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[ n. 199/abril 2005]

Págs. 08 e 09

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::REPORTAGEM DE CAPA::

IGUARIA COM TEMPERO DE CIÊNCIA
Centro de Aqüicultura da UNESP desenvolve pacote de tecnologia para estimular produção e consumo de camarão-da-amazônia





André Louzas

A produção comercial de camarões de água doce no Brasil é dominada por um “estrangeiro”: o camarão-da-malásia, espécie asiática introduzida há três décadas. No entanto, o País abriga espécies nativas que poderiam também chegar à mesa da população e até se tornar um item de exportação. Um caso exemplar é o camarão-da-amazônia (Macrobrachium amazonicum), que, apesar de ser mais abundante na Região Norte, pode ser encontrado até o Paraná.

Uma das vantagens do cultivo dessa espécie é o seu baixo impacto ambiental, principalmente em comparação com a criação dos camarões marinhos, que origina problemas como a destruição de mangues pela construção de viveiros e a poluição das áreas próximas por fósforo, nitrogênio e outras substâncias presentes na água descartada pelos produtores.

Desde 2000 está em funcionamento um programa de abrangência nacional destinado a garantir a produção sustentável desse crustáceo. “Esse é o primeiro programa na área de organismos aquáticos voltado para o desenvolvimento de tecnologia completa para criação de uma espécie nativa”, explica o idealizador da proposta e coordenador geral dos trabalhos Wagner Cotroni Valenti, professor do Departamento de Biologia Aplicada da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), do campus de Jaboticabal, e pesquisador do Centro de Aqüicultura da UNESP.

Formada por diversos projetos, a iniciativa reúne cerca de 50 pessoas, entre pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação, de doze instituições de vários Estados, entre as quais estão a USP, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto de Pesca da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, Secretaria da Agricultura do Pará, Universidade Federal do Pará, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e Universidade Federal Rural da Amazônia, entre outras.

O objetivo desse time é realizar estudos multidisciplinares e multiinstitucionais relacionados a todas as etapas do processo de produção do camarão-da-amazônia, abrangendo aspectos que vão da fisiologia e morfologia até análises para avaliar o impacto ambiental do processo de criação, além da busca de opções culinárias com a carne desse animal. “Para produzir um pacote tecnológico, como pretendemos, é preciso gerar muita informação integrada e dirigida para questões definidas”, argumenta o biólogo.

Um dos grupos ligados ao programa é coordenado pela professora Irene Bastos Franceschini Vicentini, do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências, campus da UNESP de Bauru, cujos esforços são direcionados para a morfologia – ou seja, a composição dos tecidos que formam os órgãos – desse crustáceo. “Pesquisamos principalmente os aparelhos digestório e reprodutor masculino e feminino dessa espécie, a fim de subsidiar a produção de machos e fêmeas, que servirão tanto de reprodutores quanto de alimento para consumo humano”, esclarece a pesquisadora.

O grupo liderado por Irene já soma conquistas como o aumento da fecundidade entre fêmeas, a partir do acréscimo à sua ração de um ácido graxo (gordura) que estimula a produção de ovos. “Também já obtivemos bons resultados na tentativa de antecipar a maturação sexual dos machos, por meio da adição de colesterol à ração”, acrescenta a bióloga.

Valenti ressalta que o programa tem a preocupação de gerar uma tecnologia de produção que seja sustentável em termos sociais, econômicos e ambientais. Ele recorda que, no processo de alimentação dos camarões, a ração é distribuída manualmente por um trabalhador, em vez de ser lançada por uma máquina. “Esse sistema diminui o volume de ração distribuída, reduzindo os custos do produtor e a quantidade de poluição lançada no ambiente, ao mesmo tempo que garante o emprego de um funcionário”, explica.

Outra preocupação é com o bem-estar do animal – isto é, deve-se evitar o sofrimento desnecessário dos crustáceos. “Não utilizamos técnicas como, por exemplo, o corte dos olhos do animal, usada para induzir a reprodução dos camarões marinhos”, acentua.

O biólogo assegura que o programa já garantiu o domínio da tecnologia de produção de larvas (ou seja, dos camarões recém-nascidos), pós-larvas (entre 20 e 30 dias de vida) e adultos (com mais de 3 meses de idade). O próximo desafio, que se inicia em 2005, é a implantação de um projeto-piloto no Pará, a fim de avaliar a viabilidade comercial das tecnologias desenvolvidas. Inicialmente, será implementada uma estação para produção de pós-larvas na sede da Secretaria da Agricultura do Pará, em Belém. “Essas pós-larvas serão depois enviadas para 10 projetos de engorda de camarões a serem instalados no Estado a partir de 2006”, afirma.

