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Jornal UNESP :::
Setembro/2005 – Ano XIX – nº 204 [voltar]
 
:: LANÇAMENTOS ::

Educação
O que os sons podem ensinar
Livro valoriza música como atividade criativa, que lida com o irregular e o imprevisto


Considerar a música como uma parte essencial, e não periférica, da cultura humana é a principal idéia defendida por Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, docente aposentada do Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, em De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação. Mestre em Psicologia da Educação, doutora em Antropologia e livre-docente em Educação Musical, ela mostra como o ensino de música está ligado a hábitos, valores, condutas e visão de mundo de cada sociedade e de cada época.

Nesse sentido, realiza inicialmente uma jornada pelas maneiras como a música foi ensinada. Começa essa busca na Grécia Antiga, onde ela era utilizada como elemento estruturador da cidadania. Em Roma, porém, priorizou-se a formação de músicos de qualidade, numa perspectiva bastante presente na educação brasileira de hoje.

Nos séculos XVI e XVII, sob a influência de Descartes e Bacon, o racionalismo passa a ser aplicado na educação musical, privilegiando as medidas exatas (compassos) e a afinação estável e padronizada. No século XIX, com o romantismo, essa arte ganha novamente espaço como o reino da expressão individual, e, com o realismo, surge a musicologia, ou seja, os primeiros passos para entendê-la como ciência. Já no século XX, apesar de experiências renovadoras como o atonalismo, a educação musical pouco se altera.

No Brasil, durante a ditadura militar, a Lei no 5.692/71 substitui a Música pela Educação Artística, ministrada por professores polivalentes. Em 1996, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a música tem o seu status reconhecido como disciplina, retornando à escola. No entanto, para Marisa, após tanto tempo de ausência, “é preciso repensar os modos de implantação de seu ensino e de sua prática”.

Entre a música praticada na escola até 1971 e a atual, o livro detecta sérios problemas. O principal é que a maioria dos professores não sabe cantar ou tocar um instrumento. Além disso, os meios de comunicação imporiam referenciais musicais e o aluno se limitaria à repetição daquilo que ouve pelo rádio e a televisão.

No plano internacional, propostas como as de John Paynter, George Self, Murray Schafer e Boris Porena são apontadas como alternativas mais sistêmicas e menos mecanicistas de educação musical. Elas vêem os sons e a música como parte de um todo humano, em que predomina a flexibilidade, a individualidade e a irregularidade, que desafiam o sistema mecânico, pois têm a sua base na criatividade e no imprevisto.

Nessa linha de raciocínio, Marisa valoriza as ações que o não-músico pode fazer pela música. Desde que
ele receba capacitação, com orientação profissional em cursos, vídeos, CD-ROMs e CDs, pode promover na escola a música como uma atividade saudável e importante para a sociedade em geral, não somente para indivíduos talentosos.

O grande mérito do livro está na valorização da arte, mais especificamente da música, como uma forma de o ser humano expressar melhor sua relação consigo mesmo, com os indivíduos mais próximos (família, colegas e amigos) e com a sociedade.

Para isso, são necessários profissionais preparados. Se não forem músicos, precisam, pelo menos, se preparar cada vez melhor para a função de educadores musicais, concebendo cada aula como uma oportunidade de o aluno, por meio do som, tornar-se um ser humano mais completo.

De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação – Marisa Trench de Oliveira Fonterrada; Editora UNESP; 346 páginas; R$ 42,00. Informações: (11) 3242-7171.

Oscar D'Ambrosio
  ACI