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Jornal UNESP :::
Dezembro/2005 – Ano XIX – nº 207  [voltar]
 
:: SOCIOLOGIA ::

Do caos ao cosmos
Obra de Arthur Bispo do Rosário, que passou mais de 50 anos
em clínicas psiquiátricas, é tema de doutorado

“Quando eu subir, os céus se
abrirão e vai recomeçar a contagem do mundo. Vou nessa nave, com
esse manto e essas miniaturas que representam a existência.
Vou me apresentar.”

“Um dia, eu simplesmente apareci.” Era assim que o artista plástico Arthur Bispo do Rosário respondia a quem perguntava a sua origem. Ex-marinheiro e pugilista, viveu mais de 50 anos em clínicas psiquiátricas e se recusava a falar sobre a sua família, raízes e cultura. Segundo sua visão, era filho de Deus, havia sido adotado pela Virgem Maria e “aparecido” no mundo em seus braços.

Esse ser fascinante, que representou o Brasil, em 1995, na Bienal de Arte de Veneza, uma das mais importantes do mundo, foi o tema da tese de doutoramento Arthur Bispo do Rosário: a estética do delírio, apresentada por Marta Dantas ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras, campus de Araraquara. Orientado pelo docente Raul Fiker, o trabalho será publicado pela Editora UNESP, dentro do Programa de Edição de Textos de Docentes e Pós-graduandos da Universidade, realizado em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (Propg).

A pesquisa apresenta a vida do artista, investiga a experiência de Bispo com a morte e, principalmente, verifica como ele criou, com fragmentos de sua história pessoal e resíduos de materiais da sociedade, um mundo encantado de miniaturas, embarcações, estandartes bordados, vestimentas e objetos diversos. “Surge assim uma estrutura simbólica complexa, onde a imaginação delirante participa do esforço de transformar o caos em cosmos”, explica Marta.

A vida de Bispo mudou quando, próximo do Natal de 1938, anunciou a sua morte simbólica e a sua ressurreição como o “escolhido de Deus”. Em 22 de dezembro, guiado por imagens e vozes, saiu pela cidade do Rio de Janeiro “em peregrinação mística”. “Próximo ao Mosteiro de São Bento, foi levado pela Polícia Civil para o manicômio da Praia Vermelha”, lembra Marta. (Veja quadro.)

“Minha missão é essa,
conseguir isso que eu tenho,
para no dia próximo eu representar
a existência da terra.
É o significado da minha vida”

Entre entradas e saídas de diversas casas psiquiátricas, vítima de seções de eletrochoque, Bispo construiu sua obra. “Seus dons não requeriam aplausos. Afinal, aquilo, para ele, não era arte, mas uma missão divina”, diz a doutora em Sociologia.

Bispo não desenhou, pintou ou esculpiu. Preferiu bordar, costurar, pregar, colar, talhar e fazer composições a partir de objetos já prontos. Suas obras nasceram daquilo que recolhia pelo mundo. Era aficionado da ordenação, catalogação, preenchimento de espaços e do ato de envolver com fios o corpo dos objetos.

Sua grande companheira foi, entre 1981 e 1982, a estagiária de psicologia Rosangela Maria. “Ele projetava nela a mulher ideal, casta e divina”, acredita a socióloga. Findo o estágio, ela partiu, mas ele fez para os dois uma nave-leito.

Trata-se de uma cama de madeira com suporte para mosquiteiro, colchão de capim coberto por uma colcha – não confeccionada por ele – e protegida por um véu decorado com fios, fitas e pequenas flores de crochê. “Ele a planejara para uma encenação da obra de Shakespeare em que ele seria Romeu e ela, Julieta”, comenta Marta. “A idéia de representar a peça foi frustrada, mas a obra ficou para a posteridade.”

A obra-prima de Bispo do Rosário é o Manto da apresentação. “Trata-se da síntese da criação do artista, de uma vida transformada em ilusão. É o símbolo maior da mágica aglutinadora da obra de Arthur Bispo do Rosário”, ressalta a pesquisadora, que, em seu mestrado, na FCL da UNESP/Assis, enfocou a produção do artista plástico Ranchinho.

“Eu já fui transparente. Às vezes, quando deixo de trabalhar, fico transparente de novo. Mas normalmente sou cheio de cores.”

Bispo do Rosário

Nesse trabalho, o artista conjuga uma rica gama de cores em dois tipos de tecido. Na face externa, feita de um cobertor, palavras, símbolos, números e figuras são bordados em fios de lã, distribuídos quase que circularmente. Dólmãs e cordas de cortina servem como adornos. Na face interna, sobre fundo de tecido branco, há nomes de mulheres, organizados em forma de uma espiral irregular em direção da abertura da cabeça, bordados em sua maioria com fios de cor azul. “Foi realizado para cobrir o corpo de Bispo no dia de sua passagem, o dia do julgamento final”, comenta Marta.

Ao vesti-lo, o ex-marujo acreditava que seria reconhecido por Deus e carregaria o mundo sobre seus ombros, levando com ele aqueles que considerava “seus”. O manto, para Marta, nasceu na confluência de elementos dos rituais da religiosidade católica, da cultura afro, como o festejo da coroação dos reis do Congo, e da liberdade carnavalesca pagã. “Ele encerra, ao mesmo tempo, o sacrifício, a salvação, a dor, o êxtase, a infâmia e a glória.”

Bispo costumava perguntar, a quem desejava ver o seu trabalho: “De que cor é o meu semblante?”. Se a pessoa respondesse “Azul”, as portas do templo se abriam. “Assim, criando as suas próprias lógicas e ordenações de mundo, este homem, nascido no Nordeste do Brasil, numa região onde as culturas indígena, negra e cristã se mesclam, criou um sistema simbólico tão rico quanto a pluralidade cultural presente em sua terra”, afirma Marta.

 

Oscar D’Ambrosio
  ACI