Dois técnicos da Secretaria da Agricultura daquele Estado já realizam um estágio, entre março e junho deste ano, na sede do Caunesp. “A tecnologia que viemos aprender será depois transferida para os produtores em municípios próximos de Belém”, esclarece Dolores Amorim, bióloga da Secretaria. Dolores enfatiza que o camarão-da-amazônia é um alimento popular em seu Estado, cuja exploração garante o sustento de milhares de pessoas. “Esse processo, porém, hoje é extrativista, o que tem levado à redução nos estoques naturais”, adverte.

Valenti destaca que, se a experiência no Pará for bem-sucedida, a cultura do camarão-da-amazônia poderá ser estendida para outros pontos do País e até ingressar na pauta de exportações. “O processo que desenvolvemos resulta num produto com baixo impacto ambiental e que deverá beneficiar populações da Amazônia, características que podem ser um atrativo de comercialização no Exterior”, justifica.

Padrão internacional
Atividades do Caunesp atraem especialistas do País e do Exterior

O Centro de Aqüicultura da UNESP (Caunesp) é considerado uma referência internacional em sua especialidade, que envolve o cultivo de animais como peixes, camarões de água doce, rãs e jacarés. Essa unidade complementar da UNESP, voltada para o ensino, a pesquisa e a extensão em Aqüicultura e Biologia Aquática, mantém convênios de cooperação com instituições de países como Estados Unidos, França, Alemanha e Argentina.

O funcionamento do Centro envolve cerca de 40 docentes de cinco campi – Jaboticabal, onde se localiza sua sede, Rio Claro, Botucatu, Bauru e São José do Rio Preto –, além de técnicos e funcionários. “O Caunesp integra especialistas de vários setores, como Ciências Biológicas, Engenharia de Pesca, Ciências Agrárias, Medicina Veterinária e Ecologia”, comenta Elisabeth Criscuolo Urbinati, diretora do Centro e docente do Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCAV), do campus de Jaboticabal.

Elisabeth destaca a importância do curso de pós-graduação em Aqüicultura mantido pelo Caunesp, que reúne anualmente cerca de 90 estudantes de mestrado e doutorado. “O curso tem atraído alunos de quase todos os Estados e de outros países, como Venezuela, Bolívia, Colômbia, Peru, Cabo Verde e até do Japão”, enfatiza. Entre 1992 e 2004, a produção do Centro atingiu 49 doutorados e 107 mestrados. Além disso, em nível de graduação, um grande número de estagiários do País e da América do Sul procura o Centro para realizar seus trabalhos de conclusão de curso.

Seis grupos de pesquisa cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) estão ligados ao Caunesp. Um deles é o de Nutrição de Organismos Aquáticos, liderado por Elisabeth e pelo professor Dalton José Carneiro, do Departamento de Zootecnia da FCAV. “Estudamos todos os aspectos da nutrição, desde o metabolismo dos peixes até a eficiência dos alimentos e dietas”, comenta Carneiro.

Além de já ter publicado cerca de uma centena de artigos em periódicos nacionais e do Exterior, o grupo mantém convênios e cooperações com instituições internacionais e indústrias, associações de produtores e prefeituras do País, para o desenvolvimento de produtos de nutrição, principalmente para espécies de peixes comuns no Brasil, como pacus, matrinxãs, pintados e tilápias.

Carneiro assinala, ainda, a inserção dos ex-alunos do grupo, geralmente doutores, nas indústrias de ração. “Eles levam uma nova mentalidade para a produção de alimentos para organismos aquáticos, tradicionalmente fundamentada nos conceitos usados para aves e suínos”, enfatiza.

Entre os docentes do grupo está Marta Verardino de Stefani, do Departamento de Zootecnia da FCAV, responsável pelo setor de Ranicultura do Caunesp. Marta, entre outras pesquisas, desenvolve metodologia de coleta de fezes de girinos e rãs para avaliar a digestibilidade do alimento, ou seja, o aproveitamento que o animal obtém do que consome. “Essa análise ajuda a definir as exigências nutricionais das rãs, importantes para se preparar uma ração adequada”, enfatiza.

Outra linha de trabalho, coordenada por Elisabeth, poderá contribuir para retirar a piracanjuba da lista de animais ameaçados de extinção no País. Os pesquisadores estão expondo os ovos desse peixe a hormônios da tireóide humana, que estimulam o desenvolvimento dos órgãos das larvas, garantindo maiores chances para sua sobrevivência. “Com isso, milhares de peixes poderão ser no futuro devolvidos à natureza e produzidos para consumo em viveiro, de modo a poupar a pesca do estoque selvagem”, afirma ela.

