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Novembro/2005 – Ano XIX – nº 206  [voltar]
 
:: SOCIOLOGIA ::

Memória bandeirante
Administração de Affonso de Taunay no Museu Paulista enfatizou papel do Estado de São Paulo na formação brasileira

A perda da Copa do Mundo de Futebol de 1950 em pleno Estádio do Maracanã, a glória do título de 1958, na Suécia, o êxtase do tricampeonato, no México, em 1970, e as suas conseqüências sobre a imagem que o povo brasileiro tinha sobre a sua própria identidade são o ponto de partida de Com brasileiro, não há quem possa!, livro de Fátima Martin Rodrigues Ferreira Antunes, lançado pela Editora Unesp.

Socióloga do Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a autora se debruçou sobre as crônicas de futebol de José Lins do Rego e dos irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues, para verificar como eles mobilizaram atenções de uma época e participaram do processo de construção da identidade nacional.

O livro (304 páginas; R$ 40,00), resultado de uma tese de doutorado apresentada ao Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, estuda crônicas publicadas por jornais cariocas entre os anos de 1950 e 1970. “Ao escrever sobre o microcosmo do futebol, os autores que escolhi refletem, ainda que informal e despretensiosamente, sobre o que significa ser brasileiro”, afirma.

Retrato nacional

Fátima mostra como, no Brasil, costuma-se avaliar a sociedade e suas instituições pelo desempenho da seleção de futebol, sobretudo em épocas de Copa do Mundo. “Se a seleção vai bem, há mais otimismo e tende-se a valorizar o povo brasileiro. Se, ao contrário, ocorre uma derrota, os valores anteriormente exaltados são então interpretados como contendo os germes do insucesso”, comenta.

O livro retoma a atmosfera dos anos 1950, quando o nacionalismo se inseria num processo de construção do capitalismo no País. A industrialização ganhara força durante a Segunda Guerra Mundial e a sociedade crescia e se modernizava. Para José Lins do Rego, a Copa do Mundo de 1950 seria uma cerimônia de batismo, em que a nação brasileira seria apresentada à comunidade internacional.

Zé Lins, para Fátima, acreditava ser possível, por meio do esporte, compor um retrato psicológico do povo brasileiro, trabalho que realizou em suas crônicas. “O seu foco era o futebol e sua complexa rede de relações sociais, por meio da qual se podia avaliar o caráter que resultara da mestiçagem e das tolerâncias raciais no País”, conta.

O escritor, flamenguista doente, encontrava no brasileiro a virilidade sem beirar a violência, acrescida de uma dose de civilidade, expressa em boas maneiras e espírito esportivo, comportamentos e idéias que julgava necessários à inclusão numa comunidade moderna, urbana e industrializada. Nesse contexto, a derrota na Copa de 1950 para o Uruguai o abalou profundamente. (Leia Quadro 1.)

“Complexo de vira-latas”

Mário Filho e Nelson Rodrigues, nos momentos de derrota, também enfatizavam como a insegurança do brasileiro interferia em seu sucesso. Haveria um sentimento de inferioridade, que Mario chama de “complexo de ser brasileiro” e Nelson, de “complexo de vira-latas”. “Ambos queriam deixar patente a instabilidade emocional do brasileiro e esperavam uma mudança de postura”, avalia Fátima.

O irmão de Nelson Rodrigues, para Fátima, não propunha caracterizações absolutas da identidade nacional. Ia modificando o valor positivo ou negativo de conceitos que aplicava à descrição de brasilidade, como a mestiçagem, ao sabor dos sucessos, como a conquista de 1958, e insucessos, como em 1966, na Inglaterra. “Considerava que a redenção dos brasileiros ocorrera nos sucessos obtidos no futebol a partir dos anos 1950”, afirma a autora. (Leia Quadro 2.)

A conquista do tricampeonato, no México, em 1970, exaltada por Nelson Rodrigues, ganhou outra conotação. Enquanto a marchinha A Copa do Mundo é nossa, de 1958, combinava futebol, samba e carnaval como elementos definidores da nacionalidade, o hino Pra frente, Brasil, de 1970, insistia na idéia de que a seleção promovia a unidade nacional. “Ela até teve frases adotadas como lema do governo militar”, aponta a socióloga. (Quadro 3.)

Fátima verifica ainda que os ideais de brasilidade ligados ao futebol partilhados por Zé Lins, Mário Filho e Nelson fizeram “brilhar os olhos” dos militares que estavam no comando do País, após o golpe de 1964. “Os generais queriam consolidar, a todo custo, justamente a imagem da unidade nacional e de um país pujante e promissor que caminhasse rumo ao desenvolvimento”, conta. “Isso significou a prática da tortura e jogar debaixo do tapete quesitos como a liberdade de expressão e de associação.”

José Lins do Rego

A derrota
Uma das maiores figuras do romance regionalista nordestino, com livros como Menino do engenho (1932), José Lins do Rego (1901-1957) foi dirigente do Flamengo e membro de diversas entidades esportivas. Na crônica “A derrota”, no dia seguinte ao da vitória do Uruguai sobre o Brasil, na final da Copa de 1950, no Maracanã, escreveu:
“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagado.”
Jornal dos Sports, 18/07/1950

 

Mário Filho

A derrota
Uma das maiores figuras do romance regionalista nordestino, com livros como Menino do engenho (1932), José Lins do Rego (1901-1957) foi dirigente do Flamengo e membro de diversas entidades esportivas. Na crônica “A derrota”, no dia seguinte ao da vitória do Uruguai sobre o Brasil, na final da Copa de 1950, no Maracanã, escreveu:
“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagado.”
Jornal dos Sports, 18/07/1950

 

 

 

Oscar D'Ambrosio
  ACI