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Física
Busca das dimensões ocultas
IFT participa de experimento que tenta provar que universo
não é apenas tridimensional
Descobrir uma outra
dimensão espacial, além das três
conhecidas altura, comprimento e largura ,
pode parecer algo tão espantoso quanto ver um
desenho numa folha de papel se tornar tridimensional
e sair andando pelo mundo. Muitos cientistas, no entanto,
argumentam que apenas a existência de uma dimensão
extra explicaria relações ainda misteriosas
entre as forças observadas no universo, como
gravidade, eletromagnetismo e forças nucleares.
Pesquisadores do Instituto de Física Teórica
(IFT) da UNESP integram os estudos em nível internacional
para verificar a validade das teorias sobre dimensões
desconhecidas. Com a ajuda de softwares e redes de computadores,
eles analisam as colisões de partículas
subatômicas no caso, prótons e antiprótons
realizadas no maior acelerador de partículas
em atividade, o Tevatron, instalado no Fermilab (Laboratório
Acelerador Nacional Fermi), em Illinois, nos EUA.
Coordenado por Sérgio Novaes, docente do IFT,
o Centro Regional de Análises de São Paulo
(Sprace, em inglês) participa de uma colaboração
entre 664 físicos de 83 instituições
de 18 países, além de atuar em outros
projetos (leia o quadro). Essa rede de especialistas
opera o DZero, um dos dois detectores do Tevatron que
registram e analisam os rastros deixados por partículas
elementares.
Além do controle feito pelos funcionários
do Fermilab, há um rodízio entre os grupos
de pesquisa, que supervisionam on-line o funcionamento
do experimento. É um esforço mundial
para descobrir de que o universo é feito,
afirma Eduardo Gregores, integrante do Sprace.
Espaço reduzidíssimo
O Tevatron é um anel de 6 km de circunferência
e o DZero tem a altura de um prédio de cinco
andares. Ao longo do anel, eletroímãs
aceleram prótons e antiprótons em direções
opostas. Os primeiros são partículas presentes
em todos os núcleos atômicos, enquanto
os últimos são partículas parecidas,
mas de carga elétrica oposta. Concentrados em
feixes da espessura de um fio de cabelo, eles colidem
entre si milhões de vezes por segundo. O DZero
detecta e registra digitalmente o resultado das colisões,
e softwares especiais selecionam dados que são
armazenados para futuras análises, como as do
Sprace.
Sérgio Lietti, que também faz parte do
grupo do IFT, ressalta que outras dimensões possivelmente
não foram detectadas devido ao seu tamanho reduzidíssimo.
Percorrer sua extensão seria como dar a volta
em um círculo inacessível até mesmo
para a maioria das partículas elementares.
Lietti compara a condição dessa dimensão
oculta a uma corda estendida num circo, na qual o equilibrista
só pode ir e vir. Já uma formiga
poderia tanto ir para frente e para trás, como
para baixo e para cima, dando voltas em torno da corda,
comenta. A formiga é pequena o suficiente
para explorar a segunda dimensão da superfície
da corda.
Os físicos acreditam que as partículas
elementares sejam como pontos infinitesimais dotados
de energia. Quanto mais energia elas tiverem, menor
poderá ser o tamanho das coisas que as afetariam.
Por isso, se uma dimensão extra fosse extensa
o suficiente para influir sobre as partículas
aceleradas no Tevatron, os efeitos de sua existência
seriam detectáveis.
Criação e destruição
Quando próton e antipróton colidem, ambos
desaparecem. Em seu lugar surge uma cascata de outras
partículas. Os físicos analisam essa mudança
por meio da teoria quântica dos campos, que descreve
a transformação de algumas partículas
em outras. De acordo com os especialistas, podem surgir,
depois da colisão, partículas aparentadas
de velhos conhecidos como os fótons, que seriam
capazes de viajar por uma dimensão extra. Os
teóricos as chamam de partículas de Kaluza-Klein,
ou de estados KK.
Antes, havia a Lei de Lavoisier: nada se cria,
nada se perde, tudo se transforma. A teoria quântica
dos campos virou essa frase do avesso, explica
Gregores. O que sabemos hoje é que a transformação
é um processo de destruição e de
criação. Precisamos concentrar energia
para que do vácuo surjam novas partículas.
A quantidade e as características das partículas
detectadas (mésons, múons, elétrons,
neutrinos, fótons, etc.) dependem da energia
do par próton/antipróton e das leis do
chamado modelo padrão a teoria voltada
para a identificação das partículas
fundamentais. Ao aumentar a energia, os frutos da colisão
começariam a depender de fatores desconhecidos,
como as possíveis dimensões extras.
Simulação virtual
A pesquisa do Sprace conta com a participação
de um especialista em dimensões extras, Greg
Landsberg, da Universidade de Brown, Rhode Island, EUA,
que já foi o coordenador do DZero para buscas
por novos fenômenos. Landsberg explica que, hoje,
ele e o Sprace procuram a melhor maneira de simular
em computador os sinais que a criação
de estados KK produziria no DZero.
Nesse processo, os pesquisadores precisarão
levar em conta também todos os processos conhecidos
que poderiam deixar marcas parecidas os chamados
eventos de fundo (background). O passo seguinte será
comparar o sinal e o fundo simulados em computador com
os dados reais do DZero.
Gregores dá uma idéia da chance, se houver
dimensões extras, de acontecer o evento que a
equipe procura, entre todos os possíveis no Tevatron.
É como se tivessemos que achar um grãozinho
pintado de azul, perdido no meio de um tanque com 10
milhões de toneladas de areia, algo como umas
cinqüenta praias de Copacabana, compara.
| Equipe
conectada a várias redes internacionais |
| Os
membros do Sprace são Sérgio
Novaes, docente do IFT; Eduardo Gregores,
Pedro Mercadante e Sérgio Lietti, vinculados
ao IFT pelo projeto Jovem Pesquisador, da
Fapesp; e Rogério Iope, pós-graduando
da Escola Politécnica da USP.
O Sprace possui 240 computadores, instalados
no campus da USP e interligados com redes
internacionais. O objetivo dessas redes
é compartilhar o poder de seus computadores
para processar as enormes quantidades de
dados de projetos científicos como
aceleradores de partículas, observatórios
astronômicos e seqüenciamentos
de DNA.
Desde março de 2004, o Sprace faz
parte da Samgrid, rede com núcleos
nos EUA, Europa, Índia e Brasil que
analisa os dados dos dois detectores do
Tevatron: o CDF e o DZero.
Desde agosto de 2005, o grupo da UNESP
também participa da Open Science
Grid (OSG), que interliga redes de projetos
científicos dos EUA, incluindo colaboradores
na Coréia do Sul, em Taiwan e no
Brasil.
O Sprace se prepara, ainda, para participar
da rede que vai analisar os dados do CMS,
um dos quatro detectores do sucessor do
Tevatron, o LHC, instalado no Cern (Centro
Europeu de Pesquisas Nucleares), em Genebra,
Suíça, que deve entrar em
atividade em 2007.
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Igor Zolnerkevic
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