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[ n. 200/maio 2005 ]

Pág. 16

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:: CULTURA ::
Com o País na garganta
Produção da banda Paralamas do Sucesso é analisada
como expressão política e cultural das décadas de 1980 e 1990

No início, predominam a busca de liberdade e a crença nas conquistas coletivas. Com a derrota do movimento pelas eleições diretas para presidente da República, em 1984, vem a desilusão e acirram-se as críticas à situação política e social brasileira. Anos depois, uma percepção espiritualizada da vida torna-se mais acentuada.

A temática das músicas da banda Paralamas do Sucesso pode ser vista como um roteiro que ecoa grande parte das experiências dos que viveram sua juventude entre os anos 80 e 90. O paralelo é traçado na dissertação de mestrado de Luciane de Paula, desenvolvida na FCL (Faculdade de Ciências e Letras) da UNESP, campus de Araraquara, com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Com a orientação de Renata Marchezan, docente do Departamento de Lingüística da FCL, o estudo relaciona fatos políticos e sociais da história brasileira recente para construir o perfil da banda. “O trabalho elegeu caminhos que levaram ao exame das diferentes vozes sociais presentes nos textos das músicas e, com isso, à definição dos valores sociais que neles são afirmados”, diz a professora Renata.

Luciane concentrou-se nos textos das letras do grupo e, mais especificamente, nos sujeitos das canções, que variavam conforme a visão de mundo e os acontecimentos políticos e culturais do País (“sujeitos” não são o próprio autor, mas criações em que ele projeta alguns de seus valores). De acordo com a pós-graduanda, os Paralamas representam a banda que melhor traduziu o pensamento da geração das décadas de 80 e 90. “Eles foram o grupo que expressou com mais vigor a pluralidade e a multiplicidade da cultura brasileira, tanto nas suas composições como na mistura de rock, funk e reggae”, ressalta.

O início da carreira dos músicos é marcado pelo discurso idealista dos adolescentes da época – caracterizado pelo otimismo que a abertura política então semeava –, que vêem um futuro promissor para o País. “Era um pensamento norteado pelo coletivo dos festivais de música e das manifestações de rua”, interpreta Luciane. “Ingênuos, pequeno-burgueses, esses jovens buscavam um mundo melhor, ainda que não soubessem como construí-lo.”

A pesquisadora encontrou-se duas vezes com os membros da banda: Herbert Vianna (vocal e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria). Em uma delas, o próprio líder, Vianna, confirmou essa tese: “A saída mais óbvia para um menino com dinheiro, filho de políticos, diplomatas e militares, era a de pegar a sua guitarra e sua trupe e achar que assim podia mudar o mundo”, revelou o compositor da maioria das canções.

Esses traços são identificados na música Vital e sua Moto, lançada em 1983, em que um rapaz sai com sua máquina pela estrada, acreditando na capacidade transformadora dessa atitude:

Vital e sua moto mas que união feliz
Corria e viajava era sensacional
A vida em duas rodas era tudo que ele sempre quis
Vital passou a se sentir total
Com seu sonho de metal

Com o fracasso da campanha das Diretas-Já, a esperança vira desilusão, crítica social, política e cultural. Em 1986, na composição Alagados, do CD Selvagem?, o sujeito da letra aborda as mazelas brasileiras por meio dos contrastes da cidade do Rio de Janeiro:

E a cidade
Que tem braços abertos num cartão-postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal

E a mudança não se reflete apenas nas letras. Enquanto os Titãs, o Legião Urbana e outros grupos da época exploravam a sonoridade do rock, as canções dos Paralamas, principalmente a partir de Selvagem?, incorporam o reggae como ritmo que, na década de 90, será a marca melódica da banda.

No CD Severino, de 1990, os músicos reverenciam a arte como ação libertadora e estabelecem um diálogo com outras formas de expressão estética, em especial com as criações de dois nomes expressivos da cultura brasileira: o poeta João Cabral de Mello Neto e o artista plástico Arthur Bispo do Rosário.

No disco, a banda resgata a obra Morte e Vida Severina, do poeta pernambucano. “Mas vem de tudo n’água suja, escura e espessa deste Rio Severino, morte e vida vem” (trecho da canção Rio Severino). Além disso, os trabalhos de Arthur Bispo ilustram a capa, letras e textos do álbum. “Essa é a obra-prima dos Paralamas, embora não tenha feito sucesso no Brasil”, opina a autora.

No disco Vamo Batê na Lata, de 1995, o rap Luiz Inácio ou 300 Picaretas torna-se mais um exemplo da face crítica e contestatória dos sujeitos retratados pelo grupo. A banda chegou a ser impedida, por uma liminar, de interpretar a música durante um show em Brasília:

Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jetom

Em 2001, depois de gravar o CD Longo Caminho, Vianna cai com seu ultraleve no litoral do Rio de Janeiro, num acidente que causa a morte da sua mulher e interrompe a carreira da banda. Luciane lembra que no período anterior à tragédia as letras do músico ganham maior espiritualidade, diminuindo seu enfoque político-social. Palavras como “vida” e “fim” aparecem com mais freqüência nas composições, que passam a enfatizar também um sentimento de desligamento das preocupações cotidianas, como evidencia Busca Vida, do CD Nove Luas, de 1996:

Vou sair pra ver o céu
Vou me perder entre as estrelas
Ver d’aonde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos
Nunca mais serão iguais

Mais recentemente, com a gradual recuperação do seu líder, os Paralamas retornam à atividade. No entanto, para Luciane, a banda já deixou um importante legado para a música brasileira. Ela ressalta, por exemplo, que as variações de ritmo características do grupo contribuíram para o surgimento do movimento hip-hop carioca, composto pela mistura de funk, rap e samba e que é o tema da tese de doutorado da pesquisadora.

Banda gravou 19 álbuns

Os Paralamas do Sucesso começaram sua carreira no início da década de 1980, em Brasília. Já no primeiro LP, Cinema Mudo, de 1983, o sucesso veio com a música Vital e Sua Moto.
Em 1986, com o lançamento de Selvagem?, que vendeu mais de 750 mil cópias, a qualidade rítmica das músicas e a preocupação social das letras ressoaram também na América Latina, principalmente na Argentina, e o grupo se apresentou no festival de Montreux, na França. O percurso da banda inclui parcerias na composição de algumas de suas canções, com nomes como Gilberto Gil e o poeta Wally Salomão.
Ao todo, foram 19 discos gravados – o mais recente, Uns dias ao vivo, lançado em 2004 – e mais de 150 shows pelo Brasil. E, ainda para este ano, Vianna prepara o lançamento de um novo CD.

Julio Zanella

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