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[ n. 200/maio 2005 ]

Pág. 07

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:: ZOOTECNIA ::
SEGURANÇA ALIMENTAR
Garantia de qualidade

Método que utiliza isótopos estáveis assegura com mais precisão
que carne de aves atenda a exigências internacionais


Uma metodologia criada no campus de Botucatu verifica com uma precisão inédita se carnes de aves contêm vestígios de proteínas de origem animal. Para chegar a esse resultado, o processo utiliza a técnica dos isótopos estáveis, que analisa a presença de átomos de carbono e hidrogênio num determinado produto. O método deverá ajudar os produtores brasileiros a atender às demandas da União Européia e vários países, que exigem que as aves por eles adquiridas sejam alimentadas apenas com ração de origem vegetal.

A novidade nasceu no Centro de Isótopos Estáveis (CIE), unidade auxiliar do Instituto de Biociências (IB), campus de Botucatu, a partir do trabalho de doutorado do médico veterinário e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Alfredo Sampaio Carrijo. A tese teve a orientação do professor Celso Pezzato, do Departamento de Melhoramento e Nutrição Animal, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da UNESP, campus de Botucatu. “Criamos uma linha de pesquisa para rastrear a inclusão de proteínas de origem animal na alimentação de frangos, perus, codornas e outras aves, além de ovos”, assegura Carlos Ducatti, supervisor do CIE.

As aves utilizadas no estudo – apresentado em 2003 – foram alimentadas com diferentes inclusões de farinha de carne bovina em sua ração e, em seguida, abatidas. Cortado em fatias, o músculo do peito dos animais foi colocado para secar em uma estufa de ventilação, durante dois dias. Depois, foi moído em nitrogênio líquido à temperatura de -196°C, formando um pó fino que foi em seguida queimado, produzindo gases que foram analisados num espectrômetro de massas, para a mensuração dos isótopos estáveis (átomos) de carbono e nitrogênio.

Ducatti ressalta que o processo envolve um sistema de equações que, na mensuração do carbono e do nitrogênio, apresenta padrões que são diferentes, caso o frango tenha ingerido ração exclusivamente vegetal ou com ingredientes de origem animal. “A margem de erro da pesquisa é muito pequena, permitindo que se afirme com 99% de certeza o tipo de alimentação recebida”, diz Carrijo.

No ano passado, o trabalho recebeu o Prêmio de Pesquisa Avícola José Maria Lamas da Silva, oferecido pela Fundação Apinco de Ciência e Tecnologia Avícolas (Facta). “Nosso processo também foi testado por um grande produtor nacional de frangos, que comprovou sua eficiência”, garante Ducatti. (Veja quadro.)

De acordo com o supervisor do CIE, quando ocorre um contrato de aquisição de carne de frango, os compradores geralmente enviam até os fornecedores uma equipe de inspeção, que analisa desde a composição da ração às condições de criação dos animais. “Nosso método é mais objetivo, pois os resultados não dependem do ponto de vista do técnico encarregado da avaliação e também estão menos sujeitos a eventuais burlas”, argumenta.

Carrijo assinala que a utilização da farinha de origem animal é permitida no Brasil e, desde que ministrada nas devidas proporções, não é prejudicial ao desenvolvimento do frango. Ele enfatiza que a maioria das indústrias avícolas utiliza até 8% ou 9% desse produto nas rações. “Isso gera uma economia para o produtor, já que 1 kg de farinha de carne, que custa R$ 0,35, substitui 1 kg de farelo de soja, que custa R$ 0,80”, explica. Segundo o médico veterinário, o novo método pode ser utilizado por exportadores e importadores de carne de frango e por órgãos de fiscalização sanitária e de pesquisa. “O custo ficará em torno de US$ 25 por análise isotópica”, afirma.

A pesquisa de Carrijo conseguiu detectar a presença de produtos de origem animal até o nível de 4% do total da alimentação dos frangos. Atualmente, outras investigações em andamento no CIE estão aprimorando esses resultados. Em seu doutorado realizado na FMVZ, Ricardo Pinto de Oliveira rastreia a presença de farinha de vísceras de aves na ração de frangos, a partir da análise da quilha, cartilagem que é o prolongamento do esterno (osso do peito), e da tíbia (osso da coxa) desses animais. “No caso da quilha, conseguimos detectar a presença das proteínas animais até a proporção de 3% do total da ração, enquanto, no caso da tíbia, essa detecção chega até 2%”, enfatiza Oliveira.

Já o trabalho da doutoranda Juliana Denadai, também da FMVZ, está voltado para o rastreamento da farinha de carne e ossos de origem bovina em ovos de galinhas poedeiras. Juliana esclarece que o Japão está exigindo que as empresas brasileiras do setor tenham um método científico para garantir a confiabilidade de seus produtos. “Estamos tentando formular uma metodologia para certificação de ovos nessa área”, afirma.

Outro integrante da equipe, o zootecnista José Roberto Sartori, docente do Departamento de Melhoramento e Nutrição Animal da FMVZ, recorda que a principal causa do temor em relação a produtos de origem animal foi o chamado “mal da vaca louca”, que causou a morte de diversas pessoas entre o final dos anos 80 e o início dos 90. A doença era causada por um príon – uma proteína –, que provoca a degeneração do sistema nervoso. A principal fonte de contaminação era a carne de bovinos que tinham consumido rações produzidas a partir de animais infectados. “Não podemos descartar que essa restrição crescente tenha também motivações de origem político-econômica, com o objetivo de dificultar as exportações brasileiras”, comenta.

Ducatti enfatiza que, embora o País não tenha apresentado casos de “mal da vaca louca”, precisa provar que seu produto é saudável e de origem vegetal. “Esse esforço traz suas vantagens comerciais, porque o Brasil, adquire condições para conquistar novos mercados”, conclui.

Centro é reconhecido em nível nacional

Em funcionamento desde 1998, o Centro de Isótopos Estáveis (CIE) é reconhecido em nível nacional por suas atividades de análise da qualidade, procedência e autenticidade de alimentos e bebidas. Desde 2001, por exemplo, o CIE é credenciado pelo Ministério da Agricultura para verificar a qualidade de vinhos e vinagres comercializados no Brasil. Outra linha de estudos tem avaliado a composição dos sucos de laranja disponíveis no mercado.
O alto nível dos trabalhos realizados no Centro também resulta em prêmios. No ano passado, além da investigação sobre a ração fornecida aos frangos, foi premiada a pesquisa do Muris Sleiman, doutorando da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), campus de Botucatu, para quantificar a utilização de milho e arroz em marcas de cerveja brasileiras – essas matérias primas são usadas para substituir parcialmente o malte na fabricação da bebida. A distinção ao trabalho, que é fruto de uma parceria entre o CIE e o Laboratório de Bebidas da FCA, ocorreu no V Brazilian Meeting on Chemistry of Foods and Beverages, realizado em dezembro na USP de São Carlos. (AL)

André Louzas

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ACI - Assessoria de Comunicação e Imprensa
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