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Agosto/2006 – Ano XX – nº 214   [Voltar]
 
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O dedo na ferida da razão
Em obra inédita no País, Thomas Kuhn reafirma sua tese de que ciência não é uma “aproximação cada vez maior da realidade” e da impossibilidade de diálogo entre grupos de diferentes paradigmas

Em seu pequeno texto Uma Dificuldade da Psicanálise, de 1917, Freud afirmou que a primeira grande ofensa à auto-imagem da civilização humana havia sido a revolução copernicana, por ter substituído a cosmologia geocêntrica pelo heliocentrismo e tirado definitivamente dos homens a idéia de que eles ocupavam um lugar privilegiado no Universo. O segundo grande golpe, disse ele, foi desferido pela teoria da evolução de Darwin, que colocou nossa espécie diante da constatação de que ela não é tão diferente dos outros animais, como até então se imaginava. E, segundo o fundador da psicanálise, a terceira e mais sensível ofensa às ilusões narcisistas da civilização foi sua teoria baseada na existência de processos psíquicos inconscientes, pois o homem, apesar de já exteriormente humilhado, ainda se sentia “soberano em sua própria alma”. Não há nenhum exagero em afirmar que a primeira grande ferida narcísica da ciência foi provocada pelo norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996), cuja obra póstuma O caminho desde a estrutura a Editora UNESP acaba de publicar.

Editado por James Conant e John Haugeland, ambos teóricos da ciência e professores do Departamento de Filosofia da Universidade de Chicago, o volume foi publicado originalmente em 2000, e seu título remete ao do livro mais famoso de Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, de 1962 (publicado em 1976 no Brasil pela Editora Perspectiva). Após ter concluído sua graduação em física (1943), o mestrado (1946) e o doutorado (1949) em Harvard, assumiu lá também uma cadeira de história e filosofia da ciência até 1956. Depois disso, lecionou nas universidades da Califórnia, em Berkeley (1956-1964), Princeton (1964-1979) e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (1979-1991).

O livro póstumo reúne 11 ensaios de Kuhn, dos quais alguns inéditos em português, e a transcrição de um debate dele com professores de história e filosofia da ciência na Universidade de Atenas em outubro de 1995. A seleção dos textos foi realizada de modo a mostrar as reflexões do autor na reavaliação de suas teses polêmicas. Ao contrário do seu colega austríaco Paul Feyerabend (1924-1994), que lançou o “vale-tudo” de seu anarquismo epistemológico em Contra o Método, em 1975, mas suavizou suas posições nas duas edições seguintes, Kuhn manteve e expandiu praticamente todas as suas concepções formuladas em A estrutura das revoluções científicas, respondendo às críticas que lhe foram direcionadas ao longo de mais de três décadas.

O caminho desde a estrutura reafirma que o chamado progresso da ciência não consiste em uma “aproximação cada vez maior à realidade”, mas no aperfeiçoamento de uma capacidade técnica de “resolver quebra-cabeças” segundo padrões estritos estabelecidos pela formação científica profissional. Essa tese parte de três importantes conceitos da obra de Kuhn. Um deles é o de “paradigma”, que consiste em um conjunto de compromissos conceituais, metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade científica durante um determinado período. O segundo é o de “ciência normal”, que compreende a atividade de pesquisa firmemente baseada em realizações científicas anteriores, reconhecidas durante algum tempo por uma comunidade especializada. O terceiro conceito é o de “ciência em crise” – o período de transição entre um paradigma e seu sucessor a partir de sucessivas revisões críticas de uma teoria envolta em diversas dificuldades ou “anomalias”.

Kuhn retoma algumas de suas afirmações mais impactantes da Estrutura e, sem enfraquecê-las, volta suas baterias contra as críticas que lhe foram feitas. É o caso de uma de suas mais conhecidas colocações sobre a ciência normal: “Examinado de perto, seja historicamente, seja no laboratório contemporâneo, esse empreendimento parece ser uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se dentro dos limites do paradigma.” Ao retomar essa afirmação, ele explica: “Dizem que afirmei que os membros de uma comunidade científica podem acreditar em tudo o que quiserem, bastando, para isso, que decidam primeiro sobre o que concordam, para depois impô-lo a seus colegas e à natureza. Os fatores que determinam aquilo em que decidem acreditar são fundamentalmente irracionais, questões de acaso e de gosto pessoal. Nem lógica, nem observação, nem boa razão estão implicadas na escolha da teoria. Seja lá o que for a verdade científica, ela é completamente relativística.”

Justamente em torno da afirmação sobre “forçar a natureza” ao paradigma é que foi dirigida indevidamente a crítica dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont, em 1997, no livro Imposturas Intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos (publicado no Brasil em 1999 pela Record). Foi uma dupla falta: em primeiro lugar, Kuhn era um físico por formação e havia iniciado sua atividade de pesquisa na área de física teórica, diferentemente dos intelectuais da área de humanidades aos quais os dois autores acusaram, em muitos casos com razão, de “explorar o prestígio das ciências naturais de modo a transmitir aos seus próprios discursos uma aparência de rigor”; em segundo lugar, o esclarecimento de Kuhn já havia sido publicado em 1970 na coletânea A crítica e o desenvolvimento do conhecimento, organizada por Imre Lakatos e Alan Musgrave (publicado no Brasil em 1979 pela Cultrix/Edusp).

Já em 1979, o filósofo norte-americano Richard Rorty, em A filosofia e o espelho da natureza, abordou precisamente outra tese de Kuhn, já esboçada na Estrutura, e mais impactante que a da verdade relativística. Trata-se da tese da incomensurabilidade dos paradigmas, ou seja, não existe, grosso modo, a possibilidade de um diálogo entre grupos de cientistas que têm paradigmas diferentes para uma explicação científica. E é justamente nesse ponto que Rorty bateu na mesma tecla de Kuhn: “Sugerir que não há tal terreno comum parece colocar em perigo a racionalidade. Questionar a necessidade de comensuração parece ser o primeiro passo para uma guerra de todos contra todos. Assim, por exemplo, uma reação comum a Kuhn e a Feyerabend é a de que eles estão advogando o uso antes da força do que da persuasão”.

Reações à obra de Kuhn como a de Sokal e Bricmont, à primeira vista, por nem sequer considerarem esclarecimentos anteriores, demonstram desonestidade intelectual ou incompetência para tratar da matéria. Mas também dão motivos de sobra para interpretações psicanalíticas em torno da ferida narcísica semelhante à que foi detectada por Freud em 1917 com relação ao descentramento do psiquismo. Não foi à toa que Rorty, na mesma obra acima citada, referindo-se à filosofia analítica, que é mais próxima da tradição científica, comentou o potencial da abordagem de Kuhn “para perturbar os níveis inconscientes mais profundos da mente filosófica treinada”.

O caminho desde a estrutura – Thomas Kuhn; Editora UNESP; 402 páginas; R$ 49,00;
Informações: (11) 3872-2861 ou www.editoraunesp.com.br

Maurício Tuffani

 
 
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