UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::
Março/2006 – Ano XX – nº 209  [voltar]
 
:: REPORTAGEM DE CAPA ::
A Universidade na luta pela inclusão
Várias ações da UNESP estão voltadas para beneficiar os setores excluídos da sociedade. Entre elas se destacam a alfabetização de jovens e adultos, melhoria da qualidade do ensino e da formação dos professores da rede pública, cursinhos pré-universitários, isenções das taxas de inscrição no vestibular, promoção de atividades junto à comunidade afrodescendente e aos idosos, além de bolsas e auxílio-moradia para alunos carentes da própria Universidade

Um dos instrumentos básicos para combater as desigualdades que caracterizam a sociedade brasileira é a educação. Voltada para a produção e difusão do conhecimento, a UNESP contribui para reverter esse panorama com diversas iniciativas, não só garantindo o acesso de milhares de pessoas à alfabetização, como ajudando a melhorar o ensino em escolas de ensino fundamental e médio da rede pública – estimulando, assim, o acesso de seus alunos às principais instituições de ensino superior. Além disso, tem ampliado o número de vagas e apoiado a permanência de estudantes carentes em seus cursos, por exemplo, por meio de bolsas de estudo e auxílios-moradia.

Apenas em 2005, cerca de 50 mil pessoas foram beneficiadas em dez programas das Pró-reitorias da Universidade. (Leia tabelas.) “A nossa política de inclusão social incentiva programas que vão de alfabetização, formação de professores e cursinhos comunitários até a concessão de bolsas para alunos carentes na UNESP”, diz a pró-reitora de Extensão Maria Amélia Máximo de Araújo. “Temos, ainda, ações específicas que colaboram para a inserção dos negros e idosos na Universidade.” (Leia texto ao lado.)

Os programas direcionados à alfabetização chegaram a 3.960 brasileiros, em 2005. Desse total, 2.907 foram atendidos pela UNESP no âmbito do Programa de Alfabetização Solidária (PAS) do governo federal. “Estamos presentes em seis municípios dos Estados do Amazonas, Maranhão, Piauí e Sergipe, com o auxílio de professores de quatro campi, que colaboram na organização, seleção e capacitação dos alfabetizadores locais e na avaliação”, aponta a coordenadora pedagógica do PAS, Kátia Coutinho, da Faculdade de Ciências e Letras, campus de Assis.

Melhoria do ensino

O Projeto de Educação de Jovens e Adultos (Peja), criado em 2000 por iniciativa da própria UNESP, reúne docentes e alunos de Letras e Pedagogia de sete campi e alfabetizou 1.053 pessoas no ano passado. “O Peja assegura ao educando o direito de aprender continuamente até ter condições de passar para os níveis avançados, como os de 5a a 8a séries”, observa a coordenadora-geral do projeto, Maria de Fátima Furlanetti, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, campus de Presidente Prudente.

A aposentada Benedita Gonçalves, de 76 anos, freqüentou o Peja em Marília. “Em um ano, tendo aulas todos os dias, aprendi a ler e escrever”, avalia. No ano passado, 80 alunos participaram do programa no município. “Nossa intenção não é simplesmente acabar com o analfabetismo, mas proporcionar a continuidade dos estudos e articular nossas atividades pedagógicas com a pesquisa”, diz um dos docentes do programa, José Carlos Miguel, que também leciona na Faculdade de Filosofia e Ciências/Marília.

Já os programas que investem na atualização de professores melhoram, indiretamente, a formação escolar de milhares de alunos da rede pública. Exemplos expressivos são os Núcleos de Ensino, presentes em 13 campi, envolvendo 120 estudantes de graduação e equipes que aplicam 83 projetos pedagógicos inovadores em escolas de ensinos fundamental e médio. O Programa Pedagogia Cidadã é outra iniciativa bem-sucedida que, nos três últimos anos, formou em Pedagogia 3.650 professores de escolas municipais que não possuíam diploma de curso superior.

