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[ n. 198/março 2005]

Pág. 16

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::ARTES PLÁSTICAS::

PIONEIRISMO EM MURAIS
Pennacchi inova na criação do projeto arquitetônico e na pintura de afrescos

Técnica de pintura sobre paredes de argamassa ou cal, ainda frescas, que utiliza pigmentos de tinta dissolvidos em água, o afresco surgiu em 3 mil a.C. na Mesopotâmia, sendo muito utilizado na Europa. Os pintores italianos, até o surgimento da tinta a óleo, no século XIV, só executavam têmpera ou afresco, tendo como principais representantes Michelangelo e Rafael.

Em São Paulo, o grande mestre da técnica do afresco foi o italiano Fulvio Pennacchi (1905-1992). Pioneiro em introduzir, entre 1937 e 1939, a pintura mural a óleo em espaço público, com a obra sobre o “Ciclo da História da Imprensa” no hall de entrada da antiga sede do jornal A Gazeta, hoje Tribunal Regional do Trabalho, ele foi ainda mais inovador ao criar o projeto arquitetônico e pintar os afrescos da primeira obra religiosa moderna brasileira, a Igreja de Nossa Senhora da Paz, na região da várzea do Glicério, em São Paulo, a partir de 1940.

Essa história é contada na dissertação de mestrado Pennacchi, afresco e pioneirismo em São Paulo, apresentada por Antonio Reis Quedas ao Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, em 2004. O autor mostra como o artista italiano soube introduzir conceitos modernos de pintura mural religiosa e profana, reinterpretando os grandes mestres do passado. “Ele valorizava a plasticidade dos artistas renascentistas e a depurava com uma estrutura geometrizada oriunda de Cézanne, o artista francês onde está a raiz do cubismo”, afirma Quedas. “Também defendia em seu projeto, de forma muito original para a época, a união entre a arquitetura, a escultura e a pintura.”

Pennacchi utilizou técnicas inovadoras na aplicação do reboco fino (intocato), usando armações de celotex, tipo de compensado empregado no Brasil na década de 1940 e manufaturado com a fibra da cana-de-açúcar. “Ele contornava a figura que ia pintar com o celotex e a seguir aplicava a argamassa, evitando retirar com a colher de pedreiro as partes do afresco não utilizadas no dia seguinte”, explica Quedas. “O mais impressionante é que fazia tudo sozinho, sem ajudantes, buscando sempre ganhar tempo e atender às pressões de quem lhe solicitava as encomendas.”

O pintor italiano também desenvolveu outra técnica. “Em vez de passar para o reboco fino a transferência do contorno do desenho mediante o uso de papel Kraft pressionando-o com um estilete de madeira, Pennacchi ia direto ao reboco semi-úmido, desenhando com uma barrinha de ferro o contorno, que depois coloria”, comenta Quedas. “Além disso, pesquisou novos materiais e utilizou em seus afrescos pigmentos naturais encontrados no Brasil, como o terra-vermelha e o terra-amarelo.”

Tudo isso permitiu que, na execução dos afrescos da Igreja de Nossa Senhora da Paz, voltada para a comunidade italiana de São Paulo, Pennacchi conseguisse agilizar a colocação da argamassa na parede, sem perda da qualidade da pintura. Ele foi chamado pelo padre Francesco Milini (1904-1996) para fazer os afrescos em 1938, mas recusou pela modéstia do projeto arquitetônico apresentado que, segundo ele, não representaria bem a arte italiana na cidade.
As plantas, mesmo assim, foram enviadas à Itália e desaprovadas. O padre teve então que refazer os estudos, contratando Pennacchi e o engenheiro de construção Leopoldo Pettini para o serviço. O resultado foi um edifício que faz uma releitura do estilo românico primitivo, com cinco grandes arcos na fachada, altura de 20 metros, 25 metros de largura e comprimento total de 56 metros. A área ocupada é de 1.500 m2, com capacidade para 3 mil fiéis. Internamente, há oito altares laterais, uma Capela do Santíssimo Sacramento e uma sacristia.
O projeto foi concretizado entre 1942 e 1945 e inclui 31 afrescos de Pennacchi, sendo os mais destacados os 22 murais localizados nas capelas laterais e altar-mor. Neste, os afrescos dividem-se em dois grupos harmoniosamente equilibrados. Do lado esquerdo, o da cena da natividade da Virgem, com altura média das figuras em 2,5 m. Do outro lado, o nascimento do menino Jesus. “O dado curioso é que não estão pintados na adoração os três Reis Magos nem a tradicional manjedoura, mas humildes pastores”, explica Quedas.

Há, no centro, um afresco enorme com Cristo Crucificado de mais de 6 m de altura com amplas nuanças de colorido e perfeita proporcionalidade. “A fisionomia de Jesus é serena e não torturada”, comenta o autor da pesquisa. O conjunto se completa com a padroeira Nossa Senhora da Paz, em mármore, executada pelo escultor italiano Galileo Emendabili, colocada atrás do altar, sobre um pilar.

Ao lado direito do altar-mor, está o afresco que mostra a aparição do Arcanjo Gabriel a Nossa Senhora. À esquerda, na capela do Santíssimo, há mais dois: a ceia de Emaús, que retrata a história do reencontro de Cristo ressuscitado com dois discípulos em uma estalagem na aldeia de Emaús, perto de Jerusalém, e o Bom Pastor, que carrega uma ovelhinha sobre os ombros, atitude que representa simbolicamente a Eucaristia como alimento da Alma. “Pennacchi inspirou-se na figura arcaica do Bom Pastor das catacumbas romanas”, analisa Quedas.

Outros destaques são os afrescos das capelas de Santa Catarina de Siena, São Carlos Borromeu, Santo Antônio e São Francisco de Assis, além de um afresco do Juízo Final. “Foi colocado para recordar que a vida do espírito não pode ser substituída pelo materialismo”, esclarece o pesquisador. “O artista inspirou-se no Juízo Final da Capela Arena, em Pádua, pintada por Giotto, em 1302.”

No refeitório do convento da igreja de Nossa Senhora da Paz há uma Santa Ceia, que mostra o momento em que Cristo anuncia haver um traidor entre os presentes. “Estão fixadas ali atitudes individuais, como espanto, suspeita, indiferença, dúvida, indignação e amor”, descreve Quedas. “É um ótimo exemplo da habilidade de Pennacchi na elaboração de murais dentro de padrões clássicos, mas com indícios de modernidade na composição”, aponta.

  O Artista
Nascido em 27 de dezembro de 1905, em Villa Collemandina, na Toscana, o pintor italiano Fulvio Pennachi fez os estudos elementares em Castiglione e os secundários em Pisa. Iniciou os superiores em pintura na Real Academia de Arte Passaglia, de Lucca, onde, após a sua graduação, em 1928, substituiu o seu mestre Pio Semeghini como professor. Chega ao Brasil em 1929, estabelecendo-se em São Paulo. Trabalhou inicialmente como pedreiro, operário e açougueiro, mas nunca deixou de pesquisar e desenhar, valendo-se da boa formação técnica e artística adquirida na Itália. Seus conhecimentos de pintura renascentista colocaram-no como um dos principais produtores de afrescos no Brasil, principalmente de temas religiosos. Casou-se, em 1945, com Filomena Maria Dall’Aste Brandolini, com quem teve oito filhos. Faleceu em 5 de outubro de 1992, em São Paulo.
 

Oscar D’Ambrosio

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