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[ n. 200/maio 2005 ]
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Contra o câncer, arsenal de alimentos Equipe investiga efeitos protetores dos carotenóides, substâncias encontradas em produtos como tomate, brócolis e urucum, para combater diversas formas de tumores Há pelo menos duas décadas, uma equipe multidisciplinar, envolvendo médicos, biomédicos, biólogos, médicos veterinários, citogeneticistas e nutricionistas, investiga o potencial anticancerígeno dos chamados carotenóides. O grupo, ligado ao Toxican (Núcleo de Avaliação Toxicogenética e Cancerígena), da FM (Faculdade de Medicina), do campus da UNESP de Botucatu, vem promovendo testes em ratos e camundongos que apresentaram resultados bastante promissores. Pertencentes a uma grande família química, os carotenóides são substâncias vermelho-alaranjadas com significativa atividade antioxidante. Presentes, em maior ou menor grau, em alimentos como o tomate, caso do licopeno, ou nas leguminosas amarelas e verde-escuras, caso dos betacarotenos, essas substâncias protegem o DNA da ação dos radicais livres, compostos químicos envolvidos no surgimento de doenças como o câncer, em processos degenerativos e no envelhecimento dos seres vivos. O processo de formação de um câncer se inicia com uma mutação do DNA, lembra a bióloga e biomédica Daisy Fávero Salvadori. Depois, ao longo de mais ou menos 10 anos, produz-se o tumor. Nosso objetivo é impedir que ocorra essa lesão inicial. Pesquisadora do Toxican, Daisy iniciou suas pesquisas avaliando os danos provocados no DNA pelo agrotóxico malation. A partir de informações colhidas num congresso em Estocolmo, Suécia, nos anos 1990, mudou o enfoque de seus estudos: Ao invés de procurar as substâncias cancerígenas, passamos a investigar aquelas que impedem o início da moléstia, recorda. A bióloga começou, então, a trabalhar com o betacaroteno, que age principalmente contra danos causados por poluentes. Testamos a substância também contra os efeitos indesejáveis dos quimioterápicos e posso inferir que ela terá a mesma ação protetora contra alguns danos causados pelo cigarro, assinala. A biomédica acredita que os resultados positivos já obtidos em estudos com animais se repitam no caso de seres humanos. As investigações no Toxican também se voltaram para o urucum, na sua forma coloral (composta de semente de urucum triturada e fubá), corante muito usado na culinária. Tese de doutorado da bióloga Aniele Agner, defendida na UNESP, o trabalho comprovou que o fruto, em altas doses, age como protetor do intestino grosso. No urucum, e só nele, encontra-se um carotenóide chamado bixina, responsável por essa ação protetora, explica Aniele, que trabalhou também com a sacaca, planta amazônica protetora da medula óssea. Com o licopeno, outro carotenóide, encontrado em grande quantidade no tomate (e, em proporções menores, nos vegetais amarelos, como a abóbora e a cenoura, além de frutos como a melancia e a goiaba), a história deu-se de forma um pouco diferente e envolveu a médica Ana Lúcia Ferreira, da Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UNESP. Os esforços de Ana Lúcia estão voltados para encontrar um meio que evite a toxicidade de um quimioterápico, a adramicina. De acordo com a pesquisadora, a adramicina é excelente para o tratamento de vários tipos de câncer, mas seu uso é limitado por sua cardiotoxicidade. Geralmente, já na metade do tratamento, o paciente começa a sofrer uma reação inflamatória que evolui para a necrose das fibras cardíacas do miocárdio, esclarece. Como não era possível abolir o uso da substância, buscou-se minorar seus efeitos danosos. Ana Lúcia lembrou-se, então, do licopeno, um antioxidante, já que a adramicina é oxidante. Os primeiros testes, com ratos, foram bastante animadores, de acordo com a médica: Houve uma proteção importante do licopeno contra a toxicidade da adramicina. Será preciso, ainda, muito estudo para começarmos a prática clínica no ser humano, mas estamos bastante otimistas. Ana não esconde seu entusiasmo em relação à potencialidade do licopeno: Esse carotenóide vem sendo consagrado como produto anticâncer, principalmente para tratamento de casos de tumores na próstata, ela reforça. O licopeno também é alvo dos estudos da bióloga Clarissa Scolastici, que desde a iniciação científica trabalha com hepatocarcinogênese, ou seja, câncer no fígado. Clarissa investiga possíveis efeitos antimutagênicos que impedem alterações no DNA e anticarcinogênicos do carotenóide. Observamos um efeito antimutagênico no caso das moléculas do fígado, ela relata. Mas não foi registrado qualquer efeito anticarcinogênico. Isso significa que o licopeno inibe lesões no DNA, mas é ineficaz na interrupção de processos cancerígenos. Não sabemos ainda o porquê, mas estamos investigando esses mecanismos. Diante dos bons resultados obtidos até agora, o médico patologista João Lauro Viana de Camargo, gerente do Toxican, acredita no potencial das substâncias pesquisadas para a futura produção de produtos anticancerígenos. Da mesma forma que já existem outros carotenóides sintetizados sob a forma de fármacos, também estes com que trabalhamos têm grande potencial nesse sentido, justamente por sua ação antitumoral, pondera. Notícia que, apesar da prudência dos pesquisadores, é motivo para comemorações. Afinal, de acordo com o Inca (Instituto Nacional do Câncer), do Ministério da Saúde, neste ano nada menos que 90 mil pessoas vão morrer da doença no Brasil, enquanto outras 350 mil contrairão o mal. É cancerígeno? O teste responde
Criado há
10 anos pelo médico patologista João Lauro Viana de Camargo
e pelas biólogas Lúcia Regina Ribeiro, já aposentada,
e Daisy Fávero Salvadori, o Toxican (Núcleo de Avaliação
Toxicogenética e Cancerígena), do Departamento de Patologia
da FM/UNESP, campus de Botucatu, aponta suas baterias nessa direção.
Reunindo seis pesquisadores e 25 pós-graduandos, o Núcleo
promove vários tipos de testes, inclusive de carcinogenicidade,
que identificam agentes químicos cancerígenos, e de mutagenicidade,
que avaliam danos cromossômicos. Paulo Velloso |
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