A UNESP também está integrada ao Centro de Educação Continuada em Educação Matemática, Científica e Ambiental (Cecemca). Financiado pelo governo federal, com núcleos instalados nos campi de Rio Claro e Bauru, em 2005, o projeto atualizou 130 professores da rede municipal. Para 2006, a meta é que a ação da UNESP atinja 1.000 professores em 30 cidades paulistas. “O ano passado foi dedicado mais à produção de 14 cadernos de material didático para a educação infantil e ensino fundamental e ao projeto piloto”, diz Isabel Castreghini
de Freitas, coordenadora do Centro e vice-diretora do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), campus de Rio Claro.

Força para os cursinhos

No caso dos alunos do ensino médio da rede pública, a UNESP também investe em cursinhos pré-vestibulares comunitários, que têm aprovado 51% dos seus integrantes em universidades públicas. Em 2005, instalados em 23 unidades universitárias e com apoio de algumas prefeituras, eles ofereceram 2.365 vagas. A aluna Nara Eliza Marques, de 20 anos, estudou um ano, no cursinho Cuca-Química, que funciona no Instituto de Química, campus de Araraquara, e acaba de passar em Ciências Sociais na UNESP local e em Biblioteconomia, na Universidade Federal de São Carlos (UFSC). “Sem esse cursinho, seria muito difícil eu conseguir uma vaga na universidade pública”, ressalta.

Foram também favorecidos pelo projeto 188 alunos de graduação da UNESP, que receberam bolsa para ministrar as aulas aos vestibulandos. Para se matricular nos cursinhos, o candidato deve comprovar baixa renda familiar, ter estudado na rede pública e passar por um processo de seleção. A mensalidade se limita a uma pequena taxa para despesas com material didático.

Outro obstáculo para o ingresso do aluno carente na universidade pública é a taxa de inscrição para o vestibular. Nos últimos anos, a Fundação para o Vestibular da UNESP (Vunesp) tem isentado dessa taxa os egressos da escola pública comprovadamente carentes. Desde 2000, o número de isenções passou de 12,9 mil para 33,8 mil. “É cada vez maior a quantidade de alunos da rede pública que têm a chance de fazer a prova”, diz o professor Fernando Dagnoni Prado, diretor acadêmico da Vunesp.

Ajuda ao aluno

Mas não basta facilitar o acesso aos mais pobres, se eles não tiverem condições financeiras para se manter na universidade. Em 2005, o Programa UNESP de Apoio ao Estudante (PAE) ofereceu 1.772 bolsas para alunos com baixa renda familiar e aos engajados em atividades de extensão. No Programa de Moradia Estudantil, mais de 1.370 alunos em 17 campi receberam o chamado auxílio-aluguel – que envolve bolsas e vagas em moradias estudantis ou em casas alugadas.

Dalila Foschiani, aluna do 3o ano de Engenharia Florestal da Faculdade de Ciências Agronômicas, campus de Botucatu, recebe a bolsa PAE. Natural do município de Nova Europa (SP), filha de pedreiro e professora, ela não poderia estudar em outra cidade, sem esse auxílio. “Disponho também da moradia estudantil da UNESP e tenho um irmão que cursa Engenharia Civil em Bauru que também recebe a bolsa”, lembra.

Embora o número de bolsas tenha aumentado, elas atendem apenas a 50% dos pedidos. A explicação pode estar no próprio resultado das ações de inclusão social na Universidade. De acordo com dados da Vunesp, entre 2000 e 2005, o contingente de alunos provenientes de famílias que vivem com até cinco salários mínimos passou de 15,7% para 34,2% dos matriculados na UNESP. Já a porcentagem de provenientes do ensino médio da rede pública foi de 38%, em 2005.

