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[ n. 199/abril 2005 ]
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Vicente Pleitez e George Matsas Estamos em plena comemoração do centenário do annus mirabilis, ou ano milagroso se preferirem, de 1905, quando Einstein publicou três trabalhos espetaculares (isso sem incluir o artigo onde ele introduz a famosa fórmula E=mc²). Um desses trabalhos ficaria mais tarde associado à Teoria da Relatividade Especial. É tempo de comemorar e refletir. As motivações de Einstein sempre se restringiram a entender melhor o Universo em que vivemos. Não consta que ele tivesse alguma preocupação com as aplicações práticas de suas descobertas. Num mundo em que ecoam pelos becos vozes anunciando que ciência aplicada é fonte de riqueza, enquanto ciência básica é motivo de prejuízo, vale perguntar: o modo de pensar de Einstein tornou-se démodé?!? Em geral, as críticas à ciência básica não são feitas diretamente, mas por meio de questionamentos do tipo: Afinal, num mundo com tantas carências, precisamos mesmo de ciência básica? Sim, é a resposta. Incrédulo? Então, vamos aos fatos. Einstein propôs a teoria da emissão estimulada da luz em 1917. Naquela época, ninguém, nem mesmo ele, podia imaginar que uns 40 anos mais tarde ela seria essencial para a construção do primeiro laser, que, hoje, não só permite que nos deliciemos com nossos CDs, mas também salva vidas. Por falar nisso, os modernos chips de computadores, rápidos e confiáveis, não existiriam se não fosse a Mecânica Quântica. Quantos saberiam dizer o que é a Mecânica Quântica? Poucos, sem dúvida, mas o fato é que, nascida da curiosidade de físicos teóricos, Einstein inclusive, que queriam entender os fenômenos submicroscópicos, ela movimenta hoje uma parte significativa do produto interno bruto mundial. A curiosidade pode ter matado o gato, mas neste caso tem salvado vidas com aparelhos de ressonância magnética, tomografias computadorizadas e assim por diante. E justiça seja feita aos matemáticos puros: se hoje temos computadores, é também graças aos avanços da lógica matemática. E quanto à Relatividade, o outro pilar da física moderna, cujo centenário comemoramos neste ano? Teria ela alguma utilidade? Teria ela trazido um único benefício? A resposta novamente é um positivo Sim! O sistema GPS (Sistema Global de Posicionamento), para citar apenas um exemplo, não funcionaria sem as equações de Einstein. Quem poderia imaginar que esse aparelhinho seria inútil sem as correções provindas das teorias que descrevem o espaço-tempo? Vale a pena lembrar, toda vez que pegarmos um avião, que nossa segurança em parte depende da Relatividade. E há muito mais: sem a energia nuclear, vários países teriam literalmente apagado. Contudo, não foi pensando em resolver o problema energético do mundo que Einstein propôs sua famosa fórmula E=mc2. Ainda mais uma vez, sua preocupação era apenas a de entender a natureza. A lista é interminável... O fato é que grandes avanços tecnológicos são em geral devidos a grandes descobertas teóricas, e grandes descobertas teóricas simplesmente não são encomendadas. Não se trata de os governantes e legisladores reconhecerem que, se não fossem as descobertas de cientistas dedicados a apenas entender a natureza, as bolsas de valores estariam negociando hoje ações de arcos e flechas, mas de se usar esse conhecimento no planejamento estratégico futuro. Não reconhecer isso é institucionalizar a miopia e comprometer nosso futuro. Por mais que se reconheça que a receita nacional é um cobertor curto, não é admissível que um país com o porte do Brasil, com seus quase 200 milhões de habitantes, não tenha um único prêmio Nobel, ou é? Se nosso objetivo fosse apenas o de tentar cativar corações e mentes sobre a importância da ciência básica, talvez pudéssemos encerrar aqui este artigo; mas há mais um ponto que gostaríamos de enfatizar para os imediatistas radicais que insistem em condenar a ciência básica por aquelas descobertas que (ainda) não trouxeram dividendos tecnológicos. Acontece que as descobertas científicas possuem um valor que vai muito além de suas implicações tecnológicas. A descoberta de que o Universo está se expandindo, por exemplo, talvez nunca mitigue a fome ou a miséria dos povos, mas ainda assim ela nos lembra que uma espécie que chegou tão longe tem uma responsabilidade que transcende sua simples autopreservação e deveria zelar com mais empenho por sua dignidade e decência. Sim, o Universo está se expandindo e há pouco mais de 10 bilhões de anos ele era uma sopa cósmica incrivelmente quente de partículas elementares. Nós somos a única espécie sobre a superfície da Terra que sabe disso e de muitas outras coisas. Alguns chamam isso de evolução, nós o chamamos de milagre. Um milagre que nos foi concedido independentemente de atos de fé. Sr. Mercado, por mais piegas que possa parecer, dinheiro não é tudo! Vicente
Pleitez e George Matsas são, respectivamente, professores titular
e livre-docente no Instituto de Física Teórica (IFT) da
Unesp. |
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