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PIONEIRISMO
EM MURAIS
Pennacchi inova na criação
do projeto arquitetônico e na pintura de afrescos
Técnica
de pintura sobre paredes de argamassa ou cal, ainda frescas, que
utiliza pigmentos de tinta dissolvidos em água, o afresco
surgiu em 3 mil a.C. na Mesopotâmia, sendo muito utilizado
na Europa. Os pintores italianos, até o surgimento da tinta
a óleo, no século XIV, só executavam têmpera
ou afresco, tendo como principais representantes Michelangelo e
Rafael.
Em São Paulo, o grande mestre da técnica do afresco
foi o italiano Fulvio Pennacchi (1905-1992). Pioneiro em introduzir,
entre 1937 e 1939, a pintura mural a óleo em espaço
público, com a obra sobre o Ciclo da História
da Imprensa no hall de entrada da antiga sede do jornal A
Gazeta, hoje Tribunal Regional do Trabalho, ele foi ainda mais inovador
ao criar o projeto arquitetônico e pintar os afrescos da primeira
obra religiosa moderna brasileira, a Igreja de Nossa Senhora da
Paz, na região da várzea do Glicério, em São
Paulo, a partir de 1940.
Essa história é contada na dissertação
de mestrado Pennacchi, afresco e pioneirismo em São Paulo,
apresentada por Antonio Reis Quedas ao Instituto de Artes da UNESP,
campus de São Paulo, em 2004. O autor mostra como o artista
italiano soube introduzir conceitos modernos de pintura mural religiosa
e profana, reinterpretando os grandes mestres do passado. Ele
valorizava a plasticidade dos artistas renascentistas e a depurava
com uma estrutura geometrizada oriunda de Cézanne, o artista
francês onde está a raiz do cubismo, afirma Quedas.
Também defendia em seu projeto, de forma muito original
para a época, a união entre a arquitetura, a escultura
e a pintura.
Pennacchi utilizou técnicas inovadoras na aplicação
do reboco fino (intocato), usando armações de celotex,
tipo de compensado empregado no Brasil na década de 1940
e manufaturado com a fibra da cana-de-açúcar. Ele
contornava a figura que ia pintar com o celotex e a seguir aplicava
a argamassa, evitando retirar com a colher de pedreiro as partes
do afresco não utilizadas no dia seguinte, explica
Quedas. O mais impressionante é que fazia tudo sozinho,
sem ajudantes, buscando sempre ganhar tempo e atender às
pressões de quem lhe solicitava as encomendas.
O pintor italiano também desenvolveu outra técnica.
Em vez de passar para o reboco fino a transferência
do contorno do desenho mediante o uso de papel Kraft pressionando-o
com um estilete de madeira, Pennacchi ia direto ao reboco semi-úmido,
desenhando com uma barrinha de ferro o contorno, que depois coloria,
comenta Quedas. Além disso, pesquisou novos materiais
e utilizou em seus afrescos pigmentos naturais encontrados no Brasil,
como o terra-vermelha e o terra-amarelo.
Tudo isso permitiu que, na execução dos afrescos da
Igreja de Nossa Senhora da Paz, voltada para a comunidade italiana
de São Paulo, Pennacchi conseguisse agilizar a colocação
da argamassa na parede, sem perda da qualidade da pintura. Ele foi
chamado pelo padre Francesco Milini (1904-1996) para fazer os afrescos
em 1938, mas recusou pela modéstia do projeto arquitetônico
apresentado que, segundo ele, não representaria bem a arte
italiana na cidade.
As plantas, mesmo assim, foram enviadas à Itália e
desaprovadas. O padre teve então que refazer os estudos,
contratando Pennacchi e o engenheiro de construção
Leopoldo Pettini para o serviço. O resultado foi um edifício
que faz uma releitura do estilo românico primitivo, com cinco
grandes arcos na fachada, altura de 20 metros, 25 metros de largura
e comprimento total de 56 metros. A área ocupada é
de 1.500 m2, com capacidade para 3 mil fiéis. Internamente,
há oito altares laterais, uma Capela do Santíssimo
Sacramento e uma sacristia.
O projeto foi concretizado entre 1942 e 1945 e inclui 31 afrescos
de Pennacchi, sendo os mais destacados os 22 murais localizados
nas capelas laterais e altar-mor. Neste, os afrescos dividem-se
em dois grupos harmoniosamente equilibrados. Do lado esquerdo, o
da cena da natividade da Virgem, com altura média das figuras
em 2,5 m. Do outro lado, o nascimento do menino Jesus. O dado
curioso é que não estão pintados na adoração
os três Reis Magos nem a tradicional manjedoura, mas humildes
pastores, explica Quedas.
Há, no centro, um afresco enorme com Cristo Crucificado de
mais de 6 m de altura com amplas nuanças de colorido e perfeita
proporcionalidade. A fisionomia de Jesus é serena e
não torturada, comenta o autor da pesquisa. O conjunto
se completa com a padroeira Nossa Senhora da Paz, em mármore,
executada pelo escultor italiano Galileo Emendabili, colocada atrás
do altar, sobre um pilar.
Ao lado direito do altar-mor, está o afresco que mostra a
aparição do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora. À
esquerda, na capela do Santíssimo, há mais dois: a
ceia de Emaús, que retrata a história do reencontro
de Cristo ressuscitado com dois discípulos em uma estalagem
na aldeia de Emaús, perto de Jerusalém, e o Bom Pastor,
que carrega uma ovelhinha sobre os ombros, atitude que representa
simbolicamente a Eucaristia como alimento da Alma. Pennacchi
inspirou-se na figura arcaica do Bom Pastor das catacumbas romanas,
analisa Quedas.
Outros destaques são os afrescos das capelas de Santa Catarina
de Siena, São Carlos Borromeu, Santo Antônio e São
Francisco de Assis, além de um afresco do Juízo Final.
Foi colocado para recordar que a vida do espírito não
pode ser substituída pelo materialismo, esclarece o
pesquisador. O artista inspirou-se no Juízo Final da
Capela Arena, em Pádua, pintada por Giotto, em 1302.
No refeitório do convento da igreja de Nossa Senhora da Paz
há uma Santa Ceia, que mostra o momento em que Cristo anuncia
haver um traidor entre os presentes. Estão fixadas
ali atitudes individuais, como espanto, suspeita, indiferença,
dúvida, indignação e amor, descreve Quedas.
É um ótimo exemplo da habilidade de Pennacchi
na elaboração de murais dentro de padrões clássicos,
mas com indícios de modernidade na composição,
aponta.
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O
Artista
Nascido em 27 de
dezembro de 1905, em Villa Collemandina, na Toscana, o pintor
italiano Fulvio Pennachi fez os estudos elementares em Castiglione
e os secundários em Pisa. Iniciou os superiores em pintura
na Real Academia de Arte Passaglia, de Lucca, onde, após
a sua graduação, em 1928, substituiu o seu mestre
Pio Semeghini como professor. Chega ao Brasil em 1929, estabelecendo-se
em São Paulo. Trabalhou inicialmente como pedreiro, operário
e açougueiro, mas nunca deixou de pesquisar e desenhar,
valendo-se da boa formação técnica e artística
adquirida na Itália. Seus conhecimentos de pintura renascentista
colocaram-no como um dos principais produtores de afrescos no
Brasil, principalmente de temas religiosos. Casou-se, em 1945,
com Filomena Maria DallAste Brandolini, com quem teve
oito filhos. Faleceu em 5 de outubro de 1992, em São
Paulo. |
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Oscar
DAmbrosio
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