Mesmo sem receber verba específica para esse fim, no ano passado, a UNESP gastou R$ 5,3 milhões da quota-parte do ICMS entre todos os benefícios para os alunos. O vice-reitor e assessor-chefe interino da Assessoria de Planejamento e Orçamento (Aplo), Herman Jacobus Cornelis Voorwald, considera complexa a solução para atender a essas demandas, frente ao crescimento do contingente de alunos carentes, em um contexto de orçamento cada vez mais apertado. “Mesmo assim, a UNESP destina 5% do seu orçamento para o custeio à assistência estudantil”, observa. “Se for concretizada a transferência para o Estado da responsabilidade pelas aposentadorias dos servidores, que hoje representam 28% do total da folha de pagamentos, e do atendimento médico no Hospital das Clínicas de Botucatu, a nossa expectativa é destinar mais recursos à assistência estudantil nos próximos anos”, comenta Voorwald.

 

Portas abertas para a sociedade

Projetos visam aumentar a inserção de negros e idosos na Universidade

Duas iniciativas institucionais são exemplos do esforço inclusivo da UNESP: o Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (Nupe) e a Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati).

Criado em 2000, o Nupe desenvolve pesquisas e atividades de extensão junto às comunidades afro-descendentes. Hoje, reúne 90 pessoas, entre docentes, alunos e pesquisadores nos campi de Araraquara, Assis, Bauru, Marília, Presidente Prudente e Franca. “As ações afirmativas junto à população afro-brasileira minimizam as enormes distorções sociais existentes no País”, destaca o coordenador do Núcleo, Dagoberto José Fonseca, da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), campus de Araraquara.

Uma das atividades do Nupe, em 2005, foi a orientação educacional de 60 alunos negros do ensino médio de Araraquara, a fim de prepará-los para o ingresso na universidade pública. O trabalho de tutoria foi desenvolvido por graduandos afro-descendentes da UNESP, que receberam bolsas de estudo. Já o programa de prevenção e tratamento de saúde bucal implantado pelo professor Luiz Geraldo Vaz, da Faculdade de Odontologia (FO), atendeu 50 crianças afro-descendentes de um bairro da cidade. O núcleo acaba de receber uma verba de R$ 200 mil do MEC para ampliar a ação desses projetos em 2006.

O Nupe possui também convênios com universidades no Exterior. Em 2005, por sua pesquisa sobre a inserção dos negros no mercado de trabalho, Thais Martins, quartanista de Ciências Sociais da FCL/Araraquara, estudou quatro meses na Universidade Charles de Gaulle, em Lille, na França. Hoje, ela faz estágio em um projeto da Prefeitura de São Carlos (SP) que busca conscientizar empresários e comerciantes sobre a importância da inclusão dos afro-descendentes na sociedade. “No Nupe, participei de grupos de estudos e aprendi a elaborar projetos de pesquisa”, recorda Thais.

Cursos, oficinas e palestras

Institucionalizada em 2001 pela Pró-reitoria de Extensão, a Unati surgiu para integrar os idosos ao meio acadêmico. “A nossa intenção é possibilitar que essas pessoas usufruam do espaço educacional e cultural para ampliação de conhecimentos, mediante educação continuada, além de proporcionar a convivência social e a troca de experiências”, diz Maria Candida Soares Del-Masso, docente da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), campus de Marília, e coordenadora-geral do Núcleo Central.

Em 2005, mais de 4.500 idosos participaram de cursos, oficinas e palestras em 15 campi e na Reitoria, onde estão instalados os núcleos locais da Unati. Foram 37 opções de cursos, como, por exemplo, Português, Desenho, Língua Estrangeira, Psicologia e Informática. Nas oficinas, os alunos aprenderam desde o cultivo de plantas medicinais a exercícios de tai chi chuan. As atividades também podem ser usufruídas pelos servidores da UNESP de qualquer idade.

A dona-de-casa Thetis Muniz Arcos, de 80 anos, é uma das alunas do curso de Condicionamento Físico oferecido na Reitoria. Ela já participou dos cursos de Ioga, Inglês e Musicoterapia. “São cursos que fazem a gente se sentir melhor e dão força para enfrentar o resto do dia”, assinala. A coordenadora local, a servidora Vilma Militão, acentua que a principal dificuldade do programa, hoje, é encontrar espaço para as atividades nos campi.

 

 

Julio Zanella
  ACI