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Jornal UNESP :::
Julho/2006 – Ano XX – nº 213 [voltar]
 
:: SAÚDE ::

Endodontia
Saúde pode afetar tratamento de canal
Doenças inflamatórias como artrite estimulam surgimento de infecções em terapias odontológicas

Pacientes que sofrem de doenças inflamatórias como a artrite, por exemplo, ficam mais suscetíveis a infecções durante o tratamento de canal dentário. A explicação para esse problema estaria na anacorese, fenômeno em que bactérias que circulam na corrente sanguínea transpõem os vasos e se abrigam em áreas inflamadas do organismo, podendo agravar as suas condições.

O tema é parte do estudo que o endodontista Eloi Dezan Junior, professor da Faculdade de Odontologia (FO), campus de Araçatuba, realizou em seu doutorado. Esse tipo de tratamento tem índice de sucesso em torno de 90%. Até o trabalho realizado pelo docente, não havia uma razão científica comprovada e descrita para os casos de insucesso. “Fomos os primeiros a comprovar que a anacorese pode ocorrer, inclusive, na região da raiz do dente”, observa Dezan Junior.

As técnicas ou os materiais utilizados durante a obturação também podem provocar irritações nos tecidos fora do canal, desencadear um processo inflamatório no local e estimular o aparecimento da anacorese, contribuindo para uma infecção durante o tratamento. “A constatação da pesquisa nos faz repensar a crença de que é mais importante o que se remove do que o que se aplica no canal do dente”, argumenta o docente.

Tratamento cuidadoso

A partir da inflamação na região da raiz, bactérias advindas da circulação podem se implantar e até mesmo colaborar com o povoamento de outros agentes causadores de moléstias mais adaptados ao local. “Diante disso, sugerimos que, em pessoas acometidas por doença infecciosa ou inflamatória sistêmica, o tratamento de canal seja feito com bastante cuidado, com cobertura de antibióticos e acompanhamento médico”, aconselha Dezan Junior.

Para comprovar a ocorrência da anacorese, Dezan Junior, da FO, tratou os canais de 104 raízes de dentes em quatro cães, animais que possuem processo de reparo semelhante ao dos seres humanos. Após 120 dias, foram injetadas, por via endovenosa, bactérias Streptococcus pyogenes com diferentes marcadores biológicos de resistência a substâncias antimicrobianas. Cerca de 48 horas depois, a análise microbiológica dos tecidos dentários mostrou a presença dessas bactérias em 47% dos casos. Após 30 dias, em 28%.

Durante o estudo, foi detectada, ainda, em dois dos quatro cães, a presença de Leishmania sp, o protozoário causador da leishmaniose – fenômeno que, segundo Dezan Junior, pode estar associado ao processo de anacorese. “A pesquisa foi realizada em animais da nossa região, onde essa moléstia é endêmica, e o protozoário foi constatado em locais dos dentes onde os exames sorológicos iniciais não haviam registrado a sua presença”, conclui.

Julio Zanella

 
  ACI