora apresenta o cotidiano e a obra dessas artesãs, que há gerações vêm transmitindo às filhas e netas os segredos da cerâmica. Mestra e doutora na área e autora do livro Mestre Cardoso: a arte da cerâmica amazônica, ela iniciou seu contato com essa atividade na década de 1970.

Ceramista  praticante e especialista em história da cerâmica na América Latina, a autora, que implantou departamentos de cerâmica e ministrou cursos e palestras em várias instituições no Brasil e no Exterior, escreveu um livro que se fundamenta no conhecimento aprofundado do universo de relações existentes na cerâmica popular gerada pelas comunidades do Vale.

São levados em conta fatores estéticos e socioculturais relacionados a produção, distribuição e consumo das obras produzidas em Caraí (Ribeirão do Capivara), Turmalina (Campo Alegre), Minas Novas (Coqueiro Campo) e Santana do Araçuaí. A autora verifica como ocorre o processo criativo e como a tradição e os estilos regionais são, de certa forma, mantidos, mas também transformados em função das necessidades de venda.

Arte e indústria

Para se ter uma melhor visão do livro, cabe lembrar que a palavra cerâmica vem do grego êÝñáìïò, “argila”, indicando a atividade de produção de artefatos a partir desse material, que se torna mais fácil de moldar quando umedecido. Após passar por uma secagem lenta à sombra para retirar a maior parte da água, a peça moldada é submetida a altas temperaturas, que lhe atribuem rigidez e resistência mediante a fusão de certos componentes da massa, fixando os esmaltes das superfícies.

Outra questão essencial para acompanhar melhor o trabalho da autora é ter sempre em mente que a cerâmica tanto pode ser uma atividade artística, em que são produzidas peças com valor estético, como uma atividade industrial, pela qual há a criação de artefatos com valor utilitário.

O mais interessante é que, ao contrário do que alguns insistem em dizer, a produção de cerâmica deu importância fundamental à estética, com produtos geralmente ligados ao uso doméstico ou ao comércio, mas nem por isso menos compromissados com a beleza plástica.

A região estudada, o Vale do Jequitinhonha, é considerada hoje um dos maiores centros produtores de artesanato cerâmico no Brasil, sendo um novo referencial sociocultural e econômico, já que grande parte da população das comunidades sobrevive atualmente do artesanato. Lalada verifica como a cerâmica é um ofício para toda a família, transmitido para as novas gerações.

Essa tradição é muito forte justamente na área estudada nesse livro, que se situa no norte do Estado de Minas Gerais, banhada pelo rio Jequitinhonha e seus afluentes. A região ocupa mais de 85 mil km², sendo habitada por aproximadamente 1 milhão de pessoas, distribuídas em cerca de 80 municípios.

A maior parte do solo é árida, castigada regularmente por secas e enchentes, sendo que 75% da população vive na área rural praticando uma agricultura e pecuária rudimentares. Formada no passado por florestas e habitada por tribos indígenas, a região sofreu, porém, com a atividade predatória da mineração.

A região apresenta o excelente e criativo artesanato em cerâmica enfocado na obra de Lalada. São ainda desenvolvidas atividades de tecelagem, cestaria, esculturas em madeira, trabalhos em couro, bordados, pintura, desenho e música. Lalada conta ainda como os trabalhos com barro no Vale iniciaram-se com a confecção de peças utilitárias, feitas pelas mulheres chamadas de paneleiras.

Tradição feminina

A tradição manteve-se com gerações de bisavós, avós, mães e filhas, que faziam moringas, vasilhas, panelas e potes com uma marcante influência indígena. Produziam também figuras para adornar presépios e brinquedos. Com o passar do tempo, surgiram peças decorativas, com figuras humanas, animais, cenas do cotidiano, tipos, usos e costumes da região.

O livro percorre o histórico do Vale, sua arquitetura e cotidiano, além de registrar a vida e obra das artesãs, com idades que variam de 15 a 82 anos, analisando sua produção. Trata-se, portanto, do aprofundamento de estudos em comunidades de ceramistas, atividade a que Lalada se dedica há três décadas.

Além de mostrar como as artesãs locais fazem para comercializar a produção, seja de forma individual ou em grupo, a pesquisadora se vale de seus sete anos de reflexões e trabalho de campo na pesquisa para verificar como parte da transformação estética na cerâmica da região está vinculada à demanda do mercado.

Uma grande interrogação colocada pelo livro é justamente o destino dessas comunidades ceramistas. Um caminho apontado reside na criação de museus ou entidades culturais que resgatem a história daquilo que é feito em diversas regiões do País, respeitando tanto a forma de produção como as características intrínsecas de cada trabalho.

No prefácio, Lisbeth Rebollo, diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP, ressalta como Lalada consegue relacionar arte e vida, além de natureza e cultura. Um dos principais méritos do livro está justamente em apresentar as artistas não apenas como produtoras de bens culturais, mas em suas mais diversas facetas, como as de esposas e mães.

Desse modo, ao mesmo tempo em que é iniciado nas técnicas que incluem a construção de fornos e a preparação de tintas, o leitor também recebe informações preciosas sobre o cotidiano de cada criadora. Isso foi obtido graças a um processo de vivência da autora com as artistas no desempenho das mais diversas atividades, como cuidar das crianças, lavar e cozinhar.

As artistas são mostradas como seres humanos repletos de riqueza interior, não como mulheres portadoras de um talento divino especial. Atividades artesanais, métodos de trabalho individuais e rituais de vida vão se fundindo de modo a traçar painéis de mulheres que, numa região onde a seca impera, fazem de sua arte, muitas vezes identificada com a criação de belas noivas de cerâmica, uma atividade em que o sublime contato com a matéria terra se encontra com o cotidiano. Daí surge uma energia criativa permanente, que se plasma em trabalhos plásticos de excepcional singeleza, criatividade e delicadeza.

Oscar D’Ambrosio


 
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