A pesquisa básica representa o eixo dos trabalhos do Grupo de Morfologia de Organismos Aquáticos, liderado pelos professores Carlos Alberto Vicentini, do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências (FC), campus de Bauru, e Laura Nakaghi, do Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal da FCAV. “Uma de nossas linhas de pesquisa investiga as células do aparelho reprodutor masculino e feminino de peixes como pacus, matrinxãs e tilápias”, esclarece Vicentini, que é vice-diretor do Caunesp.

A preocupação com a poluição causada pela aqüicultura deu origem a algumas linhas de investigação do Caunesp. O grupo liderado por Antonio Fernando Monteiro Camargo, docente do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB), campus de Rio Claro, desenvolve sistemas de tratamento de água usando plantas
aquáticas. “Nossos melhores resultados nesse processo foram obtidos com aguapés”, revela Camargo.

Uma das peculiaridades do Centro é a colaboração entre os grupos. Os integrantes da equipe de Camargo, por exemplo, estudam o potencial das plantas aquáticas para alimentação de peixes em parceria com o professor Luis Edivaldo Pezzato, do Departamento de Melhoramento e Nutrição Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), campus de Botucatu.

Ao lado do professor Flávio Ruas de Moraes, do Departamento de Patologia Veterinária da FCAV, Pezzato coordena o Grupo de Extensão e Pesquisa em Ictiopatologia, que investiga as doenças dos peixes e cuja atividade se distribui em três linhas de estudos: a primeira, sobre os efeitos do estresse causado nos animais por fatores como a densidade populacional dos viveiros; a segunda, voltada para a fauna de parasitas e os métodos para seu controle; e a terceira, relacionada às alterações sanguíneas dos peixes.

Já o grupo liderado por Lúcia Helena Sipaúba Tavares, pesquisadora do Caunesp, tem como uma de suas principais atividades o estudo da ecologia dos viveiros. “Também propomos opções para o manejo desses ecossistemas, para evitar a proliferação de microrganismos não adequados à criação dos peixes”, ressalta Lucia. Outra linha de pesquisa volta-se para a produção de algas e zooplânctons – o alimento básico das larvas desses animais –, a partir de meios de alimentação alternativos, como o NPK (20-5-20) (fórmula que indica a proporção de nitrogênio, fósforo e potássio do composto utilizado).

O Caunesp soma 19 laboratórios associados, que se espalham pelos cinco campi, e 9 laboratórios próprios, todos em Jaboticabal, com exceção do de Biologia e Criação de Répteis, que funciona no Instituto de Biociências do campus de Rio Claro. Sob a responsabilidade de Augusto Shinya Abe, docente do Departamento de Zoologia do IB, o laboratório de Rio Claro garante a criação, na área de aqüicultura, de jacarés-de-papo-amarelo e tartarugas. “No caso dos jacarés, coordenamos estudos sobre comportamento, reprodução, dieta e, principalmente, fisiologia dos animais”, declara Abe.

Orgulhosa da posição destacada do Centro que dirige, Elisabeth demonstra otimismo quanto ao futuro de suas atividades. Em primeiro lugar, segundo a pesquisadora, pelo vigor da aqüicultura no País, que registra uma expansão média anual de 25%. “Além disso, a vitalidade da produção de nossos pesquisadores,
aliada à qualidade da formação de recursos humanos, reforça nossas possibilidades de crescimento”, comenta.

Quando a pesquisa chega à mesa
Doutorando da FCAV prepara pratos com o crustáceo

Professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Norton Hayd Rego realiza seu doutorado na área de manejo de ecossistemas florestais na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) do campus da UNESP de Jaboticabal. Graças a seu talento culinário, porém, Rego também colabora com a equipe do Centro de Aqüicultura da UNESP (Caunesp) nas pesquisas para obtenção de novas opções culinárias com o camarão-da-amazônia. Rego dá a receita do “Camarão à imperatriz”, que pode ser servido para quatro pessoas:
Ingredientes:
1 cebola grande
1 xícara (café) de cheiro-verde
1 colher (café) de ervas finas
1 lata pequena de creme de leite
1 lata de molho de tomate
1/2 xícara (chá) de azeite
2 colheres (sopa) de molho inglês
400 g de camarão (médio ou grande)
100 g de champignon fatiado
2 panelas de fundo arredondado
Numa panela, refogar a cebola no azeite até que ela fique dourada, adicionar as ervas finas e, em seguida, o molho de tomate e o champignon.
Assim que a mistura ferver, apagar o fogo. Em outra panela, colocar duas colheres de azeite e refogar o camarão por cerca de 2 minutos, mexendo-o constantemente, até que a carne adquira uma coloração esbranquiçada. Em seguida, despejar o camarão na panela com os outros ingredientes e reacender o fogo. Com uma colher de pau, mexer por 30 segundos, acrescentar o creme de leite e, em seguida, desligar o fogo.

Bom apetite!

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