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Maio/2006 – Ano XX – nº 211   ::   Suplemento [voltar]
 
:: UMA OUTRA VISÃO DO AGRONEGÓCIO ::

Um nome para “modernizar” o sistema de latifúndio
BERNARDO MANÇANO FERNANDES

Ocupações de terra do agronegócio
já começaram nas regiões onde
esse modelo predomina

Agronegócio é o novo nome do modelo de desenvolvimento econômico da agropecuária capitalista. O modelo não é novo, sua origem está no sistema plantation, em que grandes propriedades são utilizadas na produção para exportação. Desde o princípio do capitalismo esse modelo passa por modificações, intensificando a exploração da terra e do homem.

A palavra agronegócio é nova. Foi criada nos Estados Unidos na década de 1950 e passou a ser utilizada no Brasil a partir da década de 1990. Essa palavra é parte de uma construção ideológica que procura mudar a imagem latifundista da agricultura capitalista. O latifúndio carrega em si a imagem de exploração, trabalho escravo, extrema concentração da terra, coronelismo, clientelismo, subserviência, atraso político e econômico. É, portanto, um espaço que pode ser ocupado para o desenvolvimento do País: latifúndio está associado à terra que não produz e pode ser usada para reforma agrária.

A imagem do agronegócio foi construída para renovar a imagem da agricultura capitalista, para “modernizá-la”. É uma tentativa de ocultar o caráter concentrador, predador, expropriatório e excludente, para relevar somente o caráter produtivista. Houve o aperfeiçoamento do processo, mas não a solução dos problemas: o latifúndio efetua a exclusão pela improdutividade, o agronegócio promove a exclusão pela intensa produtividade.

A agricultura capitalista não pode esconder o que está na sua lógica: concentração e exploração. O agronegócio procura representar a imagem da produtividade, da geração de riquezas. Torna-se o espaço produtivo por excelência, cuja supremacia não pode ser ameaçada pela ocupação da terra. Se o território do latifúndio pode ser desapropriado para a implantação de projetos de reforma agrária, o território do agronegócio apresenta-se como sagrado. O agronegócio é um novo tipo de latifúndio e ainda mais amplo, agora não concentra e domina apenas a terra, mas também a tecnologia de produção e as políticas de desenvolvimento.

A utilização de novas tecnologias tem possibilitado, cada vez mais, uma produção maior em áreas menores. Esse processo significou concentração de poder, riqueza e território. Além disso, o agronegócio se apropria de todos os resultados da produção agrícola e pecuária como se fosse o único produtor do país. A agricultura camponesa, que é responsável por mais da metade da produção do campo, não aparece como grande produtor. Com essa estratégia, o agronegócio é privilegiado com a maior fatia do crédito agrícola.

A agricultura camponesa não é adepta do produtivismo (produzir uma única cultura e com exclusividade para o mercado) e nem se utiliza predominantemente de insumos externos. Seu potencial de produção de alimentos está na diversidade, no uso múltiplo dos recursos naturais. Onde há concentração de pequenos agricultores, a desigualdade é menor e o índice de desenvolvimento maior.

Para combater as ocupações de terra, que têm sido a principal forma de acesso à terra para os camponeses sem-terra, a política criada pelo agronegócio foi a Reforma Agrária de Mercado. Depois de denominada Cédula da Terra, virou Banco da Terra e hoje é chamada de Crédito Fundiário. É uma tentativa de tirar a luta popular do campo da política e jogá-la no território do mercado, sob controle do agronegócio.

As ocupações de terra ferem profundamente essa lógica e por isso o agronegócio investe na criminalização da luta pela terra, pressionando o Estado a impedir a espacialização dessa prática de luta popular. O controle do território e das formas de acesso à terra é objetivo da mercantilização da reforma agrária. Não importa para o capital ser o dono da terra, o que importa é que a forma de acesso seja por meio das relações de mercado, de compra e venda. O controle da propriedade da terra é um dos trunfos do agronegócio. É fundamental que a terra esteja disponível para servir à lógica rentista.

As ocupações de terra são uma afronta ao agronegócio, estão fora da lógica de dominação das relações capitalistas. Assim, o agronegócio procura demonizar os movimentos socioterritoriais que permanentemente ocupam a terra. Na última década, o espaço político mais utilizado é o Poder Judiciário. Recentemente, tem ocorrido uma judiciarização da luta pela terra, em que o Poder Judiciário se apresenta como uma cerca intransponível aos sem-terra. Para não manchar sua imagem, o agronegócio procura desenvolver políticas de crédito e ou bolsas de arrendamento, de modo a trazer os ocupantes de terra para o território do mercado.

As ocupações de terras do agronegócio já começaram nas regiões onde esse modelo de desenvolvimento controla a maior parte do território, concentrando riqueza e aumentado a miséria. Esse é o novo conteúdo da questão agrária nesta primeira década do século XXI.

Bernardo Mançano Fernandes é geógrafo, professor do curso de graduação em Geografia e do programa de pós-graduação em Geografia da UNESP, campus de Presidente Prudente, pesquisador do CNPq e coordenador do Grupo de Trabalho Desenvolvimento Rural do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais – Clacso.

 
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