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A dúvida infinita
da ciência
David Gross, que recebeu o título de doutor honoris
causa da UNESP, reflete sobre o conhecimento
Para David Gross, o
produto mais importante do conhecimento é a ignorância.
Ele sempre aborda essa questão aparentemente
contraditória nas palestras que profere desde
que ganhou o Prêmio Nobel de Física de
2004. A mais recente aconteceu na abertura do XXVII
Encontro Nacional de Física de Partículas
e Campos, em Águas de Lindóia (SP), quando
recebeu da UNESP o título de doutor honoris causa.
(Leia o quadro abaixo.)
As perguntas que fazemos hoje em física
de partículas e astrofísica são
muito mais interessantes que as questões em voga
há 25, 35 anos quando eu era um estudante de
pós-graduação, compara Gross,
que dirige o Instituto Kavli de Física Teórica
da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara,
Estados Unidos.
Isso acontece, segundo ele, porque aprendemos cada
vez mais. A situação sugere a imagem de
alguém que viveria numa ilha de conhecimento,
cercada por um mar de ignorância. Quando a área
dessa ilha aumenta pelo progresso da ciência,
também aumenta o litoral a fronteira com
o desconhecido. Para Gross, a expansão dessa
fronteira é o fruto mais valioso do conhecimento.
Informação recente
Como surgiu o universo?, por exemplo, é
uma velha questão religiosa e filosófica,
que somente agora se tornou questão científica.
Na palestra, Gross mostrou um diagrama com a história
de 13 bilhões de anos do universo, feito quase
apenas com o conhecimento adquirido nos últimos
25 anos.
Hoje, a quantidade de dados sobre galáxias,
estrelas e planetas é suficiente para testar
modelos precisos de como essas estruturas se formaram.
Podemos ver a luz de um tempo em que ainda não
existiam átomos, disse ele, referindo-se
à radiação de microondas que permeia
o cosmos, uma descoberta recente que evidencia que o
universo surgiu do big bang.
Esse fenômeno apareceu 300 mil anos depois da
grande explosão. Os físicos esperam descobrir
o que aconteceu nesse período, quando se formaram
os primeiros núcleos atômicos, estudando
as marcas deixadas na radiação de microondas.
Tal radiação também fornece evidências
indiretas sobre como nasceram as partículas elementares
nos primeiros milionésimos de segundo do universo
e como o próprio espaço e o tempo surgiram
de uma estrutura ainda mais fundamental.
Outra maneira de sondar o big bang é através
das ondas gravitacionais, previstas pela teoria da relatividade
geral, que poderão ser detectadas nos próximos
anos por experimentos em vários países.
A relatividade geral é um dos dois pilares da
física moderna e um dos desafios mais importantes
da área volta-se para as maneiras de testá-la
em situações astronômicas onde a
força gravitacional é tão extrema
que se formam os buracos negros, dos quais nada escapa.
O outro pilar é a mecânica quântica,
que descreve o mundo microscópico.
Teoria unificada
Gross falou da teoria que ajudou a construir, o Modelo
Padrão, que descreve quais são as partículas
elementares (quarks e fótons, por exemplo) que
constituem a matéria e quais são as responsáveis
pelas forças fundamentais, com exceção
da gravidade. A teoria permite prever o resultado de
reações observadas em aceleradores mas
não explica o padrão bizarro
dos valores de suas massas e as intensidades das forças.
Gross acredita que esses valores deverão em
breve ser explicados por uma descrição
unificada de todas as forças. A candidata favorita
do físico é a teoria das supercordas
que propõe que as partículas elementares
são minúsculos filamentos que vibrariam
entre diferentes dimensões do espaço ,
na qual ele trabalha desde os anos 1970. A teoria de
cordas não é uma teoria no sentido usual.
Recentemente, suas diferentes versões se revelaram
partes de um todo desconhecido, que poderia ser a tão
sonhada unificação. A hipótese
das supercordas talvez possa ser verificada no Grande
Colisor de Hádrons (LHC), o acelerador de partículas
mais energético do mundo, que deve começar
a operar em 2007, na fronteira da Suíça
com a França.
Se os físicos de 30 anos atrás não
podiam propor algumas dessas questões cientificamente,
outras nem eram sonhadas. A descoberta de que
95% da densidade de energia do Universo está
em uma forma desconhecida nos pegou de surpresa,
disse Gross. Os movimentos das galáxias, a expansão
do universo e as variações na radiação
cósmica de fundo só fazem sentido quando
se assume que existem formas de matéria e energia
invisíveis, cuja origem pode
apenas ser suposta.
Especializações
Diversos físicos hoje se dirigem para a biologia,
atraídos pela grande quantidade de dados nos
códigos genéticos e pela possibilidade
de realizarem previsões para experimentos de
evolução de bactérias.
Muitos físicos também estão
se voltando para a neurociência, fazendo perguntas
sobre a
auto-organização dos sistemas nervosos,
disse Gross. Eles se questionam sobre temas como a possibilidade
de quantificar a consciência ou medir seu surgimento
em um bebê.
Gross teme que a tendência à superespecialização
transforme subáreas da física em disciplinas
diferentes no futuro. Acho importante que todos
os físicos tenham a mesma formação
básica, comentou.
A última pergunta que Gross fez à platéia
indica o risco de que os próximos projetos de
satélites e aceleradores de partículas
se tornem inviáveis em termos financeiros. Daqui
a 25 anos, as grandes questões ainda estarão
conosco. Que novas abordagens já deveríamos
começar a considerar para respondê-las?,
desafiou.
| Homenagem
em Águas de Lindóia |
No dia 24 de setembro, o reitor da
UNESP, Marcos Macari, outorgou ao físico
David Gross o título de doutor honoris
causa, na cerimônia de abertura do XXVII
Encontro Nacional de Física de Partículas
e Campos, em Águas de Lindóia
(SP).
Macari disse que a UNESP concedeu o título
a Gross por suas contribuições
ao entendimento das interações
fundamentais da natureza e por sua carreira
científica exemplar. Fico
realmente emocionado, disse o físico.
Espero retornar aqui em breve para
mais palestras e conferências.
Nascido em 1941, Gross dividiu o Prêmio
Nobel de Física em 2004 com Frank
Wilczek e David Politzer pela descoberta,
em 1973, de uma propriedade essencial da
força que mantém os núcleos
atômicos coesos.
A direção do Instituto de
Física Teórica (IFT) propôs
a homenagem ao pesquisador, que aceitou
o convite para participar do encontro, feito
por Rogério Rosenfeld, vice-diretor
do IFT.
A concessão do título ocorre
geralmente em uma reunião solene
do Conselho Universitário. Devido
à agenda cheia de Gross, porém,
Macari concordou em realizar a entrega no
encontro. Além de Macari e Rosenfeld,
o evento contou com a presença de
Marina Nielsen, secretária-geral
da Sociedade Brasileira de Física,
e Gastão Krein, diretor do IFT.
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Igor Zolnerkevic
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