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[ n. 199/abril 2005 ]

Pág. 03

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::AMBIENTE::

 

MICROBIOLOGIA
Agente natural de limpeza
Detergente produzido a partir de bactéria pode recuperar áreas poluídas por petróleo

Vazamentos de petróleo ou de seus derivados foram responsáveis por alguns dos principais desastres ecológicos do País. Uma pesquisa em andamento no Laboratório de Microbiologia Industrial do Instituto de Biociências (IB), campus da UNESP de Rio Claro, poderá resultar em uma nova opção de recuperação ambiental após esses acidentes, utilizando um produto natural. Trata-se de um detergente biológico – também chamado de biossurfatante ou biotensoativo – produzido pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em solos e águas poluídos.

Para sobreviver, a bactéria utiliza o carbono existente no petróleo e outros produtos e, a fim de chegar a sua “fonte de alimento”, produz a substância biossurfatante. Em estudos sob a coordenação de Jonas Contiero, professor do Departamento de Bioquímica e Microbiologia do IB, o produto mostrou-se capaz de remover petróleo de amostras de areia e solo contaminados.

Os detergentes utilizados comercialmente são obtidos por síntese química e não se degradam, poluindo a natureza. Os biossurfatantes despertam interesse dos pesquisadores por serem biodegradáveis e não-tóxicos, características cada vez mais valorizadas com a crescente atenção dada à preservação do meio ambiente.

Apesar das vantagens, os biossurfatantes ainda não são fabricados em larga escala no Brasil, devido aos altos custos de produção. “Uma solução econômica é reutilizar resíduos ricos em nutrientes, descartados pela indústria, como ‘alimento’ mais barato para as bactérias”, propõe Contiero. “Assim, é possível reduzir em até 40% o preço do produto final.”

Os resíduos escolhidos para o trabalho são subprodutos do processo de fabricação de óleos vegetais, como soja, milho, palma, babaçu e algodão. Uma das responsáveis pelo projeto, a pesquisadora Márcia Nitschke estima que entre 2% e 3% do total de óleo produzido no País é descartado na forma de borra oleosa. “Esse resíduo ainda contém quantidades suficientes de óleo, que podem servir como nutriente para o microrganismo sintetizar o biossurfatante, transformando uma sobra descartável em um produto nobre”, afirma.

Contiero assinala que as bactérias produtoras de biossurfatantes também podem ser usadas na descontaminação de solos e águas afetados por poluentes como querosene, gasolina e óleo diesel. As substâncias são utilizadas, ainda, na recuperação do óleo bruto aderido às rochas durante o processo de extração, melhorando, assim, a retirada do produto. Além disso, seu uso é comum em diversos segmentos da indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética, enquanto agentes formadores de emulsões. “Esses compostos também demonstraram atividades antibióticas, inibindo o desenvolvimento de bactérias e fungos”, comenta o pesquisador.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o estudo atualmente está na fase de análise das estruturas químicas dos biossurfatantes produzidos nos diferentes resíduos de óleos vegetais. “Dessa forma, poderemos relacionar a composição inicial do óleo com a estrutura e as características do produto obtido”, esclarece Contiero. Segundo ele, já se iniciaram também as pesquisas para produção em maior escala do biossurfatante, por meio de fermentadores.



Julio Zanella

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